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29 de outubro de 2006

Conto "José Matias" , do Eça de Queiroz

JOSÉ MATIAS
LINDA tarde, meu amigo!... Estou esperando o enterro do José Matias – do José Matias de Albuquerque, sobrinho do Visconde de Garmilde... O meu amigo certamente o conheceu – um rapaz airoso, louro como uma espiga, com um bigode crespo de paladino sobre uma boca indecisa de contemplativo, destro cavaleiro, duma elegância sóbria e fina. E espírito curioso, muito afeiçoado às ideias gerais, tão penetrante que compreendeu a minha Defesa da Filosofia Hegeliana! Esta imagem do José Matias data de 1865: porque a derradeira vez que o encontrei, numa tarde agreste de Janeiro, metido num portal da Rua de S. Bento, tiritava dentro duma quinzena cor de mel, roída nos cotovelos, e cheirava abominàvelmente a aguardente.
Mas o meu amigo, numa ocasião que o José Matias parou em Coimbra, recolhendo do Porto, ceou com ele, no Paço do Conde! Até o Craveiro, que preparava as Ironias e Dores de Satã, para acirrar mais a briga entre a Escola Purista e a Escola Satânica, recitou aquele seu soneto, de tão fúnebre idealismo: Na jaula do meu peito, o coração... E ainda lembro o José Matias, com uma grande gravata de cetim preto, tufada entre o colete de linho branco, sem despegar os olhos das velas das serpentinas, sorrindo pàlidamente àquele coração que rugia na sua jaula... Era uma noite de Abril, de Lua-cheia. Passeámos depois em bando, com guitarras, pela Ponte e pelo Choupal. O Januário cantou ardentemente as endechas românticas do nosso tempo:
Ontem de tarde, ao sol-posto,Contemplavas, silenciosa,A torrente caudalosaQue refervia a teus pés...
E o José Matias, encostado ao parapeito da Ponte, com a alma e os olhos perdidos na Lua! – Por que não acompanha o meu amigo este moço interessante ao Cemitério dos Prazeres? Eu tenho uma tipóia, de praça e com número, como convém a um Professor de Filosofia... O quê? Por causa das calças claras! Oh! meu caro amigo! De todas as materializações da simpatia, nenhuma mais grosseiramente material do que a casimira preta. E o homem que nós vamos enterrar era um grande espiritualista!
Vem o caixão saindo da igreja... Apenas três carruagens para o acompanhar. Mas realmente, meu caro amigo, o José Matias morreu há seis anos, no seu puro brilho. Esse, que aí levamos, meio decomposto, dentro de tábuas agaloadas de amarelo, é um resto de bêbedo, sem historia e sem nome, que o frio de Fevereiro matou no vão dum portal.
O sujeito de óculos de ouro, dentro do cupé?... Não o conheço, meu amigo. Talvez um parente rico, desses que aparecem nos enterros, com o parentesco correctamente coberto de fumo, quando o defunto já não importuna, nem compromete. O homem obeso de carão amarelo, dentro da vitória, é o Alves Capão, que tem um jornal onde desgraçadamente a Filosofia não abunda, e que se chama a Piada. Que relações o prendiam ao Matias?... Não sei. Talvez se embebedassem nas mesmas tascas; talvez o José Matias ùltimamente colaborasse na Piada; talvez debaixo daquela gordura e daquela literatura, ambas tão sórdidas, se abrigue uma alma compassiva. Agora é a nossa tipóia... Quer que desça a vidraça? Um cigarro?... Eu trago fósforos. Pois este José Matias foi um homem desconsolador para quem, como eu, na vida ama a evolução lógica e pretende que a espiga nasça coerentemente do grão. Em Coimbra sempre o considerámos como uma alma escandalosamente banal. Para este juízo concorria talvez a sua horrenda correcção. Nunca um rasgão brilhante na batina! nunca uma poeira estouvada nos sapatos! nunca um pêlo rebelde do cabelo ou do bigode fugido daquele rígido alinho que nos desolava! Além disso, na nossa ardente geração, ele foi o único intelectual que não rugiu com as misérias da Polónia; que leu sem palidez ou pranto as Contemplações; que permaneceu insensível ante a ferida de Garibáldi! E todavia, nesse José Matias, nenhuma secura ou dureza ou egoísmo ou desafabilidade! Pelo contrário! Um suave camarada, sempre cordial, e mansamente risonho. Toda a sua inabalável quietação parecia provir duma imensa superficialidade sentimental. E, nesse tempo, não foi sem razão e propriedade que nós alcunhámos aquele moço tão macio, tão louro e tão ligeiro, de Matias-Coração-de-Esquilo. Quando se formou, como lhe morrera o pai, depois a mãe, delicada e linda senhora de quem herdara cinquenta contos, partiu para Lisboa, alegrar a solidão dum tio que o adorava, o general Visconde de Garmilde. O meu amigo sem dúvida se lembra dessa perfeita estampa de general clássico, sempre de bigodes terrìficamente encerados, as calças cor de flor de alecrim desesperadamente esticadas pelas presilhas sobre as botas coruscantes, e o chicote debaixo do braço com a ponta a tremer, ávida de vergastar o Mundo! Guerreiro grotesco e deliciosamente bom... O Garmilde morava então em Arroios, numa casa antiga de azulejos, com um jardim, onde ele cultivava apaixonadamente canteiros soberbos de dálias. Esse jardim subia muito suavemente até ao muro coberto de hera que o separava de outro jardim, o largo e belo jardim de rosas do Conselheiro Matos Miranda, cuja casa, com um arejado terraço entre dois torrãozinhos amarelos, se erguia no cimo do outeiro e se chamava a casa da “Parreira”. O meu amigo conhece (pelo menos de tradição, como se conhece Helena de Tróia ou Inês de Castro) a formosa Elisa Miranda, a Elisa da Parreira... Foi a sublime beleza romântica de Lisboa, nos fins da Regeneração. Mas realmente Lisboa apenas a entrevia pelos vidros da sua grande caleche, ou nalguma noite de iluminação do Passeio Público entre a poeira e a turba, ou nos dois bailes da Assembleia do Carmo, de que o Matos Miranda era um director venerado. Por gosto borralheiro de provinciana, ou por pertencer àquela burguesia séria que nesses tempos, em Lisboa, ainda conservava os antigos hábitos severamente encerrados, ou por imposição paternal do marido, já diabético e com sessenta anos – a Deusa raramente emergia de Arroios e se mostrava aos mortais. Mas quem a viu, e com facilidade constante, quase irremediàvelmente, logo que se instalou em Lisboa, foi o José Matias – porque, jazendo o palacete do general na falda da colina, aos pés do jardim e da casa da Parreira, não podia a divina Elisa assomar a uma janela, atravessar o terraço, colher uma rosa entre as ruas de buxo, sem ser deliciosamente visível, tanto mais que nos dois jardins assoalhados nenhuma árvore espalhava a cortina da sua rama densa. O meu amigo decerto trauteou, como todos trauteámos, aqueles versos gastos, mas imortais:
Era no Outono, quando a imagem tuaÀ luz da Lua...
Pois, como nessa estrofe, o pobre José Matias, ao regressar da praia da Ericeira em Outubro, no Outono, avistou Elisa Miranda, uma noite no terraço, à luz da Lua! O meu amigo nunca contemplou aquele precioso tipo de encanto Lamartiniano. Alta, esbelta, ondulosa, digna da comparação bíblica da palmeira ao vento. Cabelos negros, lustrosos e ricos, em bandós ondeados. Uma carnação de camélia muito fresca. Olhos negros, líquidos, quebrados, tristes, de longas pestanas... Ah! Meu amigo, até eu, que já então laboriosamente anotava Hegel, depois de a encontrar numa tarde de chuva esperando a carruagem à porta do Seixas, a adorei durante três exaltados dias e lhe rimei um soneto! Não sei se o José Matias lhe dedicou sonetos. Mas todos nós, seus amigos, percebemos logo o forte, profundo, absoluto amor que concebera, desde a noite de Outono, à luz da Lua, aquele coração, que em Coimbra considerávamos de esquilo! Bem compreende que homem tão comedido e quieto não se exalou em suspiros públicos. Já, porém, no tempo de Aristóteles, se afirmava que amor e fumo não se escondem; e do nosso cerrado José Matias o amor começou logo a escapar, como o fumo leve através das fendas invisíveis duma casa fechada que arde terrìvelmente. Bem me recordo duma tarde que o visitei em Arroios, depois de voltar do Alentejo. Era um domingo de Julho. Ele ia jantar com uma tia-avó, uma D. Mafalda Noronha, que vivia em Benfica, na quinta dos Cedros, onde habitualmente jantavam também aos domingos o Matos Miranda e a divina Elisa. Creio mesmo que só nessa casa ela e o José Matias se encontravam, sobretudo com as facilidades que oferecem pensativas alamedas e retiros de sombra. As janelas do quarto do José Matias abriam sobre o seu jardim e sobre o jardim dos Mirandas: e, quando entrei, ele ainda se vestia, lentamente. Nunca admirei, meu amigo, face humana aureolada por felicidade mais segura e serena! Sorria iluminadamente quando me abraçou, com um sorriso que vinha das profundidades da alma iluminada; sorria ainda deliciadamente enquanto eu lhe contei todos os meus desgostos no Alentejo: sorriu depois extàticamente, aludindo ao calor e enrolando um cigarro distraído; e sorriu sempre, enlevado, a escolher na gaveta da cómoda, com escrúpulo religioso, uma gravata de seda branca. E a cada momento, irresistìvelmente, por um hábito já tão inconsciente como o pestanejar, os seus olhos risonhos, calmamente enternecidos, se voltavam para as vidraças fechadas... De sorte que, acompanhando aquele raio ditoso, logo descobri, no terraço da casa da Parreira, a divina Elisa, vestida de claro, com um chapéu branco, passeando preguiçosamente, calçando pensativamente as luvas, e espreitando também as janelas do meu amigo, que um lampejo oblíquo do Sol ofuscava de manchas de ouro. O José Matias no entanto conversava, antes murmurava, através do sorriso perene, coisas afáveis e dispersas. Toda a sua atenção se concentrara diante do espelho, no alfinete de coral e pérola para prender a gravata, no colete branco que abotoava e ajustava com a devoção com que um padre novo, na exaltação cândida da primeira missa, se reveste da estola e do amicto, para se acercar do altar. Nunca eu vira um homem deitar, com tão profundo êxtase, água-de-colónia no lenço! E depois de enfiar a sobrecasaca, de lhe espetar uma soberba rosa, foi com inefável emoção, sem reter um delicioso suspiro, que abriu largamente, solenemente, as vidraças! Introibo ad altarem Deœ! Eu permaneci discretamente enterrado no sofá. E, meu caro amigo, acredite! Invejei aquele homem à janela, imóvel, hirto na sua adoração sublime, com os olhos, e a alma, e todo o ser cravados no terraço, na branca mulher calçando as luvas claras, e tão indiferente ao Mundo como se o Mundo fosse apenas o ladrilho que ela pisava e cobria com os pés!
E este enlevo, meu amigo, durou dez anos, assim esplêndido, puro, distante e imaterial! Não ria... Decerto se encontravam na quinta de D. Mafalda: decerto se escreviam, e transbordantemente, atirando as cartas por cima do muro que separava os dois quintais: mas nunca, por cima das heras desse muro, procuraram a rara delícia duma conversa roubada ou a delícia ainda mais perfeita dum silêncio escondido na sombra. E nunca trocaram um beijo... Não duvide! Algum aperto de mão fugidio e sôfrego, sob os arvoredos de D. Mafalda, foi o limite exaltadamente extremo, que a vontade lhes marcou ao desejo. O meu amigo não compreende como se mantiveram assim dois frágeis corpos, durante dez anos, em tão terrível e mórbido renunciamento... Sim, decerto lhes faltou, para se perderem, uma hora de segurança ou uma portinha no muro. Depois a divina Elisa vivia realmente num mosteiro, em que ferrolhos e grades eram formados pelos hábitos rìgidamente reclusos de Matos Miranda, diabético e tristonho. Mas, na castidade deste amor, entrou muita nobreza moral e finura superior de sentimento. O amor espiritualiza o homem – e materializa a mulher. Essa espiritualização era fácil ao José Matias, que (sem nós desconfiarmos) nascera desvairadamente espiritualista; mas a humana Elisa encontrou também um gozo delicado nessa ideal adoração de monge, que nem ousa roçar, com os dedos trêmulos e embrulhados no rosário, a túnica da Virgem sublimada. Ele, sim! ele gozou nesse amor transcendentemente desmaterializado um encanto sobre-humano. E durante dez anos, como o Rui Blas do velho Hugo, caminhou, vivo e deslumbrado, dentro do seu sonho radiante, sonho em que Elisa habitou realmente dentro da sua alma, numa fusão tão absoluta que se tornou consubstancial com o seu ser! Acreditará o meu amigo que ele abandonou o charuto, mesmo passeando solitàriamente a cavalo pelos arredores de Lisboa, logo que descobrira na quinta de D. Mafalda, uma tarde, que o fumo perturbava Elisa?
E esta presença real da divina criatura no seu ser criou no José Matias modos novos, estranhos, derivando da alucinação. Como o Visconde de Garmilde jantava cedo, à hora vernácula do Portugal antigo, José Matias ceava, depois de S. Carlos, naquele delicioso e saudoso Café Central, onde o linguado parecia frito no céu, e o Colares no céu engarrafado. Pois nunca ceava sem serpentinas profusamente acesas e a mesa juncada de flores. Porquê? Porque Elisa também ali ceava, invisível. Daí esses silêncios banhados num sorriso religiosamente atento... Porquê? Porque a estava sempre escutando! Ainda me lembro dele arrancar do quarto três gravuras clássicas de Faunos ousados e Ninfas rendidas... Elisa pairava idealmente naquele ambiente; e ele purificava as paredes, que mandou forrar de sedas claras. O amor arrasta ao luxo, sobretudo amor de tão elegante idealismo: e o José Matias prodigalizou com esplendor o luxo que ela partilhava. Decentemente não podia andar com a imagem de Elisa numa tipóia de praça, nem consentir que a augusta imagem roçasse pelas cadeiras de palhinha da plateia de S. Carlos. Montou, portanto, carruagens dum gosto sóbrio e puro: e assinou um camarote na Ópera, onde instalou, para ela, uma poltrona pontifical, de cetim branco, bordado a estrelas de ouro.
Além disso, como descobrira a generosidade de Elisa, logo se tornou congénere e sumptuosamente generoso: e ninguém existiu então em Lisboa que espalhasse, com facilidade mais risonha, notas de cem mil-réis. Assim desbaratou, ràpidamente, sessenta contos com o amor daquela mulher a quem nunca dera uma flor!
E, durante esse tempo, o Matos Miranda? Meu amigo, o bom Matos Miranda não desmanchava nem a perfeição, nem a quietação desta felicidade! Tão absoluto seria o espiritualismo do José Matias, que apenas se interessasse pela alma de Elisa, indiferente às submissões do seu corpo, invólucro inferior e mortal?... Não sei. Verdade seja! aquele digno diabético, tão grave, sempre de cachenez de lã escura, com as suas suíças grisalhas, os seus ponderosos óculos de ouro, não sugeria ideias inquietadoras de marido ardente, cujo ardor, fatalmente e involuntàriamente, se partilha e abrasa. Todavia nunca compreendi, eu, Filósofo, aquela consideração, quase carinhosa, do José Matias pelo homem que, mesmo desinteressadamente, podia por direito, por costume, contemplar Elisa desapertando as fitas da saia branca!... Haveria ali reconhecimento por o Miranda ter descoberto numa remota rua de Setúbal (onde José Matias nunca a descortinaria) aquela divina mulher, e por a manter em conforto, sòlidamente nutrida, finamente vestida, transportada em caleches de macias molas? Ou recebera o José Matias aquela costumada confidência – “não sou tua, nem dele” – que tanto consola do sacrifício, porque tanto lisonjeia o egoísmo?... Não sei. Mas, com certeza, este seu magnânimo desdém pela presença corporal do Miranda no templo, onde habitava a sua Deusa, dava à felicidade de José Matias uma unidade perfeita, a unidade dum cristal que por todos os lados rebrilha, igualmente puro, sem arranhadura ou mancha. E esta felicidade, meu amigo, durou dez anos... Que escandaloso luxo para um mortal!
Mas um dia, a terra, para o José Matias, tremeu toda, num terramoto de incomparável espanto. Em Janeiro ou Fevereiro de 1871, o Miranda, já debilitado pela diabetes, morreu com uma pneumonia. Por estas mesmas ruas, numa pachorrenta tipóia de praça, acompanhei o seu enterro numeroso, rico, com Ministros, porque o Miranda pertencia às Instituições. E depois, aproveitando a tipóia, visitei o José Matias em Arroios, não por curiosidade perversa, nem para lhe levar felicitações indecentes, mas para que, naquele lance deslumbrador, ele sentisse ao lado a força moderadora da Filosofia... Encontrei porém com ele um amigo mais antigo e confidencial, aquele brilhante Nicolau da Barca, que já conduzi também a este cemitério, onde agora jazem, debaixo de lápides, todos aqueles camaradas com quem levantei castelos nas nuvens... O Nicolau chegara da Velosa, da sua quinta de Santarém, de madrugada, reclamado por um telegrama do Matias. Quando entrei, um criado atarefado arranjava duas malas enormes. O José Matias abalava nessa noite para o Porto. Já envergara mesmo um fato de viagem, todo negro, com sapatos de couro amarelo: e depois de me sacudir a mão, enquanto o Nicolau remexia um grogue, continuou vagando pelo quarto, calado, como embaçado, com um modo que não era emoção, nem alegria pudicamente disfarçada, nem surpresa do seu destino bruscamente sublimado. Não! se o bom Darwin não nos ilude no seu livro da Expressão das Emoções, o José Matias, nessa tarde, só sentia e só exprimia embaraço! Em frente, na casa da Parreira, todas as janelas permaneciam fechadas sob a tristeza da tarde cinzenta. E, todavia, surpreendi o José Matias atirando para o terraço, ràpidamente, um olhar em que transparecia inquietação, ansiedade, quase terror! Como direi? Aquele é o olhar que se resvala para a jaula mal segura onde se agita uma leoa! Num momento em que ele entrara na alcova, murmurei ao Nicolau, por cima do grogue: – “O Matias faz perfeitamente em ir para o Porto...” Nicolau encolheu os ombros: – “Sim, pensou que era mais delicado... Eu aprovei. Mas só durante os meses de luto pesado...” Às sete horas acompanhámos o nosso amigo à estação de Santa Apolónia. Na volta, dentro do cupé que uma grande chuva batia, filosofámos. Eu sorria contente: – “Um ano de luto, e depois muita felicidade e muitos filhos... É um poema acabado!” – O Nicolau acudiu, sério: – “E acabado numa deliciosa e suculenta prosa. A divina Elisa fica com toda a sua divindade e a fortuna do Miranda, uns dez ou doze contos de renda... Pela primeira vez na nossa vida contemplamos, tu e eu, a virtude recompensada!”
Meu caro amigo! os meses cerimoniais de luto passaram, depois outros, e José Matias não se arredou do Porto. Nesse Agosto o encontrei eu instalado fundamentalmente no Hotel Francfort, onde entretinha a melancolia dos dias abrasados, fumando (porque voltara ao tabaco), lendo romances de Júlio Verne e bebendo cerveja gelada até que a tarde refrescava e ele se vestia, se perfumava, se floria para jantar na Foz.
E apesar de se acercar o bendito remate do luto e da desesperada espera, não notei no José Matias nem alvoroço elegantemente reprimido, nem revolta contra a lentidão do tempo, velho por vezes tão moroso e trôpego... Pelo contrário! Ao sorriso de radiosa certeza, que nesses anos o iluminara com um nimbo de beatitude, sucedera a seriedade carregada, toda em sombra e rugas, de quem se debate numa dúvida irresolúvel, sempre presente, roedora e dolorosa. Quer que lhe diga? Nesse Verão, no Hotel Francfort, sempre me pareceu que o José Matias, a cada instante da sua vida acordada, mesmo emborcando a fresca cerveja, mesmo calçando as luvas ao entrar para a caleche que o levava à Foz, angustiadamente perguntava à sua consciência: – “Que hei-de fazer? Que hei-de fazer?” – E depois, uma manhã, ao almoço, realmente me assombrou, exclamando ao abrir o jornal, com um assomo de sangue na face: “O quê? Já são 29 de Agosto? Santo Deus... Já o fim de Agosto!...”
Voltei a Lisboa, meu amigo. O Inverno passou, muito seco e muito azul. Eu trabalhei nas minhas Origens do Utilitarismo. Um domingo, no Rossio, quando já se vendiam cravos nas tabacarias, avistei dentro dum cupé a divina Elisa, com plumas roxas no chapéu. E nessa semana encontrei no meu Diário Ilustrado a notícia curta, quase tímida, do casamento da sr.ª D. Elisa Miranda... Com quem, meu amigo? – Com o conhecido proprietário, o sr. Francisco Torres Nogueira!...
O meu amigo cerrou aí o punho, e bateu na coxa, espantado. Eu também cerrei os punhos ambos, mas agora para os levantar ao Céu onde se julgam os feitos da Terra, e clamar furiosamente, aos urros, contra a falsidade, a inconstância ondeante e pérfida, toda a enganadora torpeza das mulheres, e daquela especial Elisa cheia de infâmia entre as mulheres! Atraiçoar à pressa, atabalhoadamente, apenas findara o luto negro, aquele nobre, puro, intelectual Matias! e o seu amor de dez anos, submisso e sublime!...
E depois de apontar os punhos para o Céu ainda os apertava na cabeça, gritando: – “Mas porquê? porquê?” – Por amor? Durante anos ela amara enlevadamente este moço, e dum amor que se não desiludira nem se fartara, porque permanecia suspenso, imaterial, insatisfeito. Por ambição? Torres Nogueira era um ocioso amável como José Matias, e possuía em vinhas hipotecadas os mesmos cinquenta ou sessenta contos que o José Matias herdara agora do tio Garmilde em terras excelentes e livres. Então porquê? certamente porque os grossos bigodes negros do Torres Nogueira apeteciam mais à sua carne do que o buço louro e pensativo do José Matias! Ah! bem ensinara S. João Crisóstomo que a mulher é um monturo de impureza, erguido à porta do Inferno!
Pois, meu amigo, quando eu assim rugia, encontro uma tarde na rua do Alecrim o nosso Nicolau da Barca, que salta da tipóia, me empurra para um portal, agarra excitadamente no meu pobre braço e exclama engasgado: – “Já sabes? Foi o José Matias que recusou! Ela escreveu, esteve no Porto, chorou... Ele nem consentiu em a ver! Não quis casar, não quer casar!” Fiquei trespassado. – “E então ela...” – “Despeitada, fortemente cercada pelo Torres, cansada da viuvice, com aqueles belos trinta anos em botão, que diabo! Cotada, casou!” Eu ergui os braços até à abóbada do pátio: – “Mas então esse sublime amor do José Matias?” O Nicolau, seu íntimo e confidente, jurou com irrecusável segurança: – “É o mesmo sempre! Infinito, absoluto... Mas não quer casar!” – Ambos nos olhámos, e depois ambos nos separámos, encolhendo os ombros, com aquele assombro resignado que convém a espíritos prudentes perante o Incognoscível. Mas eu, Filósofo, e portanto espírito imprudente, toda essa noite esfuraquei o acto do José Matias com a ponta duma Psicologia que expressamente aguçara: – e já de madrugada, estafado, concluí, como se conclui sempre em Filosofia, que me encontrava diante duma Causa Primaria, portanto impenetrável, onde se quebraria, sem vantagem para ele, para mim ou para o Mundo, a ponta do meu Instrumento!
Depois a divina Elisa casou e continuou habitando a Parreira com o seu Torres Nogueira, no conforto e sossego que já gozara com o seu Matos Miranda. No meado do Verão José Matias recolheu do porto a Arroios, ao casarão do tio Garmilde, onde recuperou os seus antigos quartos, com as varandas para o jardim, já florido de dálias que ninguém tratava. Veio Agosto, como sempre em Lisboa silencioso e quente. Aos domingos José Matias jantava com D. Mafalda de Noronha, em Benfica, solitàriamente – porque o Torres Nogueira não conhecia aquela venerada senhora da Quinta dos Cedros. A divina Elisa, com vestidos caros, passeava à tarde no jardim entre as roseiras. De sorte que a única mudança, naquele doce canto de Arroios, parecia ser o Matos Miranda no seu belo jazigo dos Prazeres, todo de mármore – e o Torres Nogueira no leito excelente de Elisa.
Havia, porém, uma tremenda e dolorosa mudança – a do José Matias! Adivinha o meu amigo como esse desgraçado consumia os seus estéreis dias? Com os olhos, e a memória, e a alma, e todo o ser cravados no terraço, nas janelas, nos jardins da Parreira! Mas agora não era de vidraças largamente abertas, em aberto êxtase, com o sorriso de segura beatitude: era por trás das cortinas fechadas, através duma escassa fenda, escondido, surrupiando furtivamente os brancos sulcos do vestido branco, com a face toda devastada pela angústia e pela derrota. E compreende porque sofria assim, esse pobre coração? Certamente porque Elisa, desdenhada pelos seus braços fechados, correra logo, sem luta, sem escrúpulos, para outros braços, mais acessíveis e prontos... Não, meu amigo! E note agora a complicada subtileza desta paixão. O José Matias permanecia devotamente crente de que Elisa, na profundidade da sua alma, nesse sagrado fundo espiritual onde não entram as imposições das conveniências, nem as decisões da razão pura, nem os ímpetos do orgulho, nem as emoções da carne – o amava, a ele, ùnicamente a ele, e com um amor que não deperecera, não se alterara, floria em todo o seu viço, mesmo sem ser regado ou tratado, como a antiga Rosa Mística! O que o torturava, meu amigo, o que lhe cravara longas rugas em curtos meses, era que um homem, um marcho, um bruto, se tivesse apoderado daquela mulher que era sua! e que do modo mais santo e mais socialmente puro, sob o patrocínio enternecido da Igreja e do Estado, lambuzasse com os rijos bigodes negros, à farta, os divinos lábios que ele nunca ousara roçar, na supersticiosa reverência e quase no terror da sua divindade! Como lhe direi?... O sentimento deste extraordinário Matias era o de um monge, prostrado ante uma Imagem da Virgem, em transcendente enlevo – quando de repente um bestial sacrílego trepa ao altar, e ergue obscenamente a túnica da Imagem. O meu amigo sorri... E então o Matos Miranda? Ah! meu amigo! esse era diabético, e grave, e obeso, e já existia instalado na Parreira, com a sua obesidade e a sua diabetes, quando ele conhecera Elisa e lhe dera para sempre vida e coração. E o Torres Nogueira, esse, rompera brutalmente através do seu puríssimo amor, com os negros bigodes, e os carnudos braços, e o rijo arranque dum antigo pegador de touros, e empolgara aquela mulher – a quem revelara talvez o que é um homem!
Mas, com os demónios! essa mulher ele a recusara, quando ela se lhe oferecia, na frescura e na grandeza dum sentimento que nenhum desdém ainda ressequira ou abatera. Que quer?... É a espantosa tortuosidade espiritual deste Matias! Ao cabo de uns meses ele esquecera, positivamente esquecera essa recusa afrontosa, como se fora um leve desencontro de interesses materiais ou sociais, passado há meses, no Norte, e a que a distância e o tempo dissipavam a realidade e a amargura leve! E agora, aqui em Lisboa, com as janelas de Elisa diante das suas janelas e as rosas dos dois jardins unidos rescendendo na sombra, a dor presente, a dor real, era que ele amara sublimemente uma mulher, e que a colocara entre as estrelas para mais pura adoração, e que um bruto moreno, de bigodes negros, arrancara essa mulher de entre as estrelas e a arremessara para a cama!
Enredado caso, hem, meu amigo? Ah! muito filosofei sobre ele, por dever de filósofo! E concluí que o Matias era um doente, atacado de hiperespiritualismo, duma inflamação violenta e pútrida do espiritualismo, que receara apavoradamente as materialidades do casamento, as chinelas, a pele pouco fresca ao acordar, um ventre enorme durante seis meses, os meninos berrando no berço molhado... E agora rugia de furor e tormento, porque certo materialão, ao lado, se prontificara a aceitar Elisa em camisola de lã. Um imbecil?... Não, meu amigo! um ultra-romântico, loucamente alheio às realidades fortes da vida, que nunca suspeitou que chinelas e cueiros sujos de meninos são coisas de superior beleza em casa em que entre o sol e haja amor.
E sabe o meu amigo o que exacerbou, mais furiosamente, este tormento? É que a pobre Elisa mostrava por ele o antigo amor! Que lhe parece? Infernal, hem?... Pelo menos se não sentia o antigo amor intacto na sua essência, forte como outrora e único, conservava pelo pobre Matias uma irresistível curiosidade e repetia os gestos desse amor... Talvez fosse apenas a fatalidade dos jardins vizinhos! Não sei. Mas logo desde Setembro, quando o Torres Nogueira partiu para as suas vinhas de Carcavelos, a assistir à vindima, ela recomeçou, da borda do terraço, por sobre as rosas e as dálias abertas, aquela doce remessa de doces olhares com que durante dez anos extasiara o coração do José Matias.
Não creio que se escrevessem por cima do muro do jardim, como sob o regime paternal do Matos Miranda... O novo senhor, o homem robusto da bigodeira negra, impunha à divina Elisa, mesmo de longe, de entre as vinhas de Carcavelos, retraimento e prudência. E acalmada por aquele marido, moço e forte, menos sentiria agora a necessidade de algum encontro discreto na sombra tépida da noite, mesmo quando a sua elegância moral e o rígido idealismo do José Matias consentissem em aproveitar uma escada contra o muro... De resto, Elisa era fundamentalmente honesta; e conservava o respeito sagrado do seu corpo, por o sentir tão belo e cuidadosamente feito por Deus – mais do que da sua alma. E quem sabe?... Talvez a adorável mulher pertencesse à bela raça daquela marquesa italiana, a Marquesa Julia de Malfieri, que conservava dois amorosos ao seu doce serviço, um poeta para as delicadezas românticas e um cocheiro para as necessidades grosseiras.
Enfim, meu amigo, não psicologuemos mais sobre esta viva, atrás do morto que morreu por ela! O facto foi que Elisa e o seu amigo insensìvelmente recaíram na velha união ideal, através dos jardins em flor. E em Outubro, como o Torres Nogueira continuava a vindimar em Carcavelos, o José Matias, para contemplar o terraço da Parreira, já abria de novo as vidraças, larga e extàticamente!
Parece que um tão extreme espiritualista, reconquistando a idealidade do antigo amor, devia reentrar também na antiga felicidade perfeita. Ele reinava na alma imortal de Elisa: – que importava que outro se ocupasse do seu corpo mortal? Mas não! o pobre moço sofria, angustiadamente. E, para sacudir a pungência destes tormentos, findou, ele tão sereno, duma tão doce harmonia de modos, por se tornar um agitado. Ah! meu amigo, que redemoinho e estrépito de vida! Desesperadamente, durante um ano, remexeu, aturdiu, escandalizou Lisboa! São desse tempo algumas das suas extravagâncias lendárias... Conhece a da ceia? Uma ceia oferecida a trinta ou quarenta mulheres das mais torpes e das mais sujas, apanhadas pelas negras vielas do Bairro Alto e da Mouraria, que depois mandou montar em burros, e gravemente, melancòlicamente, posto na frente, sobre um grande cavalo branco, com um imenso chicote, conduziu aos altos da Graça, para saudar a aparição do Sol!
Mas todo este alarido não lhe dissipou a dor – e foi então que, nesse Inverno, começou a jogar e a beber! Todo o dia se encerrava em casa (certamente por trás das vidraças, agora que Torres Nogueira regressara das vinhas), com olhos e alma cravados no terraço fatal; depois, à noite, quando as janelas de Elisa se apagavam, saía numa tipóia, sempre a mesma, a tipóia do Gago, corria à roleta do Bravo, depois ao clube do “Cavalheiro”, onde jogava frenèticamente até à tardia hora de cear, num gabinete de restaurante, com molhos de velas acesas, e o colares, e o champanhe, e o conhaque correndo em jorros desesperados.
E esta vida, espicaçada pelas Fúrias, durou anos, sete anos! Todas as terras que lhe deixara o tio Garmilde se foram, largamente jogadas e bebidas: e só lhe restava o casarão de Arroios e o dinheiro apressado, porque o hipotecara. Mas, sùbitamente, desapareceu de todos os antros de vinho e de jogo. E soubemos que o Torres Nogueira estava morrendo com uma anasarca!
Por esse tempo, e por causa dum negócio do Nicolau da Barca, que me telegrafara ansiosamente da sua quinta de Santarém (negócio embrulhado, duma letra), procurei o José Matias em Arroios, às dez horas, numa noite quente de Abril. O criado, enquanto me conduzia pelo corredor mal alumiado, já desadornado das ricas arcas e talhas da Índia do velho Garmilde, confessou que S. Ex.ª não acabara de jantar... E ainda me lembro, com um arrepio, da impressão desolada que me deu o desgraçado! Era no quarto que abria sobre os dois jardins. Diante duma janela, que as cortinas de damasco cerravam, a mesa resplandecia, com duas serpentinas, um cesto de rosas brancas e algumas das nobres pratas do Garmilde: e ao lado, todo estendido numa poltrona, com o colete branco desabotoado, a face lívida descaída sobre o peito, um copo vazio na mão inerte, o José Matias parecia adormecido ou morto.
Quando lhe toquei no ombro, ergueu num sobressalto a cabeça, toda despenteada: – “Que horas são?” – Apenas lhe gritei, num gesto alegre, para o despertar, que era tarde, que eram dez, encheu precipitadamente o copo, da garrafa mais chegada, de vinho branco, e bebeu lentamente, com a mão a tremer, a tremer... Depois, arredando os cabelos da testa húmida: – “Então que há de novo?” – Esgazeado, sem compreender, escutou, como num sonho, o recado que lhe mandava o Nicolau. Por fim, com um suspiro, remexeu uma garrafa de champanhe dentro do balde em que ela gelava, encheu outro copo, murmurando: – “Um calor... Uma sede!...” Mas não bebeu: arrancou o corpo pesado à poltrona de verga, e forçou os passos mal firmes para a janela, a que abriu violentamente as cortinas, depois a vidraça... E ficou hirto, como colhido pelo silêncio e escuro sossego da noite estrelada. Eu espreitei, meu amigo! Na casa da Parreira duas janelas brilhavam, fortemente alumiadas, abertas à macia aragem. E essa claridade viva envolvia uma figura branca, nas longas pregas de um roupão branco, parada à beira do terraço, como esquecida numa contemplação. Era Elisa, meu amigo! Por trás, no fundo do quarto claro, o marido certamente arquejava, na opressão da anasarca. Ela, imóvel, repousava, mandando um doce olhar, talvez um sorriso, ao seu doce amigo. O miserável, fascinado, sem respirar, sorvia o encanto daquela visão benfazeja. E entre eles rescendiam, na moleza da noite, todas as flores dos dois jardins... Sùbitamente Elisa recolheu, à pressa, chamada por algum gemido ou impaciência do pobre Torres. E as janelas logo se fecharam, toda a luz e vida se sumiram na casa da Parreira.
Então José Matias, com um soluço despedaçado, de transbordante tormento, cambaleou, tão ansiadamente se agarrou à cortina que a rasgou, e tombou desamparado nos braços que lhe estendi, e em que o arrastei para a cadeira, pesadamente, como a um morto ou a um bêbedo. Mas, volvido um momento, com espanto meu, o extraordinário homem descerra os olhos, sorri num lento e inerte sorriso, murmura quase serenamente: – “É o calor... Está um calor! Você não quer tomar chá?”
Recusei e abalei – enquanto ele, indiferente à minha fuga, estendido na poltrona, acendia trèmulamente um imenso charuto.
Santo Deus! já estamos em Santa Isabel! Como estes lagóias vão arrastando depressa o pobre José Matias para o pó e para o verme final! Pois, meu amigo, depois dessa curiosa noite, o Torres Nogueira morreu. A divina Elisa, durante o novo luto, recolheu à quinta duma cunhada também viúva, à “Corte Moreira”, ao pé de Beja. E o José Matias inteiramente se sumiu, se evaporou, sem que me revoassem novas dele, mesmo incertas – tanto mais que o íntimo por quem as conheceria, o nosso brilhante Nicolau da Barca, partira para a Ilha da Madeira, com o seu derradeiro pedaço de pulmão, sem esperança, por dever clássico, quase dever social, de tísico.
Todo esse ano, também, andei enfronhado no meu Ensaio dos fenómenos afectivos. Depois, um dia, no começo do Verão, descendo pela rua de S. Bento, com os olhos levantados, a procurar o n.º 214, onde se catalogava a livraria do Morgado de azemel, quem avisto eu à varanda duma casa nova e de esquina? A divina Elisa, metendo folhas de alface na gaiola de um canário! E bela, meu amigo! mais cheia e mais harmoniosa, toda madura, e suculenta, e desejável, apesar de ter festejado em Beja os seus quarenta e dois anos! Mas aquela mulher era da grande raça de Helena, que quarenta anos também depois do cerco de Tróia ainda deslumbrava os homens mortais e os Deuses imortais. E, curioso acaso! logo nessa tarde, pelo Seco, o João Seco da Biblioteca, que catalogava a livraria do Morgado, conheci a nova história desta Helena admirável.
A divina Elisa tinha agora um amante... E ùnicamente por não poder, com a sua costumada honestidade, possuir um legítimo e terceiro marido. O ditoso moço que ela adorava era com efeito casado... Casado em Beja com uma espanhola que, ao cabo dum ano desse casamento e de outros requebros, partira para Sevilha, passar devotamente a Semana Santa, e lá adormecera nos braços dum riquíssimo criador de gado. O marido, pacato apontador de Obras Públicas, continuara em Beja, onde também vagamente ensinara um vago desenho... Ora uma das suas discípulas era a filha da senhora da “Corte Moreira”: e aí na quinta, enquanto ele guiava o esfuminho da menina, Elisa o conheceu e o amou, com uma paixão tão urgente que o arrancou precipitamente às Obras Públicas, e o arrastou a Lisboa, cidade mais propícia do que Beja a uma felicidade escandalosa, e que se esconde. O João Seco é de Beja, onde passara o Natal; conhecia perfeitamente o apontador, as senhoras da “Corte Moreira”; e compreendeu o romance quando das janelas desse n.º 214, onde catalogava a Livraria do Azemel, reconheceu Elisa na varanda da esquina, e o apontador enfiando regaladamente o portão, bem vestido, bem calçado, de luvas claras, com aparência de ser infinitamente mais ditoso naquelas obras particulares do que nas Públicas.
E dessa mesma janela do 214 o conheci eu também, o apontador! Belo moço, sólido, branco, de barba escura, em excelentes condições de quantidade (e talvez mesmo de qualidade) para encher um coração viúvo, e portanto “vazio”, como diz a Bíblia. Eu frequentava esse n.º 214, interessado no catalogo da Livraria, porque o Morgado de Azemel possuía, pelo irónico acaso das heranças, uma colecção incomparável dos Filósofos do século XVIII. E passadas semanas, saindo desses livros uma noite (o João Seco trabalhava de noite) e parando adiante, à beira dum portal aberto, para acender o charuto, enxergo à luz tremente do fósforo, metido na sombra, o José Matias! Mas que José Matias, meu caro amigo! Para o considerar mais detidamente, raspei outro fósforo. Pobre José Matias! Deixara crescer a barba, uma barba rara, indecisa, suja, mole como cotão amarelado: deixara crescer o cabelo, que lhe surdia em farripas secas de sob um velho chapéu-coco: mas todo ele, no resto, parecia diminuído, minguado, dentro duma quinzena de mescla enxovalhada e dumas calças pretas, de grandes bolsos, onde escondia as mãos com o gesto tradicional, tão infinitamente triste, da miséria ociosa. Na espantada lástima que me tomou, apenas balbuciei: – “Ora esta! Você! Então que é feito?” – E ele, com a sua mansidão polida, mas secamente, para se desembaraçar, e numa voz que a aguardente enrouquecera: “Por aqui, à espera de um sujeito”. – Não insisti, segui. Depois, adiante, parando, verifiquei o que num relance adivinhara – que o portal negro ficava em frente ao prédio novo e às varandas de Elisa!
Pois, meu amigo, três anos viveu o José Matias encafuado naquele portal!
Era um desses pátios de Lisboa antiga, sem porteiro, sempre escancarados, sempre sujos, cavernas laterais da rua, de onde ninguém escorraça os escondidos da miséria ou da dor. Ao lado havia uma taverna. Infalìvelmente, ao anoitecer, o José Matias descia a rua de S. Bento, colado aos muros, e,como uma sombra, mergulhava na sombra do portal. A essa hora já as janelas de Elisa luziam, de Inverno embaciadas pela névoa fina, de Verão ainda abertas e arejando no repouso e na calma. E para elas, imóvel, com as mãos nas algibeiras, o José Matias se quedava em contemplação. Cada meia hora, subtilmente, enfiava para a taverna. Copo de vinho, copo de aguardente; – e, de mansinho, recolhia à negrura do portal, ao seu êxtase. Quando as janelas de Elisa se apagavam, ainda através da longa noite, mesmo das negras noites de Inverno – encolhido, transido, a bater as solas rotas do lajedo, ou sentado ao fundo, nos degraus da escada – ficava esmagando os olhos turvos na fachada negra daquela casa, onde a sabia dormindo com o outro!
Ao princípio, para fumar um cigarro apressado, trepava até ao patamar deserto, a esconder o lume que o denunciaria no seu esconderijo. Mas depois, meu amigo, fumava incessantemente, colado à ombreira, puxando o cigarro com ânsia, para que a ponta rebrilhasse, o alumiasse! E percebe porquê, meu amigo?... Porque Elisa já descobrira que, dentro daquele portal, a adorar submissamente as suas janelas, com a alma de outrora, estava o seu pobre José Matias!...
E acreditará o meu amigo que então, todas as noites, ou por trás da vidraça ou encostada à varanda (com o apontador dentro, estirado no sofá, já de chinelas, lendo o Jornal da Noite), ela se demorava a fitar o portal, muito quieta, sem outro gesto, naquele antigo e mudo olhar do terraço por sobre as rosas e as dálias? O José Matias percebera, deslumbrado. E agora avivava desesperadamente o lume, como um farol, para guiar na escuridão os amados olhos dela, e lhe mostrar que ali estava, transido, todo seu, e fiel!
De dia nunca ele passava na rua de S. Bento. Como ousaria, com o jaquetão roto nos cotovelos e as botas cambadas? Por que aquele moço de elegância sóbria e fina tombara na miséria do andrajo? Onde arranjava mesmo, cada dia, os três patacos para o vinho e para a posta de bacalhau nas tavernas? Não sei... Mas louvemos a divina Elisa, meu amigo! muito delicadamente, por caminhos arredados e astutos, ela, rica, procurara estabelecer uma pensão ao José Matias, mendigo. Situação picante, hem? a grata senhora dando duas mesadas aos seus dois homens – o amante do corpo e o amante da alma! Ele, porém, adivinhou de onde procedia a pavorosa esmola – e recusou, sem revolta, nem alarido de orgulho, até com enternecimento, até com uma lágrima nas pálpebras que a aguardente inflamara!
Mas só com noite muito cerrada ousava descer à rua de S. Bento, e enfiar para o seu portal. E adivinha o meu amigo como ele gastava o dia? A espreitar, a seguir, a farejar o apontador de Obras Públicas! Sim, meu amigo! uma curiosidade insaciada, frenética, atroz, por aquele homem, que Elisa escolhera!... Os dois anteriores, o Miranda e o Nogueira, tinham entrado na alcova de Elisa, pùblicamente, pela porta da Igreja, e para outros fins humanos além do amor – para possuir um lar, talvez filhos, estabilidade e quietação na vida. Mas este era meramente o amante, que ela nomeara e mantinha só para ser amada: e nessa união não aparecia outro motivo racional senão que os dois corpos se unissem. Não se fartava, portanto, de o estudar, na figura, na roupa, nos modos, ansioso por saber como era esse homem, que, para se completar, a sua Elisa preferia entre a turba dos homens. Por decência, o apontador morava na outra extremidade da rua de S. Bento, diante do Mercado. E essa parte da rua, onde o não surpreenderiam, na sua pelintrice, os olhos de Elisa, era o paradeiro do José Matias, logo de manhã, para mirar, farejar o homem, quando ele recolhia da casa de Elisa, ainda quente do calor da sua alcova. Depois não o largava, cautelosamente, como um larápio, rastejando de longe no seu rasto. E eu suspeito que o seguia assim menos por curiosidade perversa do que para verificar se, através das tentações de Lisboa, terríveis para um apontador de Beja, o homem conservava o corpo fiel a Elisa. Em serviço da felicidade dela – fiscalizava o amante da mulher que amava!
Requinte furioso de espiritualismo e devoção, meu amigo! A alma de Elisa era sua e recebia perenemente a adoração perene: e agora queria que o corpo de Elisa não fosse menos adorado, nem menos lealmente, por aquele homem a quem ela entregara o corpo! Mas o apontador era fàcilmente fiel a uma mulher tão formosa, tão rica, de meias de seda, de brilhantes nas orelhas, que o deslumbrava. E quem sabe, meu amigo? talvez esta fidelidade, preito carnal à divindade de Elisa, fosse para o José Matias a derradeira felicidade que lhe concedeu a vida. Assim me persuado, porque, no Inverno passado, encontrei o apontador, numa manhã de chuva, comprando camélias a um florista da Rua do Ouro; e defronte, a uma esquina, o José Matias, escaveirado, esfrangalhado, cocava o homem, com carinho, quase com gratidão! E talvez nessa noite, no portal, tiritando, batendo as solas encharcadas, com os olhos enternecidos nas escuras vidraças, pensasse: – “Coitadinha, pobre Elisa! Ficou bem contente por ele lhe trazer as flores!”
Isto durou três anos.
Enfim, meu amigo, anteontem, o João Seco apareceu em minha casa, de tarde, esbaforido: – “Lá levaram o José Matias, numa maca, para o hospital, com uma congestão nos pulmões!”
Parece que o encontraram, de madrugada, estirado no ladrilho, todo encolhido no jaquetão delgado, arquejando, com a face coberta de morte, voltada para as varandas de Elisa. Corri ao hospital. Morrera... Subi, com o médico de serviço, à enfermaria. Levantei o lençol que o cobria. Na abertura da camisa suja e rota, preso ao pescoço por um cordão, conservava um saquinho de seda, puído e sujo também. Decerto continha flor, ou cabelos, ou pedaço de renda de Elisa, do tempo do primeiro encanto e das tardes de Benfica... Perguntei ao médico, que o conhecia e o lastimava, se ele sofrera. – “Não! Teve um momento comatoso, depois arregalou os olhos, exclamou Oh! com grande espanto, e finou.”
Era o grito da alma, no assombro e horror de morrer também? Ou era a alma triunfando por se reconhecer enfim imortal e livre? O meu amigo não sabe; nem o soube o divino Platão; nem o saberá o derradeiro filósofo na derradeira tarde do mundo.
Chegámos ao cemitério. Creio que devemos pegar às borlas do caixão... Na verdade, é bem singular este Alves Capão, seguindo tão sentidamente o nosso pobre espiritualista... Mas, Santo Deus, olhe! Além, à espera, à porta da Igreja, aquele sujeito compenetrado, de casaca, com paletó alvadio... É o apontador de Obras Públicas! E traz um grosso ramo de violetas... Elisa mandou o seu amante carnal acompanhar à cova e cobrir de flores o seu amante espiritual! Mas, oh meu amigo, pensemos que, certamente, nunca ela pediria ao José Matias para espalhar violetas sobre o cadáver do apontador! É que sempre a Matéria, mesmo sem o compreender, sem dele tirar a sua felicidade, adorará o Espírito, e sempre a si própria, através dos gozos que de si recebe, se tratará com brutalidade e desdém! Grande consolo, meu amigo, este apontador com o seu ramo, para um Metafísico que, como eu, comentou Espinosa e Malebranche, reabilitou Fichte e provou suficientemente a ilusão da sensação! Só por isto valeu a pena trazer à sua cova este inexplicado José Matias, que era talvez muito mais que um homem – ou talvez ainda menos que um homem... – Com efeito, está frio... Mas que linda tarde!

Caso do vestido (Drummond) e Mito de Penélope

Link para o poema "Caso do vestido", de Carlos Drummond de Andrade :

http://www.casadobruxo.com.br/poesia/c/drumond48.htm


Mito de Penélope

Na mitologia grega, Penélope (Πηνελόπη) é a esposa de Ulisses. Ela aguarda por ele durante todo o seu retorno da Guerra de Tróia, narrado na Odisséia, de Homero.
Enquanto Ulisses guerreava em altos mares, o pai de Penélope, sugeriu que sua filha se casasse novamente. Ela, uma mulher apaixonada e fiel por seu marido, decidiu que o esperaria até a sua volta. Diante da insistência de seu pai, para não desagradá-lo, Penélope resolveu aceitar a corte dos pretendentes à sua mão, mas com uma condição: casaria somente após terminar de tecer uma colcha.
E assim fez. De manhã aos olhos de todos, Penélope tecia a colcha, de noite ela desmanchava, e foi assim até uma de suas servas descobrir a mentira e contar toda a verdade. Então ela teve outra idéia e fez a proposta para seu pai e para seus pretendentes: o homem que conseguisse atirar uma flecha como Ulisses poderia se casar com ela. E foi assim que nenhum pretendente conseguiu, até o dia em que um mendigo pediu para tentar atirar e conseguiu. No mesmo instante, Penélope reconheceu seu amado marido Ulisses.

http://pt.wikipedia.org/wiki/Imagem:JohnWilliamWaterhouse-PenelopeandtheSuitors%281912%29.jpg

13 de agosto de 2006

O GRANDE MENTECAPTO - Fernando Sabino
(Trechos de materiais retirados de vários sites da internet)

Fernando Sabino é autor contemporâneo dos mais importantes. Dono de um estilo inconfundível em que ressalta o extremo cuidado com a linguagem, é um especialista em criar situações cômicas de profunda beleza plástica. Sua capacidade descritiva faz com que o leitor, além de se deleitar com a complicação da trama, consiga visualizar a cena criada pelo narrado. Sua obra é extensa e inclui principalmente crônicas e contos. Seus romances - O Encontro Marcado; O Menino no Espelho; O Grande Mentecapto - são fruto de profunda preparação e artesanato impecável. Por isso mesmo cresce a cada dia a importância de sua obra no panorama da atual Literatura Brasileira.
Nesse romance de 1979, o Autor elabora uma trama com a nítida intenção de homenagear as pessoas humildes, simples e puras. Já na epígrafe da narrativa, "Todo aquele, pois, que se fizer pequeno como este menino, este será o maior no reino dos céus.". nota-se a vontade de elevar os puros, os inocentes e os ingênuos.
Na linha da novela picaresca - vide o Dom Quixote de La Mancha, de Cervantes -, em que o personagem desloca-se por um espaço indefinido, à cata dos conflitos, para resolvê-los heroicamente, Viramundo vive uma seqüência de peripécias acontecidas no Estado de Minas Gerais, contracenando com personagens dos mais variados matizes e comportando-se sempre como o bem-intencionado, o puro, o ingênuo submetido às artimanhas e maldades de um mundo que ainda não está de todo resolvido. Andarilho, louco, despossuído, vagabundo, idealista. Marginal em uma sociedade que não entende e em que não se enquadra, o Viramundo instaura um sentimento de ternura e de pena por todos aqueles que, em sua simplicidade, sofrem o descaso, a ironia, a opressão e a prepotência.
Como o Quixote, com a sua amada Dulcinéia, e como Dirceu, com a sua adorada Marília, Viramundo põe em suas ações tresvariadas a esperança de realizar-se emocionalmente com a sua idealizada e inalcançável Marília, filha do governador de Minas Gerais. Sua ilusão alucinada é reforçada pelos pseudo amigos que o enganam com falsas cartas de amor e incentivam sua loucura mansa e seu sonho impossível.
A pureza deste aventureiro é a crítica à hipocrisia das relações humanas em um mundo que perdeu o sentido da solidariedade e da fraternidade. Sua alegria ingênua e desinteressada opõe-se ao jogo bruto dos interesses malferidos, ao conservadorismo e à arrogância. Porta-voz dos loucos, dos mendigos, das prostitutas, o Viramundo conhece os meandros da enganação e da falsidade dos políticos e dos poderosos.
Viramundo não era conhecido, mas termina por criar fama em razão dos casos incríveis em que se envolve. Sob a aparência imunda de um mendigo está um sujeito com cultura geral incomum. Sua fala de homem conhecedor surpreende e sua experiência de ex-seminarista e ex-militar confunde e admira aqueles com quem convive. Sua esquisitice e suas respostas prontas a todas as indagações fazem com se acredite tratar-se de um louco manso e inofensivo.
Outro aspecto interessante é a exploração da temática da loucura. O Autor parece convidar o leitor a uma reflexão sobre a origem e o convívio com a idéia da excentricidade do comportamento humano. Viramundo pode ser considerado um louco, mas quem não o é? O que a sociedade considera loucura? Como classificar e tratar os indivíduos que atuam em dissonância com aquilo que se considera normalidade? A sociedade mostrada no romance está povoada de tipos que comumente chamamos de loucos: os habitantes de Mariana agem desvairadamente ao tentar linchar Dª. Peidolina; o diretor do hospício é mais estranho que os próprios internos do manicômio; o capitão Batatinhas é absolutamente alienado. Há no decorrer de toda a narrativa o questionamento da fragilidade dos limites entre a sanidade e a loucura.
No limiar da consumação de sua caminhada, Viramundo mudou. No começo era idealista e cheio dos cometimentos da paixão. Manteve-se assim durante muito tempo até encarar a dura realidade da convivência humana. A série de acontecimentos em que figura como perdedor física e emocionalmente faz com que se desiluda. Descobre que as cartas de amor eram falsas; os amigos eram falsos; sua crença era falsa. Por todo lado só encontra sofrimento, opressão, hipocrisia. Está só, absolutamente só, e a solidão é tudo que lhe resta.
Seu fim é emblemático. Morre vitimado pelo próprio irmão. Paga por um crime que não cometeu. A intertextualidade bíblica é evidente: compara a trajetória e o comportamento de Viramundo com a Via-Sacra do Cristo, em todos os sentidos, inclusive no sacrifício final.

(...)

Como seus contos e crônicas prenunciavam, com seu humorismo, suas situações cômicas, suas ironias, suas sátiras, o novo livro compreendia tudo isto nas páginas deste romance picaresco em que o herói ou o anti-herói é como a criação imortal de Cervantes. Mas com seu imortal antecessor sempre teve um ideal de proteção dos fracos e dos humilhados, de consertar “Los tuertos” de que a vida está cheia. E mais, e um pícaro sem picarice, não é amoral, traiçoeiro, malandro, vigarista. Suas aventuras e desventuras lhe advêm da sua honestidade, do seu ideal, de seu senso da liberdade e da justiça. Por isso, como D. Quixote, sofre, apanha, é ridicularizado e morre defendendo um ideal de justiça e liberdade, ao se fazer o chefe duma revolta de presos, de loucos, de mendigos e de prostitutas.

– ENREDO & PERSONAGENS
Como é norma do romance picaresco, tudo gira em redor do herói, isto é, do pícaro. Em torno de Geraldo Viramundo e seus inumeráveis apelidos. Filho de um português, o Boaventura e de D. Nina, italiana. Seu nome de batismo: Geraldo Boaventura. Seu nome de nobreza: José Geraldo Peres da Nóbrega e Silva. Sua glória e imortalidade: Viramundo. Um doido manso (doido de seguirmos os padrões tradicionais com que nossa sociedade mede normalidade e anormalidade) que saiu pelo mundo (das Minas Gerais), vivendo e sofrendo, em procura da liberdade. Uma liberdade natural, humana, total.
Nasceu e viveu sua infância em Rio Acima: fez tudo que os meninos, da idade, costumam fazer. Brincou muito no rio de sua terra. Fez para o trem que não parava nunca na sua cidade. Apostou que faria para o trem e ganhou a aposta de quinze amigos, treze meninos e duas meninas. (A Cremilda, filha da professora e amada de todos e a pretinha Salomé...) Com a façanha começa a virar herói. (Para parar o trem, ficou no meio da linha. O maquinista não teve outro recurso. Freou a composição. E xingou muito...) Um dia, de conversa com o Pe. Limeira, manifestou vontade de ser padre. Houve choradeira geral em casa. E ele foi para Mariana. Nada ou quase nada se sabe de sua vida seminarística. O certo é que um dia se meteu num confessionário e ouviu as inconfidências da viúva Correia Lopes, D. Pretolina, D. Lina, vulgarmente chama de Peidolina. Descoberta a malandragem, o seminarista Geraldo Boaventura foi expulso da casa sagrada do seminário... Mais tarde se põe em defesa da viúva, leva uma pedrada e é expulso aos gritos e empurrões. E começou a palmilhar os caminhos da vida: tinha 18 anos e se chamou Viramundo.
Suas andanças abrangem numerosíssimas cidade mineiras, de todos os cantos e tamanhos, até chegar a Belo Horizonte. Sempre metido em aventuras e desventuras... Foi em Ouro Preto que conheceu a amada do seu coração – Marília Ladisbão, filha de Clarismundo Ladisbão, Governador Geral das Minhas Gerais. (Viramundo, como D. Quixote, se apaixonou por essa Dulcinéia...) E o amor lhe trouxe muitas amolações. No meio dos estudantes que vão representar para o Governador, atrapalha tudo, erra o seu papel, é surrado e acaba num hospital. Numa festa ao Governador, o herói se mete em comilanças e acaba com uma irresistível dor de barriga. O toalete estava ocupado. Não podia esperar. Subiu uma escada, encontrou um cano, certamente do esgoto, e o jeito foi descarregar no dito cano. O cano descia livre, condutor de ar, em cima dum ventilador... A festa acabou, o Governador se foi... Sem a presença da amada, Viramundo deixa Ouro Preto. Esteve em Barcelona, acabou num hospício e candidato a prefeito. Na cidade, gastou o seu francês com o grande escritor Bernanos. Depois foi servir à Pátria num quartel. Foram tantas e tamanhas as suas atrapalhadas que foi devolvido à simples vida civil. Esteve em São João Del Rei, andou preso em Tiradentes, onde conheceu o João Toco que contou sua própria vida.
(Giramundo, Viramundo, Rolamundo... e o tempo, e a vida vão passando...) Até os profetas do Aleijadinho, em Congonhas, conheceram o grande metencapto.
Em Uberaba pegou touro à unha. Andou de ceca em Meca, cumprindo o seu destino de andejo. Em Cataguases, segundo dizem, foi confundido com o escritor Rosário Fusco, outro grande pícaro.
(Leitor, veja nas pág. 185 a 188 alguns lugares dos muitíssimos que o nosso herói conheceu. De agora em diante eles ficarão imortalizados pelo seu nome, isto é, apelido, e pela sua glória imortal...)
Em Belo Horizonte, metido com uma multidão de gente miúda, mendigos, prostitutas, vagabundos, desocupados, injustiçados, arraia-miúda... faz uma revolução. E com apoio de muitos políticos da oposição, parlamenta com o governador, mas nada resolve. A polícia cercou a Praça da Liberdade, dissolveu a multidão, acabou com a revolução do herói Viramundo. E ele sozinho, ou quase, com dois companheiros amigos fiéis, o Capitão Batatinhas e Barbeca (vendedor de esterco), se meteu em direção do Rio de Janeiro. Em protesto cívico, diante do Presidente, iam reivindicar os direitos de todos os injustiçados. Não chegou lá. No meio do caminho, perto de sua terra, foi amarrado, espancado e, com uma estocada no peito, fechou os olhos para este vale de lágrimas.
Geraldo Boaventura, 33 anos, sem profissão, natural de Rio Acima, foi enterrado como indigente numa cova rasa do cemitério local. Causa mortis: ignorada. Descanse em paz.
Foi assim que Geraldo Viramundo e todos os outros seus numerosos apelidos deixou o anonimato em que vivera, sofrera e morrera, para entrar na imortalidade.
Quem quiser saber do destino de muitos outros personagens dessas estórias, leia o epílogo do livro. O autor imortalizou ainda o último sorriso do pobre e grande herói.
“De viramundo, fica apenas o sorriso que se eternizou na sua face.”
(...)
1) A narrativa é, predominadamente, linear e segue (costume de novela picaresca) a ordem cronológica dos acontecimentos: nascimento, origens, família, as peripécias, aventuras e desventuras, até a morte do nosso vagabundo. No miolo do romance se encadeiam os episódios, as façanhas, os incidentes, o que serve para “engordar” a narrativa. Tudo gira em torno de Viramundo.
2) Para criar os personagens da novela picaresca, o autor usa e abusa dos traços caricaturais. E, assim, o herói e o seu pequeno mundo adquirem, pelos exageros caricaturais, traços e elementos capazes de levar ao riso e à sátira. Os apelidos também entram na jogada, principalmente aqueles que têm características depreciativas. Geraldo Boaventura (é o herói) tem 53 apelidos citados nas páginas 54 e 56. “Além desses, centenas de outros apelidos, epítetos, alcunhas, cognomes, ápodos e aliases...”
3) Há, no romance, algumas notas explicativas, muitas referências e acontecimentos e pessoas reais: Napoleão, D. Pedro, Tiradentes: Shakespeare, Maiakovski, Beethoven, Freud, Jung, Albalat, Umberto Eco; muitos escritores brasileiros, gente viva e morta;
4) O autor usou também do recurso de inserir uma estória ou estórias dentro da estória maior. João Toco conta sua estória para o Viramundo. (152 e segs.);
5) Fazem-se citações em francês, espanhol, inglês, latim, mostrando a erudição do pesquisador ou os conhecimentos do próprio ex-seminarista, transformado no herói Viramundo;
(...)
A palavra pícaro tem origem incerta e aparece como “sujeto ruin y de mala vida” desde o século XVI.
Na Idade Média, as fábulas criaram pícaros no reino animal: a raposa, por exemplo.
A literatura espanhola (séc. XVI) o fixou, definitivamente, com “La vida de Lazarillo de Tormes y sus fortunas e adversidades”. (Note-se o subtítulo de O Grande Mentecapto: “relato das aventuras e desventuras de Viramundo e de suas inenarráveis peregrinações”).
“Pícaro: tipo de persona descarada, traviesa, bufona y de no muy cristiano vivir... El pícaro, según creo, es el resultado de la comobinación de un estóico y de un cínico.
(Bonilla y San Martín – apud Manual de Literatura Española – Rodolfo M. Ragucci – Editorial Dom Bosco – Buenos Aires – 3ª ed. s.d. pág. 237).
“Añadase a todo que, aunque vicioso, el pícaro no es criminal y, a fuer de español, lleva siempre um sedimento religioso y cierta nobleza de corazón.” (Ragucci – ib. Pág. 237)
(...)
Há a predominância da sátira, clara ou escondida, que se revela no tom e nos traços caricaturais. Nenhum personagem escapa das linhas caricaturais e a figura mais caricatural é o Geraldo Viramundo, nosso herói.
O pícaro adota condutas conflitantes com os padrões sociais, voluntariamente ou não, contestando o que está estabelecido para a vida em grupo. Aparece como um doido, mas lúcido através de quem se vê um mundo diferente e se criticam os costumes. O pícaro é também um “gauche”.

"Fernando Sabino explora de maneira não agressiva o humor recôndito no mecanismo das coisas e dos homens: seu humor poderia receber a qualificação genérica de um desmonte progressivo da realidade, no sentido a nosso ver socrático: questiona a natureza das coisas, quer saber os limites das definições, toma a palavra do outro e a decompõe em seus próprios termos, como quem nada sabe da realidade examinada, e coloca aí o dinamismo das contradições e muitas vezes do ridículo de terceiros e dele próprio. Sabe rir de si mesmo, que é a suprema forma de humor. Desmonta a realidade por muito amar - toma a palavra do interlocutor como verdade inabalável para, em seguida, por um processo de desintegração mental e conceitual, ir mostrando que a pessoa não sabia bem o que estava dizendo..."
Matos, Marco Aurélio. Fernando Sabino: o verbo como aventura. In: SABINO, Fernando. Obra reunida. v.1, Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1996, p.39. (Biblioteca luso-brasileira. Série brasileira).

21 de maio de 2006

O monstro_Sérgio Sant´anna: Roteiro de leitura

O monstro (Sérgio Sant´anna)
aloisio andrade

1. Pós-modernismo: ecletismo, pluralidade, fragmentos de informação
2. individualismo pós-moderno: satisfação imediata, hedonismo, crise de valores
3. sociedades pós-industriais: indivíduo sincrético, sua natureza é confusa, indefinida, plural, não-totalizante
4. pastiche: imitação irônica, recuperação de gêneros literários, colagem
Nos três contos, usa-se a narração como uma forma de se reviver o amor, que, no entanto, é inatingível, incompleto, ligado à transcendência, e que se realiza no ato da narração, mas que se perde quando finda o texto
Ironia: narrar = amar : efemeridade, transitoriedade, incompletude = “Dorothy disse que todas as histórias são pela metade” (As cartas não mentem jamais)

Uma carta

Beatriz escreve uma carta para Carlos onde irá reviver a experiência sexual fugaz que tiveram
Ela é uma engenheira de uma cidade pequena, ele é secretário do governo, casado, em visita profissional
A construção da carta se dará como o processo de uma relação entre estranhos: descobrimento, desvendamento de impulsos carnais, clímax e afastamento
Para Beatriz, seus sentimentos “são como as obras que necessita edificar”
Propósito da carta: “Porque é nesta escrita e construção – e esta sua razão maior – que as coisas parecem ter acontecido, tornam-se reais e vivas. Escrevo para repetir, viver”.
A carta como um prolongamento do encontro e o encontro como um “pretexto” para a carta (complementaridade)
Se houvesse o gozo, não haveria a carta, e depois o vazio (descontinuidade)
Final: “Seja ou não violada esta carta, estará aqui esta mulher abrindo as pernas para o amante (...) esta pornografia como uma construção assinada também pelo corpo...”.

O monstro

Antenor Lott Marçal, 45 anos, professor universitário é preso por assassinato e estupro de Frederica Stucker, 20 anos, portadora de uma grave deficiência visual. Foi auxiliado (ou induzido) pela amante Marieta de Castro, 34 anos, que se suicidou ao saber que Antenor se entregaria à polícia.
Pastiche: reportagem policial = objetividade, levantamento de informações, sensacionalismo (revista Flagrante)
Discussão das formas grotescas e agressivas como o amor e o desejo sexual se manifestam
Na entrevista, Antenor revela a personalidade dominadora de Marieta
“Marieta queria verdadeiramente, as pessoas que a interessavam e a atraíam. A diferença, aquilo que Marieta não possuía ou atribuía a outrem, a exasperava”.
Ela queria desmistificar as pessoas, torná-las seres comuns
Encontro de Marieta com Frederica na Lagoa Rodrigo de Freitas, uma possível sedução
Antenor era uma espécie de escravo da amante que não se rebelava
Marieta queria transcender os limites da experiência física, ultrapassando o sexo
Voyerismo: ciúmes de Marieta, pois Antenor devora com os olhos Frederica, que já se encontra no apartamento da amante. Marieta coloca calmantes na bebida da garota. Enquanto ambos seviciam a garota, ela acorda. Eles a drogam com éter e cocaína, e a asfixiam com uma almofada. Frederica morre.
Antenor consuma o ato para satisfazer uma “voracidade sem limites” da amante– Marieta está novamente no controle da situação.
Fantasias de amor com Frederica para amenizar a violência do ato
Sexualidade: “crueldade e amor”
Sensação de aniquilamento depois do ato = desejo extinto, novamente revivido na memória, durante a entrevista = modo de Antenor possuí-la outra vez e protegê-la de Marieta
Eles carregam o corpo até um lugar ermo.
“Marieta não suportava a frustração. Havia uma espécie de pureza infantil em sua amoralidade. O fato é que se você tiver a psicologia de uma criança em um adulto dotado de força e inteligência, eis o monstro”
Antenor se entrega à polícia para sentir-se livre para amar Frederica e espera por uma transcendência, onde possa talvez encontrá-la
Força selvagem da sexualidade e do desejo como a natureza da criação

As cartas não mentem jamais

Narrativa em abismo: uma narrativa dentro de outra = metalinguagem
O pianista Antônio Flores e uma jovem francesa de 16 anos, Michelle, conversam após uma relação, no quarto de hotel onde Antônio está hospedado
A discussão e a curiosidade sobre a iniciação sexual de ambos e a menção da figura de Madame Zenaide
O pianista carioca está em Chicago, com uma francesa, falando inglês, conhecerá uma psicanalista que mora em Las Vegas, e irá falar com ela, pelo telefone, de Tóquio (Globalização)
Antônio fala sobre sua infância e suas composições a Michelle (Sinfonia da bola nº1, Sonata Atlântica) = composições de Flores interpretadas até pelo famoso maestro Karajan = mistura de elementos reais e ficcionais
Amor por Estela e a relação com a Sonata Atlântica. A traição da garota com outro garota da rua em que moravam: “queria que o outro rapaz possuísse Estela ali às minhas vistas, para que o meu aniquilamento fosse completo e definitivo”.
Conversa telefônica com René, pai de Michelle, e Dorothy, a psicanalista de Las Vegas
Gravação em fita da história sobre Madame Zenaide, para que Dorothy pudesse escutar: levado pela empregada, Antônio vai até ela para curar sua depressão, através da leitura de seu destino nas cartas
Nas cartas, a visão da morte, do sucesso e das mulheres: Estela, uma dama negra e uma de cabelos ruivos.
Madame Zenaide muda o destino de Antônio, iniciando-o sexualmente. O avô de Antônio fora um compositor de marchinhas de carnaval, que morrera no sótão do casarão em que moravam, embriagado de lança-perfume, pois sua mulher não o deixara sair para o carnaval. Zenaide, simbolicamente, livra Antônio de seguir o mesmo caminho de auto-destruição do avô.
Relação sexual de Antônio com a garota Estela : satisfação de um impulso sexual que logo se extingue, para se perpetuar na memória
Antônio Flores deixa Michelle dormindo no quarto de hotel: “o ato terminou e ele deve abandonar a cena para não estragá-la, para que as notas continuem a repercutir no tempo”
Conversa com Dorothy direto de Tóquio: Antônio carrega dentro de si a antiga casa e a cartomante = as cartas foram lidas outra vez em Chicago = os acontecimentos futuros mudam sempre quando se troca a posição das cartas
Ao final, fica subentendido que Antônio terá com Dorothy o mesmo tipo de relação que tivera com Michelle. No entanto, pode-se questionar se a história contado por ele, e gravada por Michelle, da dama de cabelos ruivos vislumbrada nas cartas, não poderia ter sido inventada, como uma forma de sedução.

Questões da UFV

29. O conto “O monstro”, de Sérgio Sant´anna, narra a história do estupro e do
assassinato de uma jovem – Frederica – que sofria de deficiência visual. A
respeito deste conto, marque a afirmativa INCORRETA:

a) O tema central do conto é a violência, tratada de forma simplista e banal
tal como aparece nos jornais sensacionalistas que, rotineiramente,
estampam as suas primeiras páginas com crimes hediondos.
b) O narrador tenta desvendar, através da consciência do assassino, as
causas que o levaram a cometer o crime.
c) A linguagem jornalística, também presente no conto, é misturada com
reflexões de cunho psicológico e filosófico sobre os limites humanos.
d) O conto origina-se do mesmo mote que inspira os romances policiais,
mas se diferencia deles porque parte, a priori, do assassino já
conhecido.
e) A estrutura pela qual é formada o conto – perguntas e respostas – deixa
entrever nos parênteses abertos, antes das respostas do entrevistado, a
sensibilidade do assassino.

30. Nos contos “Uma Carta” e “As cartas não mentem jamais”, de Sérgio
Sant’anna, encontramos características da narrativa pós-moderna, isto é,
da produção literária contemporânea. Assinale a alternativa que contém
uma característica dessa narrativa:

a) O paradoxo entre os acontecimentos reais e transcendentais.
b) A linguagem como instrumento de construção de sentidos.
c) O bucolismo das paisagens rurais contrapondo com as cenas urbanas.
d) A presença de narrativas longas e descritivas, como no Romantismo.
e) A mistura de elementos da natureza e da cultura estrangeira.

14 de maio de 2006

Cecília Meireles_Biografia e informações

Biografia
http://www.revista.agulha.nom.br/ceciliameireles1bio.html


Poetisa, professora, pedagoga e jornalista, cuja poesia lírica e altamente personalista, freqüentemente simples na forma mas contendo imagens e simbolismos complexos, deu a ela importante posição na literatura brasileira do século XX. Nasceu na cidade do Rio de Janeiro em 07/11/1901 e veio a falecer na mesma cidade em 09/11/64. Casou-se duas vezes e deixou três filhas.

Embora vivendo sob ifluência do Modernismo, apresenta ainda em sua obra heranças do simbolismo e técnicas do classicismo, gongorismo, romantismo, parnasianismo, realismo e surrealismo, razão pela aual sua poesia é considerada intemporal.

Órfã desde tenra idade (aos 3 anos já perdera os pais e três irmãos que nem chegou a conhecer), foi criada pela avó Jacinta Garcia Benevides. Desde cedo habituou-se ao exercício da solidão, tendo precocemente desenvolvido sua consciência e sensibilidade. Começou a escrever poesia aos 9 anos de iddade. Tornou-se professora pública aos 16, destacando-se como aluna exemplar, merecendo a estima dos mestres. Dois anos depois iniciou sua carreira literária com a publicação de Espectros (1919), uma coleção de sonetos simbolistas.

A década de 20 foi uma época de revolução na literatura braisleira, mas o trabalho de Cecília naquele período mostra pouca afinidade com as tendências nacionalistas então em voga, ou com o verso livre e a linguagem coloquial. Boa parte dos críticos, inclusive, consideram suas formas mais tradicionais de poema (como sonetos) o ponto mais alto de sua obra. Com Nunca mais . . . e Poema dos Poemas (1923) adere ao Modernismo. Em 1924 sai Criança meu amor e em 1925 Baladas para El-Rei.

Entre 1925 e 1939 dedicou-se à sua carreira docente publicando vários livros infantis e fundando, em 1934 a Biblioteca Infantil do Rio de Janeiro (a primeira biblioteca infantil do país). A partir deste ano ensinou literatura brasileira em Portugal (Lisboa e Coimbra) e em 1936 foi nomeada para a UFRJ, recém-fundada.

Cecília reaparece no cenário poético após 14 anos de silêncio com Viagem (1939), considerado
um marco de maturidade e individualidade na sua obra: recebeu o prêmio de poesia daquele ano da Academia Brasileira de Letras. Daí em diante dedicou-se à carreira literária, publicando regularmente até a sua morte. Vários de seus livros são inspirados nas muitas viagens que fez, viagens estas de grande significação, pois a autora extraiu do contato com gente, costumes e idiomas diferentes matéria de melhor compreensão da vida e da humanidade.

Entre os vários livros de poesia publicados após 1939 tem-se: Vaga Música (1942), Mar Absoluto e Outros Poemas (1945), Retrato Natural (1949), Romanceiro da Inconfidência (1953), Metal Rosicler (1960), Poemas Escritos na Índia (1962), Solombra (1963) e Ou Isto ou Aquilo (temática infantil, 1964).

Escreveu também em prosa, dedicando-se a assuntos pedagógicos e folclóricos. Produziu também prosa lírica, com temas versando sobre sua infância, suas viagens e crônicas circunstanciais. Algumas de suas obras em prosa: Giroflê giroflá (1956), Escolha seu Sonho (1964) e Inéditos (crônicas - 1968).

Ótimo e famoso texto, em que a própria poeta fala de si:
http://www.tanto.com.br/ceciliameireles.htm
"Nasci aqui mesmo no Rio de Janeiro, três meses depois da morte de meu pai, e perdi minha mãe antes dos três anos. Essas e outras mortes ocorridas na família acarretaram muitos contratempos materiais, mas, ao mesmo tempo, me deram, desde pequenina, uma tal intimidade com a Morte que docemente aprendi essas relações entre o Efêmero e o Eterno.
(...)
Em toda a vida, nunca me esforcei por ganhar nem me espantei por perder. A noção ou o sentimento da transitoriedade de tudo é o fundamento mesmo da minha personalidade".
(...)
Minha infância de menina sozinha deu-me duas coisas que parecem negativas, e foram sempre positivas para mim: silêncio e solidão. Essa foi sempre a área de minha vida. Área mágica, onde os caleidoscópios inventaram fabulosos mundos geométricos, onde os relógios revelaram o segredo do seu mecanismo, e as bonecas o jogo do seu olhar. Mais tarde foi nessa área que os livros se abriram, e deixaram sair suas realidades e seus sonhos, em combinação tão harmoniosa que até hoje não compreendo como se possa estabelecer uma separação entre essesdois tempos de vida, unidos como os fios de um pano".
LEITURAS CRÍTICAS
"Cecília"
A atmosfera dos poemas de Cecília é a mesma que respiram as figuras
de Botticelli. Tanto neste como naquela, há uma transfiguração das
criaturas. E sentimos, ao vê-las, não a nostalgia de um passado
edênico, mas de um futuro que talvez um dia atingiremos. Serão
corpos? Serão almas? Mas para que a discriminação? Recordem, ou
melhor, transportem-se àquele verso de Raul de Leoni: "A alma, estado
divino da matéria...".
Quintana, Mario [1977]. A vaca e o hipógrifo. 4. ed. rev. p. 53.
"O que logo chama a atenção nos poemas de Cecília Meireles é a extraordinária arte com que são realizados. (...) Sente-se que Cecília Meireles estava sempre empenhada em atingir a perfeição, valendo-se para isso de todos os recursos tradicionais ou novos. Há em Viagem, em Vaga Música, em Mar Absoluto, em Retrato Natural, em Doze Noturnos da Holanda, em Romanceiro da Inconfidência, em Canções, em Poemas Escritos na Índia, em Metal Rosicler e em Solombra, seu último livro, as claridades clássicas, as melhores sutilezas do gongorismo, a nitidez dos metros e dos consoantes parnasianos, os esfumados de sintaxe e as toantes dos simbolistas, as aproximações inesperadas dos super-realistas. Tudo bem assimilado e fundido numa técnica pessoal, segura de si e do que quer dizer."
Bandeira, Manuel [1946]. Modernistas. In: ______. Apresentação da poesia brasileira: seguida de uma antologia de poetas brasileiros. p. 143.

Missa do galo (variações sobre o mesmo tema)_Roteiro de leitura

Roteiro de leitura: Missa do Galo (variações sobre o mesmo tema)


Intertextualidade:

  1. epígrafe: uma escrita introdutória de outra
  2. citação: retomada explícita de um fragmento de texto no corpo de outro texto
  3. referência e alusão: referência a personagens, autores, títulos de obras; referência sutil, subentendida, apenas uma leve menção a outro texto ou a um componente seu
  4. paráfrase: recuperação de outro texto retomando seus processos de construção em seus efeitos de sentido
  5. paródia: forma de apropriação que, ao invés de endossar o modelo retomado, rompe com ele, sutil ou abertamente
  6. pastiche: quando se assume e os traços de um estilo, quando o texto recupera de forma séria elementos de um gênero textual, e assume suas características

1)Missa do galo (Machado de Assis)
Foco narrativo: 1ª pessoa / Narrador: Nogueira → narrativa construída através da memória→ o distanciamento do fato favorece a idealização e, consequentemente, a ambigüidade de interpretação

Apresentação das idas de Menezes ao “teatro” (eufemismo) e de Conceição como “a santa”

Referência e alusão: Balzac, Dumas, Os três mosqueteiros

Criação de uma atmosfera de sedução: a conversa baixa, a penumbra, rostos e corpos próximos, detalhamento dos gestos de D.Conceição, silêncios e insistência em manter o colóquio

“Há impressões dessa noite que me aparecem truncadas e confusas. Contradigo-me, atrapalho-me. Uma das que ainda tenho frescas é que, em certa ocasião, ela, que era apenas simpática, ficou linda, ficou lindíssima.”

Nogueira fica completamente seduzido pela figura de D.Conceição a ponto até de esquecer da missa do galo (ambigüidade de sentimentos).

No dia seguinte, a figura de D.Conceição nada fazia lembrar a conversação da véspera. Nogueira voltara para Mangaratiba e, quando voltara, Menezes já havia falecido [apoplexia=derrame], e D.Conceição casado com o escrevente juramentado [quem registra contas comerciais e documentos] do marido (ironia)

2) Missa do galo (Nélida Piñon)
· Foco narrativo: 1ª pessoa / Narrador: Menezes (Chiquinho, marido de D.Conceição)
· O conto focaliza os antecedentes e os momentos próximos ao desfecho do conto de Machado
· Epígrafe de Quincas Borba: hedonismo, valorização dos prazeres carnais
· “Sou o primeiro a aceitar que muito excedi-me no trato com as moçoilas, cada qual tão mimosa que havia de apreciá-las de perto.”
· Na certeza de que seus dias findam, Menezes se lança à conquista desenfreada, seus impulsos sedutores são irrefreáveis
· Narrador não considera a esposa feia, mas não vê nela os mesmos encantos de outras mulheres
· Pág.27: caracterização do pudor de D.conceição na vida íntima do casal
· Pág.30: referência crítica a uma peça teatral de Machado
· Apresentação de Pastora, sua amante, que fora deixada pelo marido
· Pág.32: comparação entre Pastora e D.Conceição, referência a Macedo
· D.Conceição se nega a satisfazer os desejos do marido: justificativa para as amantes (1ª pessoa=ponto de vista tendencioso)
· Apresentação do escrevente juramentado Soares, e da consideração que tinha por Conceição
· Apresentação do jovem rapaz, Nogueira, e da sua saída na noite da missa do galo, em pleno natal
· Menezes revela seus impulsos sedutores e descreve minúcias das circunstâncias que nos levam até o dia da missa do galo. A falecida esposa deixara-lhe relativa fortuna, e a atual se resignava as suas escapadas. Dá indicações do interesse aparentemente ingênuo do escrevente em Conceição. Da mesma forma, traça um perfil de pureza do jovem Nogueira

3)Missa do galo (Osman Lins)
· Foco narrativo: 1ª pessoa / Narrador: Nogueira
· Muda-se o enredo, mas se mantém o foco narrativo e o caráter retrospectivo do conto de Machado
· Epígrafe: ambigüidade, dúvida / Referência: O vermelho e o negro (Sthendal)
· Menezes mora com a mãe doente e a esposa, aos sábados vai inspecionar sua filial em Jaboatão, onde pernoita. No dia seguinte, ao regressar, tomará banho e levará a esposa a passear, e depois irá sozinho ao cinema. Menezes é um homem de hábitos rígidos
· Na segunda-feira, quando a mãe de Menezes vai à loja, Nogueira fica conversando sozinho com Conceição
· Noite de natal, Nogueira e Conceição na mesma situação, mas “Conceição deixou, no quarto, a aliança”.
· Pág. 49: Nogueira seduzido pela figura de Conceição
· Nogueira percebe na mulher a beleza que nem o marido conseguiria reparar, o “rosto que por um instante se revelou e que, sob a intromissão do mundo exterior, já se oculta, visão a ser lembrada, fugaz em sua essência e nunca recapturável”.
· “Não voltarei jamais a ver essa mulher, vinda, no silêncio da noite, de turvas profundezas, outra vez submersa, agora para sempre”.
· O narrador mantém a ambiguidade em relação às intenções de Conceição, mas deixa explícito o seu desejo, despertado pelos momentos desfrutados junto à senhora. Acentua-se o caráter sedutor dela, o que confere à narrativa um tom erótico e provocador.

4) Missa do galo (Julieta de Godoy Ladeira)
· Foco narrativo: 1ªpessoa / Narradora: Conceição
· Epígrafe: ironia
· Narração de caráter retrospectivo: Conceição revela que a lembrança daquela noite da missa do galo reaparece às vezes, e ela imagina se o rapaz enfim compreende o que realmente se passou
· Narradora revela que se sentia humilhada, numa atmosfera de “ódio complacente”, mas sem brigas com o marido: “Não havia ciúme, não houvera amor”.
· Pág. 57: desejo por Nogueira
· Referência: Os Maias
· Pág.59: erotismo
· Narradora: “queria-o estático, vulnerável, meu”. Pág. 61/62: a sedução do garoto é quase uma vingança, ou uma forma de se tornar novamente um objeto de desejo
· A inocência e falta de maturidade de Nogueira a fazem ver que aquele desejo era equivocado. Tenta passar para o rapaz novamente a imagem anterior. Revela uma inclinação para o gerente da firma que, após a morte do marido, o substituiria
· Conceição demonstra explicitamente seu desejo de seduzir Nogueira. Cansada do papel de submissa às traições do marido, ela faz crescer em si o desejo pelo jovem hóspede. No entanto, arrepende-se ao ver sua inocência e sua vulnerabilidade. Não consegue, ao final, enxergar o homem dentro do rapaz. A única lembrança que perdura é a do desejo.

5) Lembranças de Dona Inácia (Antonio Callado)
· Foco narrativo: 1ª pessoa (D.Inácia) e 3ª pessoa (narrador) / Discurso indireto, direto e indireto livre
· Narrador inicia contando do despertar de D.Inácia. Detrás da porta, escutará e reprovará o insinuante diálogo entre D.Conceição e Nogueira. Revela-se a figura misteriosa do homem de negro, a quem a senhora estendia a mão durante o sono
· “...neste triste mundo de que se sai um dia seguindo os negros passos do homem de sapatos pretos, de fivela” = homem de negro→morte
· Pág.69: utilização do discurso indireto livre com forma de aproximação entre a figura do narrador e a personagem
· Inácia se lembra com saudade do marido: da mesma forma que a filha, o fato de não ser um objeto de desejo traz certa frustração
· Citação: utilização de trechos do conto machadiano
· Pág.71: revelação do desejo secreto por Montezuma, a figura do escritor Machado de Assis, e a busca na memória do nome da amiga de Conceição, Capitu, que “lia a alma dos homens como outros lêem o Correio Mercantil”
· A vista ao senado na companhia do escritor, que a colocou “sossegada, na consoladora contemplação do desconsolo que é toda vida humana”
· Pág. 74: frustração de D.Inácia
· A misteriosa figura do homem de preto que levanta a cortina para todos passarem = separação entre vida e morte, realidade e ficção → “Só não passava o moço, escritor e cicerone, (...) ao curvar-se em despedida, mas cumprindo, sereno, seu dever de ficar”.
· Machado se torna personagem. A figura de negro transpõe a todos para o lado oposta à figura do escritor. Ou ela traz todos à vida, ou leva a todos para a morte. →ficção engendra a vida
· D.Inácia, meio sonolenta, relembra momentos que passara com o marido Veiga, o desejo secreto por Montezuma, além de introduzir na narrativa a figura de Capitu, personagem de D.Casmurro, enquanto ouve e observa sua filha e Nogueira conversando.

6)Missa do galo (Ligia Fagundes Telles)
· Foco narrativo: 1ª pessoa / Narradora: Leitora do conto
· A narradora se coloca como espectadora e analisao comportamento das personagens de Missa do galo
· Epígrafe: o silêncio= contenção de palavras, excesso de palavras, falta de palavras = sedução
· “Também me foge, inatingível, ele e os outros. Sem alterar as superfícies tão inocentes como essa noite diante do que vai acontecer. E do que não vai – precisamente o que não acontece é que me inquieta.”. = narradora refere-se à ambigüidade e à falta do ápice da sedução
· pág.100: narradora tenta entender o que se passa com Nogueira
· pág.101: a importância dos silêncios no jogo de sedução
· pág.102: utilização do discurso indireto livre para se manifestar o rancor de D.Inácia por Menezes
· relação entre Menezes e a mulata
· narradora procura preencher o oco de sua própria verdade, que ela não sabe se é mais verdadeira= cada leitor terá sua interpretação para aquela noite, “matéria imperecível no bojo do Tempo”ao analisar o comportamento e as personagens do conto, a narradora se coloca como leitora/espectadora, ansiando por respostas para a ambigüidade das reações, das palavras e dos silêncios de Nogueira e Conceição. Recupera-se a dúvida do texto, mas se mantém a falta de respostas .

7) Missa do galo (mote alheio e voltas) (Autran Dourado)
· Foco narrativo: 3ªpessoa / narrador
· Epígrafe: procura de respostas para a conversação da noite da missa do galo
· O conto focará o ponto de vista do escrevente juramentado Joaquim Fontainha Távora, que herdara, além dos bens e do posto de Menezes, sua esposa
· Conceição sempre procurava insinuar que fora ela o “general do triunfo” de Távora
· Conceição, depois da morte do marido, passara a aperfeiçoar suas artes de sedução e a dizer abertamente seus desejos: “Vivo, o Menezes certamente não a reconheceria nessas curvas e maquinações”
· Foram obrigados a se mudar quando picharam na parede da residência “Cartório Távora, Antigo Menezes”
· Pág.85: “vingança” de Conceição
· Conceição revela detalhes da noite da missa do galo ao atual marido. Numa das vezes em quem ela chegara até a porta, entreabriu o roupão, “certa de que ele não a via, querendo que ele a visse”
· “Era um jogo de silêncios e contenções. Falaria por semáforas, gestos e posturas, reticências e insinuações, nada mais”.= mantém-se o jogo de sedução
· Conceição confessa abertamente seu interesse: pág.90
· Conceição usa seu desejo para fazer com que Nogueira a visse bela. Num momento de torpor do garoto, Conceição dá-lhe lentamente um beijo
· Pág.94: reação de Távora e revelação do antigo caso entre ele e Conceição
· Enfoca-se como Távora herdou os bens e a esposa de Menezes, às custas de esperas e paciência. Conceição, depois da morte do marido, desenvolve e mostra seu lado sensual sem pudor, e com artimanhas e trejeitos, vive a atiçar o ciúme no marido. Ela lhe conta o episódio da missa do galo ressaltando seu lado sedutor. Távora já substituía Menezes em vida, no leito conjugal. No dia da missa, Conceição o dispensara, e ele encontra casualmente o desconsolado Menezes na igreja- a amante também fizera o mesmo com ele.

Amor de Capitu_Fernando Sabino (Resumão)

Amor de Capitu (Leitura fiel do romance de Machado de Assis
sem o narrador D. Casmurro) Fernando Sabino

Apresentação da obra: o que sempre atraiu Sabino não “foi a intrigante e todavia óbvia infidelidade da personagem principal”, mas descobrir se a dúvida teria sido premeditada pelo autor, “através de um narrador evasivo, inseguro, ingênuo, preconceituoso e casmurro como o apelido que assumiu para si mesmo”.

O romance reconta a história narrada em Dom Casmurro, sem as interferências do protagonista na narrativa. Pretende-se verificar quais os efeitos do deslocamento do foco narrativo para a 3ª pessoa, o que já se verifica no título, Amor de Capitu, que retira o foco central do narrador Bentinho.


Contemporanização do romance original
prática da releitura intertextual (Recriação literária)
modernização de palavras e expressões idiomáticas


Conseqüências da transposição do foco narrativo para a 3ª pessoa:

  1. retira-se as digressões do narrador sobre o passado e a construção do romance
  2. excluem-se as inúmeras referências intertextuais, ligadas, principalmente, à questão da traição
  3. supressão dos diálogos com o leitor, que podem ser relacionados à tentativa de conquistar sua confiança
  4. o tempo psicológico, resultante de uma narrativa de cunho memorialista, passa a ser cronológico
  5. aglutinação de capítulos do original e transposição de alguns entrechos
  6. utilização do discurso indireto livre para se expor as sensações de Bentinho(por vezes, é difícil identificar com clareza a quem pertencem as considerações): “Com que então ele amava Capitu, e Capitu o amava! Realmente, andavam sempre juntos, mas não lhe corria nada que fosse secreto entre os dois.” ; “Não, ele não sabia a que comparar aqueles olhos de Capitu. Olhos de ressaca? Isso mesmo, de ressaca: é o que lhe dava idéia aquela feição nova”.


Sabino: “procurei reviver os acontecimentos do livro a partir do mesmo ângulo do narrador original, com os mesmos elementos prosódicos, sem a interveniência de interpretações pessoais posteriores, muitas vezes deformadas pelo tempo decorrido”

Como o narrador não acrescenta à obra as perspectivas de outros personagens, a visão de Bentinho, construída por Machado de Assis, é mantida em Amor de Capitu. Isso quer dizer que a narrativa mantém seu ponto de vista tendencioso sobre a aparente certeza da traição de Capitu e Escobar.


É bem, e o resto? (mesmo título do último capítulo de Dom Casmurro): considerações do autor acerca do processo de construção do livro. Enquanto que no romance original a metalinguagem funde-se à própria narrativa, na obra de Sabino, ela aparece numa seção à parte do enredo.

O cronista Dom Casmurro: capítulos de Dom Casmurro excluídos em Amor de Capitu, transcritos e apresentados como “exemplo de excelentes crônicas de época” → Bentinho “como comentarista de si mesmo e dos fatos de seu tempo, à margem da trama romanesca de sua pretensa autoria”.

*É fundamental que você tenha também o material que contém a comparação entre os trechos de Dom Casmurro e Amor de Capitu.

MACAU_Paulo Henriques Britto (Entrevistas com o autor e textos sobre o livro)

Paulo Henriques Britto

Dados bio-bibliográficos:

Paulo Henriques Britto nasceu no Rio de Janeiro, em 1951. Professor e tradutor, estreou como poeta em 1982, com Liturgia da Matéria, a que se seguiram Mínima Lírica (1989), Trovar Claro (1997) e Macau (2003).

Entrevista:Rodrigo de Souza Leão

Entrevistado: Paulo Henriques Brito


Paulo Henriques Britto. Ele nasceu no Rio de Janeiro, em 1951. É professor e tradutor, estreou como poeta em 1982, com Liturgia da matéria, a que se seguiram Mínima lírica (1989) e Trovar claro (1997). O Começo

Balacobaco - Como foi o início do seu contato com a literatura?

Paulo Henriques Brito - É difícil dizer. Tenho muito poucas lembranças do tempo em que eu ainda não sabia ler. Minha principal atividade na infância e em boa parte da adolescência foi ler e escrever. Comecei minha leitura com gibis, depois engrenei no Tesouro da Juventude e nos livros infantis de Monteiro Lobato. Num certo sentido, o TJ e ML foram as leituras que tiveram o maior impacto sobre mim.

B - O que o poema tem de lúdico?

PHB - Boa parte da especificidade da linguagem poética, creio eu, é justamente esse aspecto lúdico dela, a questão do ritmo, da rima, da onomatopéia, do uso musical e lúdico das palavras. Isso é o que há de mais básico na linguagem poética, e talvez seja o que há nela de universal, ou seja, o que permite que classifiquemos como poéticas certas produções verbais de povos de cultura muito diferente da nossa.

B - Quais livros fizeram parte de sua formação?

PHB - Num primeiro momento, como já disse, o Tesouro da Juventude e Monteiro Lobato. Depois, quando fui morar nos EUA, ocorreu meu primeiro contato sério com a poesia - Shakespeare, Emily Dickinson, Poe, Whitman. Li também muito Hawthorne e Dickens, além de histórias de detetives: Poe, Conan Doyle, Chesterton, etc. Depois, já de volta no Brasil, na adolescência, descobri Machado e os outros clássicos brasileiros, principalmente os prosadores, que sempre me interessaram mais que os poetas. Mas por volta dos quinze anos descobri Pessoa, o que foi para mim uma verdadeira revelação e que pela primeira vez me levou a tentar escrever poesia "a sério" -- ou seja, com pretensões literárias, e não como puro ludismo verbal, como eu fazia desde os seis anos de idade. Pessoa puxou os clássicos do modernismo brasileiro - Bandeira e Drummond. Por volta dos dezessete anos, outra descoberta importante: Caetano Veloso, que por um lado me fez atentar mais para a música popular - Chico Buarque, Gilberto Gil, Bob Dylan, Jim Morrison - e por outro me fez ler o Balanço da bossa de Augusto de Campos, mais um livro fundamental na minha formação, que me levou a me interessar por crítica e teoria. Outra leitura dessa época que foi da maior importância foi A interpretação dos sonhos de Freud. Foi também nessa época que descobri o autor que até hoje é meu predileto, Kafka, além de Joyce, Beckett, Clarice Lispector, Graciliano Ramos, Cortázar, Gombrowitz, Sartre, Mário de Andrade, Campos de Carvalho... Mais para o final desta fase propriamente de formação, li alguns autores que foram marcantes para mim: lingüistas e pensadores, como Chomsky, Popper e principalmente Wittgenstein; romancistas, como Dostoievski, Tolstoi, Melville, Flaubert e, acima de tudo, Proust; críticos-poetas, como Eliot, Pound e os irmãos Campos; e dois poetas fundamentais: Wallace Stevens e Cabral. Esses autores foram os últimos a ter sobre mim esse tipo de impacto que, depois dos vinte e poucos anos, dificilmente você volta a sentir, mesmo que você ainda venha a fazer muitas descobertas importantes.

B - Quando começou a escrever. Quais eram as sensações físicas e mentais?

PHB - Comecei a escrever por volta dos seis anos. O ato de escrever me dava muito prazer; antes mesmo de saber ler eu já gostava de rabiscar folhas de papel, fazendo de conta que estava escrevendo. Era realmente um prazer físico e mental. Porém com o passar das décadas o prazer de escrever já não é mais tão intenso; o da leitura, porém, permanece inalterado. (...)O Poeta e a Obra

B - A concisão é uma de suas marcas. Fale um pouco.

PHB - A concisão é mesmo uma das minhas marcas? Em comparação tanto com os poetas que seguem na trilha do concretismo e descartam a sintaxe discursiva quanto com os descendentes da poesia-mimeógrafo dos anos setenta, que cultivam o poema-piada e o epigrama, o meu trabalho não me parece particularmente conciso. Eu diria que me situo bem na mainstream da poesia lírica contemporânea. Mas é claro que, na medida em que essa mainstream toda se desenvolve sob o signo de Cabral, sem dúvida a figura mais influente na poesia brasileira das últimas décadas, minha poesia tende mais para o seco que para o úmido. Nisso, tanto quanto na tendência à reflexão metalingüistica, eu diria que sou um poeta bem típico da minha geração e do meu tempo. (...)

B - Quais os grandes poetas da atualidade?

PHB - Não me sinto capacitado a responder a essa pergunta. Não sou crítico, e não conheço tão bem a produção contemporânea quanto eu gostaria de conhecer. Apenas acompanho alguns nomes que me interessam na poesia brasileira e na de expressão inglesa. No Brasil, o único poeta vivo cuja grandeza me parece inquestionável é Cabral.
(...)
B - Qual o maior poeta de todos os tempos?

PHB - Não sei. Dentro das minhas limitadas leituras - limitadas entre outras coisas pelo fato de que só domino português e inglês, embora leia mal e porcamente as outras línguas neolatinas - os que me pareceram maiores foram Shakespeare e Dante. Em português, acho Pessoa superior a todos os outros, inclusive Camões. Mas insisto que não sou crítico, não sou um estudioso sério de literatura.

B - Quais são as suas influências?

PHB - De novo, uma pergunta que eu não sou a pessoa mais indicada a responder. Se você perguntar quais os poetas que eu já me vi consciente ou inconscientemente imitando, ou parafraseando, ou homenageando, a lista seria muito longa, mas os nomes principais seriam talvez Pessoa, Drummond, Bandeira, Stevens, Cabral, Dickinson, Shakespeare, talvez Byron, os poetas americanos e ingleses do pós-guerra, principalmente Ginsberg, Elizabeth Bishop, James Merrill e Philip Larkin. Eu teria que citar também poetas que só li em tradução, como Kaváfis, e muita coisa que li traduzida pelos irmãos Campos, como os provençais. Também teria que citar o impacto de alguns prosadores, como Machado, Kafka e Joyce. E certamente a música popular dos anos sessenta, o rock, Bob Dylan, e a MPB, Chico Buarque, Torquato Neto, Capinan, Gil e principalmente Caetano Veloso. (...)

B - O que falta para cair de vez nesta rede?

PHB - Também não tenho muito o que dizer sobre isso. Sou um usuário parcimonioso da Internet. Praticamente só uso a rede para a minha correspondência eletrônica, para importar livros e fazer download de obras clássicas armazenadas em bibliotecas eletrônicas. (...)

B - O que é necessário para o fenômeno poético?

PHB - Acho que não sei responder essa pergunta. Eu teria que pensar muito, e provavelmente diria bobagem. Com a palavra, os teóricos de literatura. Pedir a um poeta que se pronuncie sobre questões teóricas é o mesmo que pedir a um crítico que escreva uma sextina.

B - Em sua poesia, que questão técnica lhe agrada mais?

PHB - Gosto muito de explorar as formas fixas. Também adoro o verso livre, mas cada vez ele me parece a forma mais difícil e exigente de todas. Gosto de experimentar sobretudo com a rima, a assonância e a aliteração; em matéria de métrica sou quase sempre fiel ao decassílabo. Mas gosto de fazer experiências com o decassílabo, utilizar formas inusitadas -- no meu último livro trabalhei com um decassílabo meio maluco, dividido em dois hemistíquios, com o acento recaindo na 2a, 5a, 7a e 10a sílaba. E há muitos anos que não consigo me livrar do soneto. Por isso às vezes faço variações em torno da forma canônica, invento uns sonetóides diferentes.

B - O que é mais difícil em tradução?

PHB - Tudo. Traduzir é muito difícil. Mas para mim às vezes dá até mais prazer que escrever.

B - Para traduzir até que ponto é necessário o conhecimento total da língua traduzida?

PHB - Bem, "conhecimento total" não existe de nada, nem mesmo da língua nativa. É claro que é bom conhecer bem a língua de que se traduz, mas o essencial é conhecer muito bem a língua para a qual se traduz. Um tradutor que domine bem seu próprio idioma pode traduzir até de línguas que não conhece perfeitamente, munido de bons dicionários e consultando pessoas que dominem a língua da qual ele traduz. (...)

B - Por que a tradução de poesia é um trabalho de poetas?

PHB - Traduzir é um trabalho de escritor. Para traduzir poesia, é preciso ter domínio passivo e ativo do arsenal de recursos formais utilizados pelos poetas. Ou seja, é preciso, num certo sentido, ser poeta. Porém o tradutor não precisa ter o que dizer, só precisa saber fazer um poema. Já o poeta para ser bom tem que ter algo para dizer, na minha opinião.

B - Que língua prefere traduzir?

PHB - Só traduzo do inglês para o português e vice-versa. Sendo que vice-versa só em caso de textos não literários.

B - Existe uma conduta, um pudor em "mexer" na obra alheia?

PHB - Quem tem pudor de mexer na obra alheia não pode ser tradutor. Traduzir implica mexer, e muito, no texto do outro.

B - Qual o poema seu que mais o personifica? E a sua obra?

PHB - Não sei dizer.

B - Qual o papel do escritor na sociedade?

PHB - Há vinte anos atrás, eu diria que a principal exigência feita ao escritor era de caráter ético. Hoje, eu diria que o mais importante é de natureza técnica: ele deve escrever bem. O que mudou, além do fato óbvio de que não vivemos mais numa ditadura odiosa, é que me convenci de que a literatura é bem menos importante para a maioria das pessoas do que eu imaginava. A exigência ética, portanto, é mais premente para quem trabalha com televisão e cinema. A literatura afeta uma porção ínfima da população, e a poesia uma parte muito pequena dessa porção ínfima.

Entrevista: Bernardo Mello Franco

Poeta premiado em busca de horas vagas para criar

Paulo Henriques Britto se divide entre tradução e aulas de literatura
A vida de Paulo Henriques Britto não mudou muito desde a noite de terça-feira, quando recebeu o prêmio Portugal Telecom de Literatura, em São Paulo, pelo livro de poemas Macau, lançado em 2003 pela Companhia das Letras. Continuou dividindo seu tempo entre a atividade de tradutor e as aulas de literatura que ministra na PUC-Rio. Seus alunos levaram dois dias para cumprimentá-lo pela vitória, que só souberam pelos jornais. O poeta revelou que não queria viajar para a cerimônia de premiação.
- Tinha que dar aula no dia seguinte às 11h - justifica.
Apesar de satisfeito com o reconhecimento e o prêmio de R$ 100 mil - que usará para cobrir despesas médicas dos pais e trocar o carro ''já velhinho, com 12 anos'' -, Britto vê com ceticismo a possibilidade de aumentar as vendas.
- Ninguém lê poesia. Isso só vai me render os 15 minutos de fama. Quem sabe, mais gente vai comprar o Macau para a namorada no Natal, mas o impacto não será duradouro.
Enquanto traduz o novo livro de Philip Roth, com título provisório de Complô contra a América, e termina a revisão de sua primeira seleção de contos, Paraísos artificiais, Britto busca horas vagas para inúmeros projetos: ler poetas portugueses, a obra completa de Balzac, reler Proust, preparar uma antologia de Emily Dickinson...
- O ócio criativo é vital para o poeta - conclui.


Entrevista:
- Como foi o processo de escrita de Macau?

- Reuni minha produção desde o último livro (Trovar claro, de 1997) sem muito critério. Na verdade, não consigo escrever com muita organicidade. Vou reunindo, depurando, cortando. Quando acho que está ficando pronto, começo a mostrar e pedir sugestões para minha mulher, amigos próximos que trabalham com poesia.

- De que forma concilia o trabalho de tradução com a poesia?

- Escrevo nas horas vagas. No máximo, seis poemas por ano. É um trabalho muito esporádico, passo meses sem abrir o caderno. Gostaria de ter mais tempo para a poesia, mas ainda tenho que preparar aulas, corrigir provas... - (...)

- Onde surgiram as influências da cultura pop em seus poemas?

- Tenho ligação com a música popular desde muito cedo. Minha formação, nos anos 60, foi com os Festivais da Canção. Também ouvia muito rock: Beatles, Rolling Stones, Bob Dylan. Ainda não era tradutor, mas com 17, 18 anos, achava as letras de Bob Dylan muito legais e queria mostrar para os meus amigos que não falavam inglês.

- De que forma analisa o momento atual da poesia brasileira?

- Cresci numa época de muita polarização. Ou você era Chico Buarque, ou Caetano Veloso. Sempre gostei dos dois, era um problema (risos). A poesia também era assim. Essa polarização remonta ao grande conflito entre modernos e parnasianos na década de 1920 e reaparece, de certa forma, nos anos 40, quando os concretistas começam a atacar a geração de 1945. Após a ''vitória'' do concretismo, vem a reação da chamada geração mimeógrafo, aquela poesia espontânea, descabelada. É nessa época que eu entro.

- Como se posicionava entre a geração mimeógrafo e os concretistas?

- Sempre sofri um certo mal-estar. Devorava as traduções do Augusto de Campos e andava com seu livro sobre a Tropicália, O balanço da bossa, debaixo do braço. Era a minha Bíblia. Lia todos os autores que os concretistas recomendavam, mas nunca gostei de poesia concreta. Por outro lado, dava razão ao discurso que pregava o uso de algum método. Mas o pessoal do mimeógrafo falava de temas da minha geração como drogas e rock and roll, o que me gerava grande identificação com eles. Na verdade, nunca consegui me situar muito bem em nenhum lugar.

- Acha que essa polarização está acabando?

- Sim, e pela primeira vez em muito tempo. Estamos vivendo uma época de muita pluralidade, os poetas não estão mais fechados em grupos. Ao mesmo tempo, ocorre uma coisa extraordinária: o aumento do número de revistas de poesia pelo Brasil. Só no Nordeste, são dezenas. Considero essa pluralidade muito saudável. Italo Moriconi sintetizou o momento numa frase ótima: ''Voltamos à normalidade''.

- Por que o grande público não lê poesia?

- De modo geral, a poesia perdeu muito espaço no Ocidente. Virou leitura de especialistas: poetas, estudantes, críticos. É um público muito pequeno. A maior parte das pessoas não lê mais poesia - aliás, não lê nem romance. O lugar da poesia foi ocupado pela música popular e o lugar do romance, pelo cinema e pela novela de televisão. No caso do romance, ainda restam os best-sellers, de consumo fácil. No século 20, surgiu, não só na poesia, um grande hiato entre o gosto do artista e o gosto do grande público, da classe média. Nas artes plásticas, o divórcio foi o mais radical possível. No campo do romance, foi menos forte, mas não na poesia.

- Como descobriu a poesia?

- Na verdade, descobri a poesia em língua inglesa, quando morei nos Estados Unidos, entre os nove e 10 anos. Quando era menino, no Brasil, os modernos eram ignorados na escola. Só lia Olavo Bilac, Gonçalves Dias... Poesia era uma chatice, que a gente tinha que decorar para ler no Dia das Mães. O ensino de poesia nos anos 50 era uma coisa atroz. Nos Estados Unidos, me deram Shakespeare, Emily Dickinson, Walt Whitman. Foi um choque. Quando voltei ao Brasil é que descobri, com Fernando Pessoa, que também existia poesia boa em língua portuguesa.

- Você comentou que pretende usar o prêmio Portugal Telecom (R$ 100 mil) para trocar o carro...

- Vai dar para trocar o carro, resolver uns outros problemas (risos)... É um dinheirinho bom. Quem vive como escritor no Brasil? Talvez o Paulo Coelho e outros três ou quatro. Como poeta, nem pensar. Aliás, não há mais poeta popular. Nos anos 50, existia um cara chamado J. G. de Araújo Jorge que vendia poemas de amor para os caras darem para a namorada, essas coisas. Eram livros de poesias rasteira, uma superdiluição do romantismo. Hoje, não existe mais nem isso. O sujeito quer dar um presente para a namorada e baixa umas músicas em MP3 na internet.

- O que você tem lido por prazer?

- Quase todas as minhas leituras acabam virando trabalho. Gosto mesmo é de romance. Queria ler toda a obra de Balzac, reler Proust, mas acho que só vou conseguir fazer isso tudo quando me aposentar. Em poesia, meu projeto é usar as raras horas vagas para ler mais poesia portuguesa, que conheço mal. Aproveitei uma feira recente na PUC para comprar vários livros portugueses. Estou me obrigando a ler muita poesia medieval, aqueles trovadores, para o curso de oficina de poesia que estou dando no curso de formação de escritores. Minha formação foi lingüística, nunca fui aluno de literatura. Aliás, minha tese é de semântica formal, que é mais lógica matemática. Quando acabei o mestrado, larguei a lingüística para virar tradutor e professor de tradução. (...)

O azarão afortunado


Prêmio Portugal Telecom de Literatura destaca o poeta Paulo Henriques Britto, autor carioca que traz como marca a obsessão pela disciplina e pela clareza

Para evocar o território de íntima estranheza da poesia brasileira, o poeta e professor Paulo Henriques Britto deriva por outras paisagens: "A água é pura espera, como um túmulo egípcio"
Sempre que a poesia ganha um prêmio de expressão é vista como surpresa e azarão. Ainda mais se está concorrendo com romances. O poeta carioca e professor universitário Paulo Henriques Britto, ao ser anunciado no último dia 9 como vencedor do prêmio de R$ 100 mil da Portugal Telecom, não deixou de ironizar que teria seus 15 minutos de fama e que seu livro Macau (Companhia das Letras, 79 páginas) venderia um pouco mais no Natal na forma de amigo-secreto e presente de namorados. Tradutor da Companhia das Letras (aliás, uma de suas fortes referências é o americano Wallace Stevens, um de seus traduzidos), o autor não é de falar muito, mas de fazer calar no momento certo. Em seus 20 anos de poesia, publicou apenas quatro livros: Liturgia da Matéria (1982), Mínima Lírica (1989), Trovar Claro (1997), além de Macau (2003), sempre com intervalo de seis a sete anos entre uma produção e outra. A lentidão decorre de sua exigência pela aquisição de um domínio do próprio processo criativo.
Utilizou a metáfora do pequeno entreposto português na China, Macau, para mostrar o quanto a poesia brasileira é um território de íntima estranheza, rodeado de idiomas que não a levam a sério. Utiliza a desordem externa do mundo, a negatividade, para arquitetar uma ordem interna e positiva, de precisão e sutileza. Ele se distancia para depois personalizar a visão. Sua poética tem como matriz o ludismo verbal e a ironia. Seu charme vem de um ar desesperançado. O formalismo e a afeição por formas fixas contrastam com o tema coloquial de seus versos, munido de referências pop como Jim Morrison ou de cenários como bangalôs, praias, hotéis baratos. Uma monotonia proposital e o ímpeto prolixo e argumentativo são quebrados ao final com a inversão de expectativas, transformando o conceito em uma imagem. Seus poemas são falsos blagues, falsos exorcismos. Ele finge falar do mundo para falar do seu jeito desconfortável no mundo. Define um mal-estar ou um desvio com o apelo pessoal. "Se tudo correr bem, também a tua derrota / vai ser de bom tamanho. Pode contar comigo."
Circula no espaço da trivialidade, das revelações a partir do mais grosseiro, do mais visível, do mais tátil. É como uma consciência que evolui unicamente do texto para o texto, em uma operação cabralina contínua de investigação e observação sagaz. A dicção é híbrida, infiltrada de neologismos e gírias, que dividem espaço com evocações do dicionário.
"Esse quarto minguante incompetente que mal / e porcamente alumia, essa tosca / arandela de santo em quarto de bordel, / coberta de cocôs de mosca... / Não abre a boca, não estufa / o peito, não. Nada que você diga / é teu. Nada é você. Você não é Puf!". Não é de uma linhagem metafísica. Egresso da geração mimeógrafo, marcada pela espontaneidade do sentido (nunca do sentimento), tornou-se pouco a pouco um artesão da língua, um alfaiate erudito, não abdicando da nobreza do desbotado e dos trapos. Até porque não há realidade plena sem o escuro, muito menos pôr-do-sol sem luz desmaiada.
Sua poesia é construída, focada, refinada, crítica da leitura do poeta e do poeta leitor, derrubando a noção de autocomplacência e comoção direta do romantismo. Há, em seu trabalho, uma autonomia admirável, uma obsessão de repertório. Em Trovar Claro, encontra-se referências ao Egito: "A água é pura espera, como um túmulo egípcio", reiterada em Macau: "Antes que fôssemos mumificados por completo, você descobriu uma maneira de apodrecer tão depressa que fosse impossível até mesmo para o mais hábil mumificador do Alto Egito".
Igual processo funciona com sua fixação pelas mãos que vacilam e escrevem o que pensam sentir, presentes em "Dez exercícios para os cinco dedos", de Trovar Claro, e "Bagatela para a mão esquerda", de Macau. Tanto que os dois livros apresentam sempre a figura das variações, dos exercícios e dos estudos, contribuindo para a disciplina do rascunho. A lógica de Paulo Henriques Britto é não chegar ao poema perfeito, porém o mais perto possível dele, sem abdicar da imperfeição que assegura a naturalidade dos versos. Produz erros premeditados: "Mas a semente espera. É insistente / e acerta mesmo sem saber que erra". Atuaria como um biólogo do ritmo, perfurando as paredes culturais de sua formação (como ao refutar Drummond). Percebe-se a importância da prosa (bem longe do prosaísmo) em sua poesia, como uma necessidade orgânica de ser compreendido e de seguir um raciocínio limpo e linear, de criar cumplicidade com o leitor mesmo que seja pela hipocrisia, como ensinava Brás Cubas de Machado de Assis.
De Vulgari eloquentia
A realidade é coisa delicada,
de se pegar com as pontas dos dedos.
Um gesto mais brutal, e pronto: o nada.
A qualquer hora pode advir o fim.
O mais terrível de todos os medos.
Mas, felizmente, não é bem assim.
Há uma saída - falar, falar muito.
São as palavras que suportam o mundo,
não os ombros. Sem o "porquê", o "sim",
todos os ombros afundavam juntos.
Basta uma boca aberta (ou um rabisco
num papel) para salvar o universo.
Portanto, meus amigos, eu insisto:
falem sem parar. Mesmo sem assunto.
Acalanto
Noite após noite, exaustos, lado a lado,
digerindo o dia, além das palavras
e aquém do sono, nos simplificamos,
despidos de projetos e passados,
fartos de voz e verticalidade,
contentes de ser só corpos na cama;
e o mais das vezes, antes do mergulho
na morte corriqueira e provisória
de uma dormida, nos satisfazemos
em constatar, com uma ponta de orgulho,
a cotidiana e mínima vitória:
mais uma noite a dois, e um dia a menos.
E cada mundo apaga seus contornos
no aconchego de um outro corpo morno.
Por : Izacyl Guimarães Ferreira

Macau, de Paulo Henriques Britto :Nihilismo, humor e metapoesia

Autor de poucos livros de poucos poemas de poucos versos, notável tradutor de Wallace Stevens, Ted Hughes, Elizabeth Bishop, entre outros, ex-estudante de cinema, o ganhador do mais valioso prêmio pago até hoje no país a um livro de poesia, Paulo Henriques Britto, muito mais que um poeta excelente é uma dicção nova – tão formalmente disciplinada quanto inventiva, uma lírica indagadora, de “trovar claro”, como titulou seu livro anterior.
Mas, como todo poeta de peso específico, não é o que Bandeira dizia de Murilo – “um bicho-da-seda, que retira tudo dele mesmo”. PHB se insere numa linha que passa por João Cabral, aludido no título do metapoema Fisiologia da Composição, linha que penetrou no cerne da poesia do pensamento, típica de Wallace Stevens, recorda certo meditar sonoro de Pessoa, toca de leve o humor que não desmerece Drummond e transcende atmosferas do que pretenderam sem êxito modernistas e marginais notórios. E de passagem adjetiva insolitamente como Murilo e condensa a emoção com a brevidade de Emily Dickinson.
O título do livro ganhador do Prêmio Portugal Telecom – Macau – é mais que uma rima feliz para mal no poema II dos “Sonetos Simétricos”. A possessão portuguesa na China é metáfora extraordinária do que pode ser a poesia de PHB. Língua nada hegemônica é o nosso idioma, arte nada popular é a poesia, espécie nada privilegiada é o homem se não tem a proteção de um deus, uma utopia, qualquer esperança de redenção.
Ilha é o poeta, ilha é a língua em que escreve, ilha é o homem num mar feito de “minúsculos plânctons” que compõem a realidade que o circunda, imóvel no “cais ínfimo e úmido do eu”.
Mas, e o humor? já perguntava o gauche Carlos e com fina elegância ( ainda que nem sempre) responde PHB. Porque “a dor é kitsch” e “só o raso é cool”, há que seguir adiante, sem mergulhar fundo demais.
O humor percorre o livro ao lado do nihilismo, e vêm os dois, tão reiteradamente expressos, que não chegam, um a desatar o riso, outro a desatar o pranto. O leitor aceita esse jogo de luz e sombra como o adulto que é aceita a mortalidade.
(...)
Também os anjos mudam de poleiro
de vez em quando, se rareia o alpiste
indeglutível que é seu alimento.
Porém você não se conforma, e insiste,
procura em vão possíveis substitutos
que tenham o efeito de atrair de volta
esses seres ariscos, esses putos
que se recusam a ouvir os teus apelos,
como se fossem mesmo coisas outras
que não a tua própria vontade de tê-los
sempre a postos, em eterna prontidão,
a salpicar na tua boca ávida
o alpiste acre-doce da ( com perdão
da péssima palavra ) inspiração.
Parece evidente que os anjos são rilkeanos, como a “fisiologia” referencia o João Cabral da psicologia da composição, uma influência admitida. Noutro texto, diz que é claro que é difícil escrever, fala de suor e de acaso, palavrinha cabralina mas também mallarmaica. PHB é poeta culto, professor de literatura, mas que rejeita assumir posturas críticas, como nega aos críticos poder de escrever sextinas. E se sonetiza o faz heterodoxamente: seu apego às formas fixas é mais um parâmetro que uma lição observada rigorosamente.
Parece importar-lhe tanto a forma quanto a matéria que ela molda, e embora a dor seja “brega” ele a registra, como aconselha Auden : que a dor seja feliz e dita com beleza. Não basta o sofrimento se ele não ultrapassa o momento, longo que seja, para transformar-se em expressão poética. Exemplo, esta “epifania trivial”:Seria trágico se não fosse bobagem.Seria uma solução se houvesse um problemapossível de resolver. Seria uma imagempoética se houvesse espaço pra um poema.Estando as coisas como estão, não é mesmo nada.O que é uma pena. Pois o gesto em si é belocomo uma ruína, ou uma xícara quebrada.( Mas não é bem gesto e sim a intenção de fazê-lo.É mais a idéia de uma coisa que uma coisa,apenas um projeto, e a plena convicçãode que mais nada vai acontecer depois,a consciência de que a pseudo-soluçãohá de doer a vida inteira na lembrançacomo um castigo injusto imposto a uma criança.)

Cabe assinalar o que a edição (Companhia das Letras) informa: em sua quase totalidade os poemas são inéditos apenas em livro, publicados que foram ao longo dos anos em diversos periódicos.
S
oaria naturalmente adequado o elogio a uma obra recebida com o aplauso deste Macau. Aplauso de crítica e “de bilheteria”, a que o autor, com seu característico humor, reduz a uma fama de 15 minutos. Quem o acompanha desde a estréia, com Liturgia da matéria, seguida de Mínima lírica e Trovar claro, quatro livros só, ao longo de 22 anos, saberá que Macau não é um acaso, um lance de dados. Sim haverá quem rejeite aspectos “perecíveis” em sua poética, tais os referidos acima, como sejam falas no limiar da prosa, ou dentro dela, a gíria ocasional, certo gosto pelo corte “popular” abrupto num momento, digamos, “delicado”, como os “putos” anjos do poema transcrito. PHB tem antecedentes (Murilo, Drummond) e direito adquirido para transgredir como queira. Se tais aspectos, que já li condenados por mais de um crítico, são traço de época ou de autor, o tempo dirá. (Não conheço poeta cem por cento puro...) O que PHB nos traz é personalidade, moeda rara, e coerência, e a capacidade de nos fazer solidários com sua dor, que não tem dono, e com seu humor, ai, tão necessário.
(...)