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[PROSA_Oficina de textos_UFMG 2011] Salinha para resolução de questões abertas de Literatura (vestibular UFMG 2011) . Informações: emaildoaloisio@yahoo.com.br

24 de novembro de 2007

Aula_Clara dos Anjos (Lima Barreto)

Clara dos Anjos (Lima Barreto)

Prof. aloisio

  • Pré-Modernismo: os autores ainda estão presos à estética e aos modelos do Realismo/Naturalismo, mas se introduz duas novidades:
    1. Realismo (universalizante) → Pré-Modernismo (interesse pela realidade brasileira) → Obras de nítido caráter de denúncia social. Lima Barreto, especificamente, faz uma análise das populações suburbanas do Rio de Janeiro.
    2. Busca de uma linguagem mais simples e coloquial: Barreto escreve com simplicidade, transcreve, muitas vezes, fielmente o modo de falar dos marginalizados e suas expressões típicas (influência para os Modernistas).
  • Características gerais da obra:
    1. simplicidade de linguagem
    2. aproximação com a fala cotidiana
    3. ironia
    4. moralismo explícito
    5. tom panfletário: denúncia do preconceito contra negros e mulatos
  • Figura de Clara dos Anjos: argumento vivo para embasar a denúncia da discriminação em relação aos suburbanos, os malefícios da alienação feminina, os problemas causados pela criação familiar super-protetora, a degradação a que os negros e mulatos se submetem devido à insensibilidade dos brancos.
  • Fatalismo → generalização → caráter alegórico da figura de Clara dos Anjos
  • O narrador interrompe a narração seguidas vezes para a fixação de tipos individuais suburbanos : matéria-prima da narrativa
  • Epígrafe do livro: caráter histórico do abuso sexual contra as mulheres de cor → tragicidade, fatalismo, imutabilidade de um comportamento social condenável→ visão pessimista

Roteiro de leitura

· Joaquim dos Anjos, pai de Clara: “simplicidade de nascimento, origem e condição”

· Retrato crítico e sarcástico dos subúrbio: presença dos “bíblias”, os protestantes, que chegam até o subúrbio e arrebanham os menos favorecidos, que anseiam por algum tipo de escape da realidade cruel em que vivem. Há uma ironia em relação ao sincretismo religioso, pois os fiéis buscam alívio e conforto em outras religiões, mas não deixam de batizar seus filhos na igreja católica.

· Clara dos Anjos: garota com dezessete anos e uma criação recatada e super-protetora

· Marramaque: semi-paralítico de alguma instrução intelectual

· Lafões: guarda de obras públicas, português de nascimento, de maneiras simples, que irá introduzir a figura do “mestre do violão e da modinha”, Cassi Jones

· Cassi Jones: o insensível deflorador de virgens, é descrito de forma agressiva e sarcástica pelo narrador, que sempre ressalta sua falsidade e suas artimanhas para conquistar as virgens indefesas, sempre garotas suburbanas, negras e mulatas

· Mãe de Cassi: preconceituosa, defende e ignora as proezas do filho, para que ele não se case com uma analfabeta ou costureira mulata.

· O pai de Cassi repugna-lhe totalmente e, mais adiante na narrativa, expulsará o filho de casa.

· Caso de Nair, que vinha receber lições de música com a irmã de Cassi. Ele a seduziu com uma carta reproduzida de um modelo desse tipo de missiva, tomada de um poema de Leonardo Flores, poeta beberrão.

· Nair é seduzida, engravida, sua mãe se suicida com lisol, o que é noticiado em todos os jornais. A má fama de Cassi espalha-se.

· O narrador, além de construir a imagem de Cassi como um sedutor insensível, ironiza seus métodos de conquista ao transcrever trechos de sua carta mentirosa, com a ortografia errada e o uso de clichês românticos.

· Crítica ao Amor como escape para as mulheres do subúrbio, sem perspectivas de vida.

· Narrador considera Marramaque um homem capaz de julgar Cassi, devido a sua convivência com literatos, poetas e escritores.

· A visão de Marramaque sobre os marginalizados é sempre corroborada pelo narrador.

· Clara cresce mal-acostumada ao “simplório sentimentalismo amoroso” das músicas populares.

· Joaquim dos Anjos permite que Cassi venha tocar no aniversário da filha. Ao chegar, ele causa alvoroço nas moças.

· Crítica à inaptidão de Cassi e seus trejeitos ensaiados de conquistador, como o fato de revirar os olhos dramaticamente quando dedilha, de maneira tosca, seu violão.

· Engrácia, mãe de Clara, finalmente se manifesta e diz ter achado indecente a forma de Cassi tocar, e decide proibir que o moço venha em sua casa novamente, para desespero de Clara.

· Crítica a Engrácia, que recebera boa instrução, e esquecera o que tinha estudado depois de casada.

· Crítica às modinhas e ao idealismo romântico forjado por elas no espírito de Clara = alienação feminina.

· Cassi retorna à casa de Clara, mas é recebido com frieza por Joaquim

· Papéis e documentos sobre as “atuações” de Cassi circulavam nas mãos de delegados na forma de um caderno

· Descrição detalhada da pobreza suburbana

· Descrição naturalista = coexistência de uma visão, ao mesmo tempo, irônica e solidária em relação ao suburbano

· Os próprios juízes manifestam seu preconceito por acharem um absurdo o casamento forçado, por lei, de Cassi com suas vítimas, “devido à diferença de educação, de nascimento de cor, de instrução”.

· Cassi vai se valer de Menezes, um homem de setenta anos, com sonhos frustrados de engenheiro, alcoólatra e profundamente honesto. Ele está tratando dos dentes de Clara, e Cassi pede-lhe que encomende um poema ao amalucado poeta Flores.

· Imagem de Castorina, esposa de Flores: a esposa é vista de forma condescendente pelo narrador, pelo fato de ser negra → narrativa tendenciosa.

· Flores fica indignado com o pedido de Menezes de um poema encomendado → Figura da Arte: inatingível conciliação entre a vida e a obra de arte

· O narrador defende claramente a igualdade de sexos, ao criticar a alienação feminina.

· Revelação de quem espalha o caderno sobre Cassi: oficial do exército, marido de Nair, filha da suicida.

· Menezes faz os versos ele mesmo e os entrega a Cassi. O conquistador pede-lhe que entregue os versos e uma carta a Clara, e oferece-lhe algum dinheiro: o narrador explicita como os indivíduos se rebaixam por força das circunstâncias (falta de dinheiro, convivência com tipos corruptos, falta de instrução corrompem Menezes).

· Menezes fica sendo o intermediário entre Cassi e Clara. Através de D.Margarida, amiga da família, Engrácia, mãe de Clara, toma conhecimento da “relação” entre os dois.

· Joaquim, estranhamente, não se opõe ao enlace de Clara com Cassi. Marramaque continua a criticar ferozmente Cassi, e esse trama seu assassinato.

· Marramaque é morto a pauladas e alçado a herói pelo narrador.

· Menezes, ao saber do assassinato, sente-se quase um cúmplice, pois este passara a Cassi as cartas em que Clara alertava-o da oposição de Marramaque à “união” dos dois.

· Cassi vende seus galos de briga e guarda o dinheiro para o caso de uma fuga

· Na cidade, Cassi encontra uma negra que havia sido sua primeira vítima, e fora expulsa da casa do sedutor, onde trabalhava, em adiantado estado de gravidez. Ela o humilha e revela que seu filho, com apenas dez anos, já se encontra detido (transcrição da fala popular nos diálogos).

· Clara analisa o próprio comportamento e amargura-se por ter se dado a Cassi e engravidado.

· Semi-demência de Menezes e sua morte ao lado do poeta Flores.

· Dr.Praxedes, um advogado simplório, revela eventualmente que Cassi mudara-se para São Paulo.

· D.Margarida, Engrácia e Clara vão falar com a mãe de Cassi, que as humilha.

· Ao final, acentua-se o caráter trágico da situação social vivida pela família de Clara. O narrador usa um tom moralista e cria um ambiente paranóico de perseguição contra os negros e mulatos, sempre vítimas do preconceito e da humilhação.

17 de novembro de 2007

Trechos selecionados de Jóias de família (Zulmira Ribeiro tavares)

Maria Bráulia Munhoz, no nono andar de seu apartamento no Itaim Bibi, prepara-se para o almoço. A mesa está posta para duas pessoas: ela e o sobrinho. A toalha sobre a mesa redonda, pequena, é de linho branco adamascado e no centro há um lago também redondo e pequeno, de espelho. Sobre a superfície de espelho pousa um cisne de Murano.

Maria Bráulia – de velhice definida mas idade não declarada, com movimentos seguros e rápidos, acompanhados de tapinhas, faz aderir ao rosto o seu segundo rosto, o “social”, de pele entre rosa e o marfim, boca e face rosadas. Os cílios com rímel espevitam o azul dos olhos e atiçam o amarelo pintado dos cabelos. Com o rosto social mais uma vez encenado, o outro, o estritamente particular, recua, como acontece todas as manhãs, e é esquecido imediatamente por sua dona. Um rosto que de tão pouco visto por terceiros adquire a mesma modéstia do corpo murcho, e assim, trazê-lo á luz do dia, sustentá-lo sobre o pescoço como se fosse a coisa mais natural do mundo ( o que vem aliás exatamente a ser), exibi-lo para algum outro, ainda que muito íntimo, como o sobrinho, lhe pareceria um ao da mais absoluta e indesculpável falta de pudor.

Julião Munhoz finalmente chama o elevador e logo mais se encontra pisando terra firme, o solo do Itaim-Bibi. Nove andares o separam do apartamento 91. longe está da pequena mesa redonda paralisada no ar, lá no alto; do cisne de Murano no centro, deslizando tão velozmente através dos muitos anos de fartura vividos por Maria Bráulia Munhoz, com o majestoso porte perfilando-se na superfície polida do lago de espelho, que nem parece sair do lugar. Longe está Maria Preta, que ora olha de baixo para cima, ora de cima para baixo, conforme as circunstâncias. Por isso seu rosto não se memoriza com facilidade e até nas fotografias dos álbuns da família Munhoz tem-se a dificuldade em fixá-lo (...).

As mentiras de Maria Bráulia, como as de todos bem-sucedidos e experimentados mentirosos, geralmente não são formadas de uma só peça, contêm vários elementos, e sob esse aspecto pode-se observar nelas alguma semelhança com os rubis falsos ou semi-falsos em montagens do tipo doublets e triplets.

(...) os que sofrem a ação da mentira, tanto quanto os que as inventam, mentem também para si mesmos e defendem-se dos efeitos devastadores da verdade inoculando em si próprios, regularmente, pequenas doses de ilusão.

Por que não usa a cópia, o anel com o rubi de imitação? Ah, bem, o anel de imitação nunca existira! Havia sido a maneira que o Munhoz arranjara para proteger uma gema tão rara. Acaso ela era mulher de andar com pedrinha de vidro colorido no dedo? Tinha graça! — E se com o correr dos anos a história sobre o anel de imitação falso caiu completamente no esquecimento, a existência de um anel verdadeiro com um puríssimo rubi sangue-de-pombo engastado, nunca. Tornou-se aos poucos uma gema lendária na crônica sobre as jóias da família.

As gemas raras devem ser engastadas nas jóias com o mesmo cuidado com que estas se engastam na linhagem de uma família, havia dito ainda o joalheiro Marcel para seus anfitriões um dia — quando jantavam apenas os três ao redor da pequena mesa redonda — olhando alternadamente do juiz Munhoz para o cisne de Murano.

É muito tarde. Várias cabeças rolaram. Umas fora da vida, outras nos travesseiros. Só a do cisne de Murano permanece erguida. A madrugada chega. As cortinas estão afastadas e de fora avança a luz branquicenta descendo na sala. Empresta ao cisne de Murano a qualidade macia do que é de carne e de penas ao mesmo tempo que lhe rouba a aparência de vida emprestada; tão descorado se acha quanto um frango de pescoço torcido sem pinga de sangue. Estarrece por afrontar as leias da natureza e os costumes dos homens. Um defuntinho de pé.

10 de novembro de 2007

trechos escolhidos de "Manuelzão"

O universo popular em Manuelzão

· Utilização de refrões, ditados, quadras, versos populares e da sabedoria do sertão mineiro

· Referência ao romanceiro de cordel: Romanço do Boi Bonito, Décima do Boi e do Cavalo

“E... era uma vez uma vaca Vitória: caiu no buraco — e começa outra estória... e era uma vez uma vaca Tereza: saiu do buraco — e a estória era a mesma...”

“Eh mundão! Quem me mata é deus, quem me come é o chão!”

“Alegria do pobre é um dia só: uma libra de carne e um mocotó.”

“Compadre, veja. Mais antes trabalhar domingo do que furtar segunda-feira. Mesmo digo. Aqui a gente olha a garapa ainda na cana.”

“— E a vida, seu Chico?, alguém pergunta, e ele responde: ‘— É isto que se sabe: é consolo, é desgosto, é desgosto, é consolo — é da casca, é do miolo.”

“Suspiro rompe parede/ rompe peito acautelado/ também rompe coração/ trancado e acadeado”

“Eu subi pro céu arriba/ Numa linha de pescar/ Fui perguntar Nossa Senhora/ se é pecado namorar”

“Travessei o São Francisco/ Montado numa cabaça/ Arriscando a minha vida/ Por um gole de cachaça”

“Esse boi que hei, é um Boi Bonito: muito branco ele é, fubá da alma do milho; do corvo o mais diferente, o mais perto do polvilho. Dos chifres, ele é pinheiro, quase nada torquesado. O berro é uma lindeza, o rasto bem encalçado. Nos verdes onde ele pasta, cantam muitos passarinhos. Das aguadas onde bebe, só se bebe com carinho. Muito bom vaqueiro é morto, por ter ele frenteado. Tantos que chegaram perto, tantos desaparecidos. Ele fica em pé e fala, melhor não se ter ouvido...”

ESTÓRIAS

“Festa devia de ser assim: o risonho termo e começo de tudo, a gente desmanchando tudo, até o feito com seu suor do trabalho de sempre; e sem precisar, depois de tornar a refazer. Que nem com as estórias contadas. Chegava na hora, a estória alumiava e se acabava. Saía por fim fundo, deixava um buraco.”

“As estórias — tinham amarugem e docice. A gente escutava, se esquecia de coisas que não sabia”.

“Mas, tinha lá alguma graça aquela estória de amor nessas gramas ressequidas, de um velhão no burro baio com uma bruaca assunga-a-roupa?”

“Até as mulheres choravam. Leonísia suavemente, Joana Xaviel de certo chorava. Essa estória ela não sabia, e nunca tinha escutado. Essa estória ela não contava. O Velho Camilo que amava. Estória !”

Epígrafe:

“O tear

o tear

o tear

o tear

quando pega a tecer

vai até o amanhecer

quando pega

a tecer

vai até ao

amanhecer...”

(Batuque dos Gerais)

2 de junho de 2007

Os melhores poemas de Alphonsus de Guimaraens

Os melhores poemas de Alphonsus de Guimaraens

Prof.Aloisio

Simbolismo (final do século XIX)

  1. estética baseada no subjetivo, no pessoal, na sugestão e no vago, no misteriosos e ilógico, na expressão indireta e simbólica
  2. o artista não deve dar nome ao objeto, nem mostrá-lo diretamente, mas sugeri-lo, evocá-lo pouco a pouco (Mallarmé)
  3. a arte como fonte de fortes experiências emocionais e como revelação do mistério do mundo
  4. poesia de sugestões e musicalidade, correspondências e inter-relações de sentidos
  5. o simbolismo é o resultado final de um desenvolvimento que se iniciou com o romantismo, com a descoberta da metáfora como a base da poesia e da exploração da psique humana
  6. mas o simbolismo repele o romantismo devido ao seu excesso de sentimentalismo, por isso volta-se para a exploração das imagens subconscientes e inconscientes
  7. poesia simbolista : surge do espírito irracional, oposta a toda interpretação lógica; correspondências criadas entre o concreto e o abstrato, o material e o ideal
  8. poesia voltada para o eu: o que importa são os estados da alma do poeta, por isso há atitudes anti-racionais e místicas, o tom idealista e religioso, a tendência ao isolamento = exploração do inconsciente através dos símbolos e das sugestões para compreender a vida através da intuição e do irracional
  9. as palavras poéticas transforma-se em símbolos de vivências místicas e sensoriais indizíveis, intraduzíveis, mas passíveis de ser evocadas e sugeridas por meio de metáforas, analogias e sinestesias
  10. aproveitamento de elementos musicais, tonais e rítmicos, e da cor (sinestesias)
  11. utilização de letras maiúsculas em substantivos comuns, para torná-los absolutos
  12. as manifestações metafísicas espirituais da poesia simbolista correspondem à negação da objetividade e do excesso de racionalismo do realismo

· atitude religiosa do simbolismo :

1. ênfase no mundo da beleza ideal

2. aproveitamento da liturgia — o conjunto dos elementos e práticas do culto religioso (missa, orações, cerimônias, sacramentos, objetos de culto) instituídos por uma Igreja ou seita religiosa

3. a prática da poesia simbolista assemelha-se ao estado de êxtase, contemplação e da oração

4. concepção mística da vida: conteúdo relacionado com o espiritual, o místico, o subconsciente

Na historiografia da literatura brasileira, o simbolismo ficou abafado pelo parnasianismo, que era plenamente aceito pela Academia, por se adequar à estética do realismo. Posteriormente, ele será aceito e a importância de Cruz e Alphonsus de Guimarães será legitimada.

A poesia simbolista de Alphonsus de Guimaraens (1870-1921)

A poesia, segundo o autor, tem a missão de conduzir-nos ao sublime

· Insistência nos mesmos temas do amor e da morte durante toda sua obra

· As cores funéreas (preto e roxo) não são mero artifício, e, sim, uma condição existencial básica

· A fé católica é também decorrente de seu ambiente vital: as cidades mineiras barrocas

· O amor e a morte aparecem como o único meio de se atingir a sublimação e de aproximar o poeta de Constança, a amada noiva, morta às vésperas do seu casamento, que lhe influenciará toda a produção poética

· Sublimação do sentimento amoroso na figura da Virgem Maria

· Constância constitui o fio condutor das visões oníricas, do tom elegíaco, das imagens ancestrais, individuais e coletivas, que perpassam toda a obra do poeta

Biograficamente, um episódio importante para entender sua poesia é a perda da amada Constança, filha de Bernardo Guimarães. Alphonsus nunca se conforma com a morte da jovem, que o separa, a ele que tinha a propensão para a mitificação, definitivamente do tempo atual. A partir deste episódio, tão traumático, o poeta se volta para o passado, que é o tempo de uma felicidade agora impossível. Sua vida transcorrerá sob o signo da morte e seus poemas serão um “evangelho do aqui-jaz”. A amada está na própria santa do altar, tão pálidas as faces das duas.

E é no centro do altar poético erguido por Alphonsus que esta mulher se encontra. A sua cor branca tem conexão com a lua – outra imagem recorrente em seus poemas. A luz lunar é fria, distante, solitária na noite. O poeta descobre nela a imagem da amada ausente e presente, bem de acordo com esta concepção fantasmagórica da existência. A lua também está relacionada à memória. Ela funciona como ponto de contato entre o ontem e o hoje, e mitiga a solidão e a saudade daqueles que se sentem presos a uma outra era. Um sentimento forte que percorre a poesia de Alphonsus de Guimaraens é o da necessidade de cultuar os mortos, de tirar-lhes do esquecimento. Assim, a lua é mais do que uma imagem que comparece em seus textos noturnos, é a própria essência do ato poético, por ser um símbolo da memória reunificadora. (http://www.revista.agulha.nom.br/msanches021.html)

· Além da morte, há um profundo interesse pelo noturno e pelo mistério da existência

· Retratação do tema da loucura, aproximando-a dos estados sublimes da vida

· Criação de uma atmosfera mística e litúrgica, em que abundam referências ao corpo morto, ao esquife, às orações, às cores roxa e negra, e ao sepultamento

· Símbolos fúnebres: pó, cal, cova, jazigo funeral

· Lua: aura, neve, luz, palidez, branco, sol, rosa branca, lírios

· Tentação(desejo) X Salvação (devoção) :

1. lábios vermelhos; olhar, beijo

X

2. oração, cruz, igreja, santos, altar, anjos, salmos, Jesus messiânico, hinos , céu; devoção a Santa Teresa de Jesus; escapulário, rosário, coroa

Principais poemas

A Catedral

Entre brumas ao longe surge a aurora,
O hialino orvalho aos poucos se evapora,
Agoniza o arrebol.
A catedral ebúrnea do meu sonho
Aparece na paz do céu risonho
Toda branca de sol.

E o sino canta em lúgubres responsos:
"Pobre Alphonsus! Pobre Alphonsus!"

O astro glorioso segue a eterna estrada.
Uma aurea seta lhe cintila em cada
Refulgente
raio de luz.
A catedral eburnea do meu sonho,
Onde os meus olhos tao cansados ponho,
Recebe a bencao de Jesus.

E o sino clama em lugebres responsos:
"Pobre Alphonsus! Pobre Alphonsus!"

Por entre lirios e lilases desce
A tarde esquiva: amargurada prece
Poe-se a luz a rezar.
A catedral eburnea do meu sonho
Aparece na paz do ceu tristonho
Toda branca de luar.

E o sino chora em lúgubres responsos:
"Pobre Alphonsus! Pobre Alphonsus!"

O céu e todo trevas: o vento uiva.
Do relâmpago a cabeleira ruiva
Vem acoitar o rosto meu.
A catedral ebúrnea do meu sonho
Afunda-se no caos do céu medonho
Como um astro que já morreu.

E o sino chora em lúgubres responsos:
"Pobre Alphonsus! Pobre Alphonsus!"

(http://www.revista.agulha.nom.br/msanches021.html)

O sino e seus badalos, presenças tão fortes nas cidades mineiras, levam a alma a um transe religioso, abolindo com seus sons a vida imediata.

Sendo um mecanismo cronológico, ele marca um tempo místico, cíclico, que se repete infinitamente. Alphonsus de Guimaraens explora este tema em “A catedral”, um de seus mais belos poemas, onde a mudança da paisagem vai sendo acompanhada pelas ressonâncias do sino, que se intensificam com o passar das horas, embora o refrão continue o mesmo. O poema é composto em quatro tempos: manhã, meio-dia, tarde e noite. Primeiro o sino canta, depois clama, chora e por fim geme a sua mensagem monótona, mas esta mudança se dá no receptor, comovido com a chegada da noite:E o sino geme em lúgubres responsos:

“Pobre Alphonsus! Pobre Alphonsus!” Há aqui um estribilho tão significativo quanto o do famoso poema “O corvo”, de Edgar Allan Poe, em que este animal responde às inquietações do poeta com a invariável frase “Nunca mais”, liquidando as ilusões humanas. Ao repetir o seu “Pobre Alphonsus!”, o sino está dizendo a mesma coisa, dirigindo-se a um interlocutor definido. É o declínio da condição humana visto na unidade de um dia.

Ismália

Quando Ismália enlouqueceu,
Pôs-se na torre a sonhar...
Viu uma lua no céu,
Viu outra lua no mar.

No sonho em que se perdeu,
Banhou-se toda em luar...
Queria subir ao céu,
Queria descer ao mar...

E, no desvario seu,
Na torre pôs-se a cantar...
Estava perto do céu,
Estava longe do mar...

E como um anjo pendeu
As asas para voar...
Queria a lua do céu,
Queria a lua do mar...

As asas que Deus lhe deu
Ruflaram de par em par...
Sua alma subiu ao céu,
Seu corpo desceu ao mar...

(http://www.revista.agulha.nom.br/msanches021.html)

A sua verdadeira cidade não está na terra, mas na geografia mítica dos símbolos siderais, continente das coisas eternas. É lá que o poeta quer residir e, nesse sentido, ele se considera um lunático. Toda a sua poesia está construída sobre esta consciência dolorosa da cisão, que só é anulada tragicamente. Este o drama de Ismália, que queria duas luas, sem saber que uma era apenas miragem. Fica aí representado o drama íntimo do próprio poeta, que se sente duplamente atraído por dois elementos distintos, numa equação que só pode ser resolvida com a morte, quando a parte terrena do ser libera a alma para seguir ao encontro desta cidade celeste.

Hão de Chorar por Ela os Cinamomos...

Hão de chorar por ela os cinamomos,
Murchando as flores ao tombar do dia.
Dos laranjais hão de cair os pomos,
Lembrando-se daquela que os colhia.

As estrelas dirão — "Ai! nada somos,
Pois ela se morreu silente e fria.. . "
E pondo os olhos nela como pomos,
Hão de chorar a irmã que lhes sorria.

A lua, que lhe foi mãe carinhosa,
Que a viu nascer e amar, há de envolvê-la
Entre lírios e pétalas de rosa.

Os meus sonhos de amor serão defuntos...
E os arcanjos dirão no azul ao vê-la,
Pensando em mim: — "Por que não vieram juntos?"

Trechos selecionados de O VENDEDOR DE PASSADOS (José Eduardo Agualusa)

O vendedor de passados (José Eduardo Agualusa)

1) Trecho da música “Acalanto para um rio”

Nada passa, nada expira

O passado é

Um rio que dorme

E a memória uma mentira

Multiforme

2) Sobre a Velha Esperança:

“Na minha opinião, é a coluna que sustenta essa casa” → ANGOLA

Félix ventura:

“Está cheio de vozes o meu barco.”

“Um barco (cheio de vozes) subindo o rio.”

3) Crítica à nova burguesia angolana:

“Falta a essas pessoas um bom passado, ancestrais ilustres, pergaminhos. Resumindo: um nome que ressoe a nobreza e a cultura.”

4) José Buchmann (Pedro Gouveia)

“Dói-me na alma um excesso de passado e de vazio.”

5) Osga

“Os meus sonhos são quase sempre mais verossímeis que a realidade.”

“Félix fala de sua infância como se realmente a tivesse vivido.”

6) Sobre o ofício de Felix Ventura

“Acho que aquilo que faço é uma forma avançada de literatura. (...) Também eu crio enredos, invento personagens, mas em vez de os deixar presos dentro de um livro dou-lhes vida, atiro-os pra realidade.”

“Crio enredos por ofício. Enfabulo tanto, ao longo do dia, e com tal entusiasmo, que por vezes chego à noite perdido no labirinto de minhas próprias fantasias.”

7) Memória

“A nossa memória alimenta-se, em larga medida, daquilo que os outros recordam de nós. Tendemos a recordar como sendo nossas as recordações alheias — inclusive as fictícias.”

“A memória é uma paisagem contemplada de um comboio em movimento.”

18 de maio de 2007

Nove noites_Bernardo Carvalho : roteiro de leitura

Nove Noites (Bernardo Carvalho)

  • “Isso é para quando você vier. É preciso estar preparado. Alguém terá que preveni-lo.Vai entrar numa terra em que a verdade e a mentira não têm mais os mesmos sentidos que o trouxeram até aqui”. (relato de Manoel Perna)
  • Ao início, já há a idéia do segredo como única herança, antevendo o final da narrativa.
  • “As histórias dependem antes de tudo da confiança de quem as ouve, e da capacidade de interpretá-las”.(Relato de Manoel Perna)
  • O relato inventado do engenheiro sobre uma suposta última carta deixada por Buell Quain a um suposto conhecedor dos verdadeiros motivos do suicídio.

A tentativa do autor de buscar a verdade, inventando-a. A ficção como a busca da verdade.

· Sete cartas visando deixar o mundo em ordem: para a orientadora Ruth Benedict; D.Heloisa Alberto Torres, diretora do Museu Nacional; Manoel Perna, engenheiro de Carolina; Capitão Ângelo Sampaio, delegado; Dr. Eric P. Quain, seu pai; reverendo Thomas Young, missionário instalado em Mato Grosso; ao cunhado Charles Kaiser.

· Relato jornalístico sobre vida e obra de Quain e sua família (dados precisos e esmiuçados)

· Início de suposições por parte do jornalista: estranha ansiedade nas cartas da mãe de Quain à diretora do museu

· Carta de Quain a D.Heloisa, sobre sua suposta infecção

· Segundo os índios que acompanhavam o etnólogo, não havia traços de doença física; antes, a protração era psicológica, desde que recebera a última carta de casa

· O autor incita o mistério da morte através de evidências curiosas, que dificilmente serão comprovadas

· Com base nas apurações jornalísticas, ficcionais ou não, o autor vai tecendo o relato de Perna sobre Quain.

Impressões sobre Buell

1. Para Perna, um sujeito aflito, transtornado, enigmático

2. Para o autor, segundo depoimentos e cartas, um sujeito que não gostava de mostrar o quão rico era, isolado, idealista, solitário, fechado

  • “Isso é para quando você vier”(Perna) / “Ninguém nunca me perguntou, e por isso também não precisei responder” (autor)

Identificação do autor com engenheiro lhe permite construir relato fictício

  • Até que ponto Quain conseguiu relativizar sua visão dos Trumai? (não gosta do contato físico com os índios, acha-os feios, critica seus costumes, desrespeita-os)
  • Mas Quain se identifica com os índios negros da ilha do Pacífico Sul, o que é um paradoxo: segundo relato de Perna, ele encontrou na cultura dos trumai a representação coletiva do desespero que vivia (auto-destruição)
    1. Identificação:Nos aproximamos das pessoas que gostaríamos que fossem como nós e daquelas como as quais gostaríamos de ser
  • Metalinguagem: “As minhas explicações sobre o romance eram inúteis. Eu tentava dizer que, para os brancos que não acreditam em deuses, a ficção servia de mitologia, era o equivalente dos mitos dos índios, e antes mesmo de terminar a frase, já não sabia se o idiota era ele ou eu”.
  • A metalinguagem é fundamental no livro pois os percalços da pesquisa precisam ser evidenciados para dar veracidade à ficcionalidade = verossimilhança
  • Citação de Drummond: cada um aplica o sentido dos versos a sua própria experiência acumulada
  • Segundo Perna, Buell não se conformava com sua expressão, na foto, de espanto diante do desconhecido
  • Perna: para Quain, “ a morte é um excesso que se anula” (saturação, desespero)
  • A investigação, ao estilo romance policial, para descobrir se o moribundo ao lado de seu pai no hospital seria o fotógrafo e amante da mulher de Buell.
  • A deliberação de escrever uma história ficcional e o medo de que a verdade viesse à tona depois do romance publicado.
  • O filho do fotógrafo em NY: a revelação de que seu verdadeiro pai teria morrido no coração do Brasil quando tentava voltar para conhecê-lo, segundo carta do fotógrafo.
  • Sua mãe seria a amante dos dois? A carta seria forjada? Estaria o fotógrafo livrando-se de uma responsabilidade?
  • A história de Quain está sujeita, como qualquer outra, a fatos ligados à memória, percepção seletiva e subjetividade. Portanto, ocorre uma reinterpretação, reinvenção.

O que está em jogo em Nove Noites:

    1. contínuo mistério
    2. vazio de respostas relacionadas ao isolamento
    3. busca de identidade
    4. desajustes sociais
    5. instabilidade psíquica
    6. motivos que levam um indivíduo ao suicídio










ps: “Há muitos modos de afirmar; há um só de negar tudo” (Machado de Assis)

3 de março de 2007

2 de dezembro de 2006

Trechos selecionados de Dom Casmurro (Machado de Assis)_Complemento à aula

Dom Casmurro (Machado de Assis)

CAPÍTULO PRIMEIRO / DO TÍTULO
Não consultes dicionários. Casmurro não está aqui no sentido que eles lhe dão, mas no que lhe pôs o vulgo de homem calado e metido consigo. Dom veio por ironia, para atribuir-me fumos de fidalgo. Tudo por estar cochilando! Também não achei melhor título para a minha narração - se não tiver outro daqui até ao fim do livro, vai este mesmo. O meu poeta do trem ficará sabendo que não lhe guardo rancor. E com pequeno esforço, sendo o título seu, poderá cuidar que a obra é sua. Há livros que apenas terão isso dos seus autores; alguns nem tanto.
CAPÍTULO X / ACEITO A TEORIA
Que é demasiada metafísica para um só tenor, não há dúvida; mas a perda da voz explica tudo, e há filósofos que são, em resumo, tenores desempregados.
Eu, leitor amigo, aceito a teoria do meu velho Marcolini, não só pela verossimilhança, que é muita vez toda a verdade, mas porque a minha vida se casa bem à definição. Cantei um duo terníssimo, depois um trio, depois um quatuor... Mas não adiantemos; vamos à primeira parte, em que eu vim a saber que já cantava, porque a denúncia de José Dias, meu caro leitor, foi dada principalmente a mim. A mim é que ele me denunciou.



CAPÍTULO XVIII / UM PLANO
Como vês, Capitu, aos quatorze anos, tinha já idéias atrevidas, muito menos que outras que lhe vieram depois; mas eram só atrevidas em si, na prática faziam-se hábeis, sinuosas, surdas, e alcançavam o fim proposto, não de salto, mas aos saltinhos.


CAPÍTULO XXXII / OLHOS DE RESSACA
Tinha-me lembrado a definição que José Dias dera deles, "olhos de cigana oblíqua e dissimulada." Eu não sabia o que era obliqua, mas dissimulada sabia, e queria ver se podiam chamar assim. Capitu deixou-se fitar e examinar. Só me perguntava o que era, se nunca os vira, eu nada achei extraordinário; a cor e a doçura eram minhas conhecidas. A demora da contemplação creio que lhe deu outra idéia do meu intento; imaginou que era um pretexto para mirá-los mais de perto, com os meus olhos longos, constantes, enfiados neles, e a isto atribuo que entrassem a ficar crescidos, crescidos e sombrios, com tal expressão que...
Retórica dos namorados, dá-me uma comparação exata e poética para dizer o que foram aqueles olhos de Capitu. Não me acode imagem capaz de dizer, sem quebra da dignidade do estilo, o que eles foram e me fizeram. Olhos de ressaca? Vá, de ressaca. É o que me dá idéia daquela feição nova. Traziam não sei que fluido misterioso e enérgico, uma força que arrastava para dentro, como a vaga que se retira da praia, nos dias de ressaca. Para não ser arrastado, agarrei-me às outras partes vizinhas, às orelhas, aos braços, aos cabelos espalhados pelos ombros, mas tão depressa buscava as pupilas, a onda que saía delas vinha crescendo, cava e escura, ameaçando envolver-me, puxar-me e tragar-me.


CAPÍTULO LVI / UM SEMINARISTA
Eis aqui outro seminarista. Chamava-se Ezequiel de Sousa Escobar era um rapaz esbelto, olhos claros, um pouco fugitivos, como as mãos, como os pés, como a fala, como tudo. Quem não estivesse acostumado com ele podia acaso sentir-se mal, não sabendo por onde lhe pegasse. Não fitava de rosto, não falava claro nem seguido as mãos não apertavam as outras, nem se deixavam apertar delas, por que os dedos, sendo delgados e curtos, quando a gente cuidava tê-los entre os seus, já não tinha nada. (...) Quando ele entrou na minha intimidade pedia-me freqüentemente explicações e repetições miúdas, e tinha memória para guardá-las todas, até as palavras. Talvez esta faculdade prejudicasse alguma outra.


CAPÍTULO LIX / CONVIVAS DE BOA MEMÓRIA
Não, não, a minha memória não é boa. Ao contrário, é comparável a alguém que tivesse vivido por hospedarias, sem guardar delas nem caras nem nomes, e somente raras circunstancias. A quem passe a vida na mesma casa de família, com os seus eternos móveis e costumes, pessoas e afeições, é que se lhe grava tudo pela continuidade e repetição. Como eu invejo os que não esqueceram a cor das primeiras calças que vestiram! Eu não atino com a das que enfiei ontem Juro só que não eram amarelas porque execro essa cor; mas isso mesmo pode ser olvido e confusão.
E antes seja olvido que confusão; explico-me. Nada se emenda bem nos livros confusos, mas tudo se pode meter nos livros omissos. Eu, quando leio algum desta outra casta, não me aflijo nunca. O que faço, em chegando ao fim, é cerrar os olhos e evocar todas as cousas que não achei nele. Quantas idéias finas me acodem então! Que de reflexões profundas! Os rios, as montanhas, as igrejas que não vi nas folhas lidas, todos me aparecem agora com as suas águas, as suas árvores, os seus altares, e os generais sacam das espadas que tinham ficado na bainha, e os clarins soltam as notas que dormiam no metal, e tudo marcha com uma alma imprevista que tudo se acha fora de um livro falho, leitor amigo. Assim preencho as lacunas alheias; assim podes também preencher as minhas.


CAPÍTULO LXV / A DISSIMULAÇÃO
(...)minha mãe, dizendo tio Cosme que ainda queria ver com que mão havia eu de abençoar o povo à missa, contou que, dias antes, estando a falar de moças que se casam cedo, Capitu lhe dissera: "Pois a mim quem me há de casar há de ser o padre Bentinho, eu espero que ele se ordene!" Tio Cosme riu da graça, José Dias não dessorriu, só prima Justina é que franziu a testa, e olhou para mim interrogativamente. Eu, que havia olhado para todos, não pude resistir ao gesto da prima, e tratei de comer. Mas comi mal, estava tão contente com aquela grande dissimulação de Capitu que não vi mais nada, e, logo que almocei, corri a referir-lhe a conversa e a louvar-lhe a astúcia. Capitu sorriu de agradecida.
—Você tem razão, Capitu, concluí eu; vamos enganar toda esta gente.
—Não é? disse ela com ingenuidade.


CAPÍTULO LXXV / O DESESPERO
Escapei ao agregado, escapei a minha mãe não indo ao quarto dela, mas não escapei a mim mesmo. Corri ao meu quarto, e entrei atrás de mim. Eu falava-me, eu perseguia-me, eu atirava-me à cama, e rolava comigo, e chorava, e abafava os soluços com a ponta do lençol. Jurei não ir ver Capitu aquela tarde, nem nunca mais, e fazer-me padre de uma vez. Via-me já ordenado, diante dela, que choraria de arrependimento e me pediria perdão, mas eu, frio e sereno, não teria mais que desprezo, muito desprezo; voltava-lhe as costas. Chamava-lhe perversa. Duas vezes dei por mim mordendo os dentes, como se a tivesse entre eles.
Da cama ouvi a voz dela, que viera passar o resto da tarde com minha mãe, e naturalmente comigo, como das outras vezes; mas, por maior que fosse o abalo que me deu, não me fez sair do quarto e Capitu ria alto, falava alto, como se me avisasse; eu continuei surdo, a sós comigo e o meu desprezo. A vontade que me dava era cravar-lhe as unhas no pescoço, enterrá-las bem, até ver-lhe sair a vida com o sangue...



CAPÍTULO XCVIII / CINCO ANOS
A separação não nos esfriou. Ele [Escobar] foi o terceiro na troca das cartas entre mim e Capitu. Desde que a viu animou-me muito no nosso amor. As relações que travou com o pai de Sancha estreitaram as que já trazia com Capitu, e fê-lo servir a ambos nós, como amigo. A princípio, custou-lhe a ela aceitá-lo, preferia José Dias, mas José Dias repugnava-me por um resto de respeito de criança. Venceu Escobar posto que vexada, Capitu entregou-lhe a primeira carta, que foi mãe e avó das outras. Nem depois de casado suspendeu ele o obséquio... Que ele casou,—adivinha com quem,—casou com a boa Sancha a amiga de Capitu, quase irmã dela, tanto que alguma vez, escrevendo-me, chamava a esta a "sua cunhadinha." Assim se formam as afeições e os parentescos, as aventuras e os livros


CAPÍTULO CXVIII / A MÃO DE SANCHA
Quando saímos, tornei a falar com os olhos à dona da casa. A mão dela apertou muito a minha, e demorou-se mais que de costume.(...) Senti ainda os dedos de Sancha entre os meus, apertando uns aos outros. Foi um instante de vertigem e de pecado. Passou depressa no relógio do tempo; quando cheguei o relógio ao ouvido, trabalhavam só os minutos da virtude e da razão.
O retrato de Escobar, que eu tinha ali, ao pé do de minha mãe, falou-me como se fosse a própria pessoa. Combati sinceramente os impulsos que trazia do Flamengo, rejeitei a figura da mulher do meu amigo, e chamei-me desleal. Demais, quem me afirmava que houvesse alguma intenção daquela espécie no gesto da despedida e nos anteriores? Tudo podia ligar-se ao interesse da nossa viagem. Sancha e Capitu eram tão amigas que seria um prazer mais para elas irem juntas. Quando houvesse alguma intenção sexual, quem me provaria que não era mais que uma sensação fulgurante, destinada a morrer com a noite e o sono? Há remorsos que não nascem de outro pecado, nem têm maior duração. Agarrei-me a esta hipótese que se conciliava com a mão de Sancha, que eu sentia de memória dentro da minha mão, quente e demorada, apertada e apertando...


CAPÍTULO CXXIII / OLHOS DE RESSACA
As minhas [lágrimas] cessaram logo. Fiquei a ver as dela; Capitu enxugou-as depressa, olhando a furto para a gente que estava na sala. Redobrou de carícias para a amiga, e quis levá-la; mas o cadáver parece que a retinha também. Momento houve em que os olhos de Capitu fitaram o defunto, quais os da viúva, sem o pranto nem palavras desta, mas grandes e abertos, como a vaga do mar lá fora, como se quisesse tragar também o nadador da manhã.


CAPÍTULO CXLV / O REGRESSO
Não fui logo, logo; fi-lo esperar uns dez ou quinze minutos na sala. Só depois é que me lembrou que cumpria ter certo alvoroço e correr, abraçá-lo, falar-lhe na mãe. A mãe,—creio que ainda não disse que estava morta e enterrada. Estava; lá repousa na velha Suíça. Acabei de vestir-me às pressas. Quando saí do quarto tomei ares de pai, um pai entre manso e crespo, metade Dom Casmurro. Ao entrar na sala, dei com um rapaz, de costas, mirando o busto de Massinissa, pintado na parede. Vim cauteloso, e não fiz rumor. Não obstante, ouviu-me os passos, e voltou-se depressa. Conheceu-me pelos retratos e correu para mim. Não me mexi; era nem mas nem menos o meu antigo c jovem companheiro do seminário de José, um pouco mais baixo, menos cheio de corpo e, salvo as cores que eram vivas, o mesmo rosto do meu amigo. Trajava à moderna naturalmente, e as maneiras eram diferentes, mas o aspecto geral reproduzia a pessoa morta. Era o próprio, o exato, o verdadeiro Escobar. Era o meu comborço; era o filho de seu pai. Vestia de luto pela mãe; eu também estava de preto. Sentamo-nos.
—Papai não faz diferença dos últimos retratos, disse-me ele
A voz era a mesma de Escobar, o sotaque era afrancesado. Expliquei-lhe que realmente pouco diferia do que era, e comecei um interrogatório para ter menos que falar e dominar assim a minha emoção. Mas isto mesmo dava animação à cara dele, e o meu colega do seminário ia ressurgindo cada vez mais do cemitério. Ei-lo aqui. diante de mim, com igual riso e maior respeito; total, o mesmo obséquio e a mesma graça. Ansiava por ver-me. A mãe falava muito em mim, louvando-me extraordinariamente, como o homem mais puro do mundo, o mais digno de ser querido.
— Morreu bonita, concluiu.
—Vamos almoçar.
(...) Ao cabo de seis meses, Ezequiel falou-me em uma viagem à Grécia, ao Egito, e à Palestina, viagem científica, promessa feita a alguns amigos.
—De que sexo? perguntei rindo.
Sorria vexado, e respondeu-me que as mulheres eram criaturas tão da moda e do dia que nunca haviam de entender uma ruína de trinta séculos. Eram dous colegas da universidade. Prometi-lhe recursos, e dei-lhe logo os primeiros dinheiros precisos. Como disse que uma das conseqüências dos amores furtivos do pai era pagar eu as arqueologias do filho; antes lhe pagasse a lepra... Quando esta idéia me atravessou o cérebro, senti-me tão cruel e perverso que peguei no rapaz e quis apertá-lo ao coração, mas recuei; encarei-o depois, como se faz a um filho de verdade; os olhos que ele me deitou foram ternos e agradecidos.


CAPÍTULO CXLVI / NÃO HOUVE LEPRA
Não houve lepra, mas há febres por todas essas terras humanas, sejam velhas ou novas. Onze meses depois, Ezequiel morreu de uma febre tifóide, e foi enterrado nas imediações de Jerusalém, onde os dous amigos da universidade lhe levantaram um túmulo com esta inscrição, tirada do profeta Ezequiel, em grego: "Tu eras perfeito nos teus caminhos." Mandaram-me ambos os textos, grego e latino, o desenho da sepultura, a conta das despesas e o resto do dinheiro que ele levava; pagaria o triplo para não tornar a vê-lo.
Como quisesse verificar o texto, consultei a minha Vulgata, achei que era exato, mas tinha ainda um complemento: "Tu eras perfeito nos teus caminhos, desde o dia da tua criação." Parei e perguntei calado: "Quando seria o dia da criação de Ezequiel?" Ninguém me respondeu. Eis aí mais um mistério para ajuntar aos tantos deste mundo. Apesar de tudo, jantei bem e fui ao teatro.


CAPÍTULO CXLVIII / E BEM, E O RESTO?
Agora , por que é que nenhuma dessas caprichosas me fez esquecer a primeira amada do meu coração? Talvez porque nenhuma tinha os olhos de ressaca, nem os de cigana oblíqua e dissimulada. Mas não é este propriamente o resto do livro. O resto é saber se a Capitu da Praia da Glória já estava dentro da de Mata-cavalos, ou se esta foi mudada naquela por efeito de algum caso incidente. Jesus, filho de Sirach, se soubesse dos meus primeiros ciúmes, dir-me-ia, como no seu cap. IX, vers. 1: "Não tenhas ciúmes de tua mulher para que ela não se meta a enganar-te com a malícia que aprender de ti". Mas eu creio que não, e tu concordarás comigo; se te lembras bem da Capitu menina, hás de reconhecer que uma estava dentro da outra, como a fruta dentro da casca.
E bem, qualquer que seja a solução, uma cousa fica, e é a suma das sumas, ou o resto dos restos, a saber, que a minha primeira amiga e o meu maior amigo, tão extremosos ambos e tão queridos também, quis o destino que acabassem juntando-se e enganando-me... A terra lhes seja leve! Vamos à "História dos Subúrbios.