Manuel Bandeira - O habitante de Pasárgada
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Em breve, informações sobre a Salinha de Literatura (PROSA) para a 2ª ETAPA da UFMG 2011.
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_Aloisio
_A alma encantadora das ruas (João do Rio)
O CRONISTA QUE ENFEITA A MISÉRIA
João do Rio é o autor transeunte, que faz da observação a base de seu ofício, para refletir sobre a história e a cultura, sobre os padrões de sociabilidade e o início da modernidade brasileira. Ao fazer espécies de closes fotográficos das ruas com seus textos, sonda as formas de vida inusitadas instauradas pelo estado de decadência da população pobre, no Rio de Janeiro, em meio à modernização da vida urbana.
Os leitores de João do Rio tinham que se sentir impactados por esses modos de vida marginais, como os de ciganos, trapeiros, catadores de selo, mendigos, prostitutas, catraieiros, ambulantes e vendedores de livros baratos, por exemplo. Para tanto, João do Rio se valia de um estilo “art noveau” de escrita, segundo enfatiza o crítico José Paulo Paes. É a arte nova da belle époque, o estilo enfeitado e ornamental que chega ao Brasil através de revistas e artigos manufaturados importados, no início do século XX. João do Rio tinha um refinamento mundano, escrevia crônicas sociais e preocupava-se em vestir-se elegantemente, como um típico dândi. Assim, seu estilo literário também será enfeitado, rebuscado, com gosto pela ornamentação vocabular e pelas comparações metafóricas. Porém, ao invés de tratar do luxo, em A alma encantadora das ruas, trata do que a elite aburguesada ignora: da população marginalizada.
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_Aloisio
_São Bernardo (Graciliano Ramos)
VIOLÊNCIA
Segundo o crítico Antônio Cândido, há dois tipos de violência no romance São Bernardo. A violência contra homens e o mundo, que resulta na conquista da fazenda — o próprio Paulo Honório diz que seu maior fito na vida era se apossar das terras de São Bernardo —, e a contra ele próprio, que resulta no livro. A violência é o suporte de seu modo de ser, e seu desejo de propriedade a legitima e justifica o extermínio sumário de vizinhos incômodos, como o Mendonça, a corrupção de jornalistas, como o Costa Brito, e a brutalização dos funcionários, como o Marciano.
A aquisição de São Bernardo aparentemente concretiza sua vitória sobre os obstáculos da origem humilde e do passado de subordinação, que são superados ou esmagados. Mas a violência voltada para dentro de si, motivada pelo ciúme que sente por Madalena, causa sua autodestruição, quando finalmente percebe a vacuidade de suas realizações materiais. Paulo sente uma necessidade nova, escrever, e dela surge uma nova construção: o livro que conta a sua derrota, através do qual terá uma visão ordenada de si e de suas atitudes.
No momento em que se conhece pela narrativa, destrói-se enquanto homem de propriedade. A narrativa é violenta para ele mesmo porque é obrigado a encarar a sua incapacidade de mudar tanto o destino de Madalena quanto o seu. Sabe que se voltasse atrás, agiria da mesma forma, o que transforma ambas as personagens em um casal trágico: o fim deles dois é imutável. Madalena está destinada ao fracasso, por não conseguir mudar as estruturas sociais da fazenda, Paulo, à solidão e ao vazio existencial, já que possuir São Bernardo não tem o mesmo valor de antes.
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_São Bernardo (Graciliano Ramos)
AS MÃOS E O CIÚME DE PAULO HONÓRIO
O sentimento de propriedade despersonaliza o narrador-personagem e o faz ver-se constantemente como um monstro. Seu ciúme doentio advém do fato de não conseguir se apossar de Madalena, como fazia com todos ao seu redor. A esposa era insubmissa e tinha um espírito solidário, ao contrário do egoísta Paulo Honório. Por se sentir incapaz de dominar a esposa, e por crer que enquanto constrói seu capital, ela o destrói e o dissipa, ao ajudar os funcionários e pedir dinheiro para a escola, acusa-a de ser intelectual, de não crer em Deus e de ser comunista.
Pouco importa a verdade em relação a Madalena, já que o leitor se encontra junto aos pensamentos do narrador, e não dos da esposa. Por isso, é necessário pensar no que teria motivado tais reflexões de Paulo. Madalena era considerada por ele como intelectual porque tinha poder de argumentação; deveria não ter religião, já que era uma mulher livre e libertária; comunista, pois não se preocupava em juntar capital, como ele próprio fazia. O ciúme é, então, decorrente de sua fragilidade íntima, pois teria que subjugar a mulher de alguma maneira. Acusando-a de traição, iria se livrar do peso de ter de admitir que nunca a dominaria.
Mas a doença do ciúme o faz enxergar-se como uma criatura animalesca. Sempre quando se refere a si, fala de seu aspecto rude, das sobrancelhas espessas, da pele queimada de sol, das mãos calejadas e grossas, feito cascos de cavalo. Já Madalena tem as mãos finas, delicadas, cabelos loiros, olhos azuis, é quase uma figura angelical. O contraste físico aponta para as diferenças psicológicas entre os dois, e denota como Paulo projeta para sua aparência os tormentos que sente por saber-se responsável pelo suicídio de Madalena.
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_São Bernardo (Graciliano Ramos)
FAZENDA SÃO BERNARDO
Para se tornar proprietário e patrão, Paulo Honório luta com as armas que a própria sociedade capitalista lhe deu: o individualismo e a necessidade de acumulação de capital. Como é incapaz de estabelecer relações afetivas, já que todas suas relações com o outro são mediadas pela lógica do lucro, imprime em si a marca maior do meio em que cresceu e viveu, a desigualdade. Desprezado pelos pais, tido como um refugo — ele mesmo afirma que os pais deviam ter suas razões para não querê-lo —, criado por uma humilde doceira, Paulo Honório vence sozinho, pois, depois de ficar mais de três anos preso por esfaquear arbitrariamente um sujeito que se relacionara com uma mulher com quem ele, Paulo, estava envolvido, aprende a ler, escrever, fazer contas, tira título de eleitor e adquire empréstimos, para comprar mercadorias e negociar pelo sertão.
Ganha dinheiro, cobrando dívidas com uma violência persuasiva, e se apossa das terras de São Bernardo. Para alcançar seus objetivos, se vale de instituições sociais como a igreja, os cartórios, os tribunais e o governo, já que o narrador tem em seu auxílio o advogado Nogueira, o jornalista Gondim, o juiz Magalhães e até o Padre Silvestre, com quem negocia a construção de uma igreja na fazenda. Paulo afirma crer em Deus, como um pagador de seus funcionários explorados e castigador daqueles que o furtaram, numa típica atitude de vítima. Posteriormente, construirá a escola, um claro indício do progresso material que deseja implementar
A fazenda São Bernardo repete as mesmas regras sociais e o modelo de desenvolvimento das cidades, marcadas pelo capitalismo industrial, no entanto, com vistas a dar lucro somente a um indivíduo, o próprio narrador. Através das inovações tecnológicas introduzidas na fazenda e de vários empreendimentos, percebe-se como ela simboliza a penetração dos elementos capitalistas no campo brasileiro. Isso quer dizer que Paulo Honório quer mais produção, mais lucro, mais acumulação de capital, o que, consequentemente, gerará mais desigualdade, menos distribuição de renda, e mais violência.
Graciliano Ramos escreve uma literatura regionalista crítica, e ao compor São Bernardo, e principalmente ao construir um autor-narrador com tamanha complexidade psicológica, demonstra como os aspectos políticos e sociais são, muitas vezes, quase indistinguíveis dos pessoais e humanos.
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_Aloisio
_São Bernardo (Graciliano Ramos)
PAULO HONÓRIO E MADALENA
As relações reificadas que Paulo Honório mantém com os indivíduos levam o narrador-personagem à autodestruição, por causa da impossibilidade de mudar a si mesmo, de se transformar numa pessoa capaz de manifestar afeto, principalmente com a esposa, inalcançável no momento da escrita da mesma maneira que quando viva. A profundidade analítica de Paulo parte do contexto sócio-econômico para atingir o complexo social. Percebe-se, então, com absorveu, ao longo de sua ascensão, toda a agressividade do sistema de competição típico do mundo capitalista.
Paulo, ao final da narrativa, diz que não adianta se iludir, pois sabe que, caso voltasse e pudesse mudar a maneira como agia, principalmente com a esposa, não o faria. Assim, nem Paulo Honório nem Madalena conseguem se realizar humanamente, pois, ao mesmo tempo
Madalena, uma criatura solidária, emotiva, sensível, com dedos longos e mãos finas e delicadas, é a antíteses desse narrador que se vê com deformidades monstruosas, com mãos enormes, cabeludas e calejadas — é interessante ressaltar que os contrastes são tanto físicos quanto psicológicos. Tão separados e contrastantes, têm, contudo, um fator comum: o fracasso. À medida
Poemas de Carlos Drummond de Andrade - UNIFEI
Alguns anos vivi em Itabira.
Principalmente nasci em Itabira.
Por isso sou triste, orgulhoso: de ferro.
Noventa por cento de ferro nas calçadas.
Oitenta por cento de ferro nas almas.
E esse alheamento do que na vida é porosidade e comunicação.
A vontade de amar, que me paralisa o trabalho,
vem de Itabira, de suas noites brancas, sem mulheres e sem horizontes.
E o hábito de sofrer, que tanto me diverte,
é doce herança itabirana.
De Itabira trouxe prendas que ora te ofereço:
este São Benedito do velho santeiro Alfredo Duval;
este couro de anta, estendido no sofá da sala de visitas;
este orgulho, esta cabeça baixa...
Tive ouro, tive gado, tive fazendas.
Hoje sou funcionário público.
Itabira é apenas uma fotografia na parede.
Mas como dói!
Comentário:
Para a interpretação desse poema, valem aquelas idéias discutidas em sala, em relação a como a voz poética da poesia drummondiana reflete sobre suas origens. O “ferro” representa uma idéia de dureza física e emocional, por isso a ironia da voz poética em falar que o hábito de sofrer é doce herança itabirana. A última estrofe demonstra, ao mesmo tempo, amargura e alívio, por não “herdar” gado, ouro e fazendas, e ser um reles funcionário público. Notem o ar de nostalgia do poema, mesclado à fina ironia de Drummond, quando confere uma dimensão metafísica para a fotografia: algo inerte, paralisado, mas movediço dentro do ser — ela simboliza a memória. Na verdade, não é a fotografia que dói, mas essa mesma nostalgia, e o sentimento de saber-se fechado, recluso e alheio ao mundo, orgulhoso, mas de ter a certeza de pertencer a ele. Por isso o tom irônico é fundamental para a composição do poema.
JOSÉ
E agora, José?
A festa acabou,
a luz apagou,
o povo sumiu,
a noite esfriou,
e agora, José?
e agora, você?
você que é sem nome,
que zomba dos outros,
você que faz versos,
que ama protesta,
e agora, José?
Está sem mulher,
está sem discurso,
está sem carinho,
já não pode beber,
já não pode fumar,
cuspir já não pode,
a noite esfriou,
o dia não veio,
o bonde não veio,
o riso não veio,
não veio a utopia
e tudo acabou
e tudo fugiu
e tudo mofou,
e agora, José?
E agora, José?
Sua doce palavra,
seu instante de febre,
sua gula e jejum,
sua biblioteca,
sua lavra de ouro,
seu terno de vidro,
sua incoerência,
seu ódio - e agora?
Com a chave na mão
quer abrir a porta,
não existe porta;
quer morrer no mar,
mas o mar secou;
quer ir para Minas,
Minas não há mais.
José, e agora?
Se você gritasse,
se você gemesse,
se você tocasse
a valsa vienense,
se você dormisse,
se você cansasse,
se você morresse…
Mas você não morre,
você é duro, José!
Sozinho no escuro
qual bicho-do-mato,
sem teogonia,
sem parede nua
para se encostar,
sem cavalo preto
que fuja a galope,
você marcha, José!
José, pra onde?
Comentário:
Esse poema levaria uma aula inteira para ser discutido, mas brevemente falando, “José” é a metonímia do ser humano comum, que marcha pela vida sem encontrar destino e sentido para tal marcha. Esse é um poema exemplar que revela a preocupação metafísica da poesia de Drummond. Notem que há uma gradação no poema: à medida que a leitura avança, a marcha e a procura de José tornam-se mais sem sentido. A idéia da negação percorre os versos, e a pergunta “e agora, José?” serve precisamente para acentuar a falta de respostas para qualquer indagação sobre a existência. Reparem como há um sentimento de solidão enorme que deixa José isolado e, aparentemente, sem alternativas. Destacam-se a noite, a escuridão, a falta, o fim, e os versos “quer ir para Minas,/Minas não há mais./ José, e agora? ” demonstram novamente a idéia da origem perdida e da dificuldade de lidar com a falta de sentido aparente para a existência absurda, recorrentes na obra de Drummond.
Hino nacional
Precisamos descobrir o Brasil!
Escondido atrás as florestas,
com a água dos rios no meio,
o Brasil está dormindo, coitado.
Precisamos colonizar o Brasil.
O que faremos importando francesas
muito louras, de pele macia,
alemãs gordas, russas nostálgicas para
garçonetes dos restaurantes noturnos.
E virão sírias fidelíssimas.
Não convém desprezar as japonesas...
Precisamos educar o Brasil.
Compraremos professores e livros,
assimilaremos finas culturas,
abriremos dancings e subvencionaremos as elites.
Cada brasileiro terá sua casa
com fogão e aquecedor elétricos, piscina,
salão para conferências científicas.
E cuidaremos do Estado Técnico.
Precisamos louvar o Brasil.
Não é só um país sem igual.
Nossas revoluções são bem maiores
do que quaisquer outras; nossos erros também.
E nossas virtudes? A terra das sublimes paixões...
os Amazonas inenarráveis... os incríveis João-Pessoas...
Precisamos adorar o Brasil!
Se bem que seja difícil compreender o que querem esses homens,
por que motivo eles se ajuntaram e qual a razão
de seus sofrimentos.
Precisamos, precisamos esquecer o Brasil!
Tão majestoso, tão sem limites, tão despropositado,
ele quer repousar de nossos terríveis carinhos.
O Brasil não nos quer! Está farto de nós!
Nosso Brasil é no outro mundo. Este não é o Brasil.
Nenhum Brasil existe. E acaso existirão os brasileiros?
Eduardo Alves da Costa
Quanto a mim, sonharei com Portugal
Às vezes, quando
estou triste e há silêncio
nos corredores e nas veias,
vem-me um desejo de voltar
a Portugal. Nunca lá estive,
é certo, como também
é certo meu coração, em dias tais,
ser um deserto.
Comentário:
Para analisar esse poema, basta lê-lo percebendo a ironia dos versos. Portugal representa a origem colonial, e o poema nada mais é do que uma sátira à dependência cultural e econômica nacional. Os versos “o Brasil está dormindo, coitado./Precisamos colonizar o Brasil”sugerem uma riqueza ainda inexplorada, latente, adormecida em nosso país. Numa questão de redação, esse poema pode muito bem ser relacionado a um texto que aborda as peculiaridades brasileiras, ou críticas à economia e à sociedade.
Poema de sete faces
Quando nasci, um anjo torto
desses que vivem na sombra
disse: Vai, Carlos! ser gauche na vida.
As casas espiam os homens
que correm atrás de mulheres.
A tarde talvez fosse azul,
não houvesse tantos desejos.
O bonde passa cheio de pernas:
pernas brancas pretas amarelas.
Para que tanta perna, meu Deus, pergunta meu coração.
Porém meus olhos
não perguntam nada.
O homem atrás do bigode
é sério, simples e forte.
Quase não conversa.
Tem poucos , raros amigos
o homem atrás dos óculos e do bigode.
Meu Deus, por que me abandonaste
se sabias que eu não era Deus
se sabias que eu era fraco.
Mundo mundo vasto mundo
se eu me chamasse Raimundo,
seria uma rima, não seria uma solução.
Mundo mundo vasto mundo,
mais vasto é meu coração.
Eu não devia te dizer
mas essa lua
mas esse conhaque
botam a gente comovido como o diabo.
Comentário:
Outro poema que levaria tempo para analisar, de tão fundamental que é na obra de Drummond. Ele começa com a predestinação da voz poética a ser “gauche”, diferente, avesso às normas do mundo, estranho e socialmente desconexo. O anjo responsável pelo anúncio é ironicamente um anjo das trevas (temam!), torto, assim como a voz poética. Cada uma das sete estrofes revela uma das faces do poeta, que se sente totalmente fragmentado no mundo. A intertextualidade com a passagem bíblica da crucificação de Cristo, presente nos versos “Meu Deus, por que me abandonaste/se sabias que eu não era Deus/se sabias que eu era fraco”, demonstra um relativo deboche em relação à própria solidão, segundo sugere a última estrofe, em que se atribui a comoção e o sentimentalismo ao conhaque e à lua. Da mesma forma, a conhecida estrofe “Mundo mundo vasto mundo/se eu me chamasse Raimundo,/seria uma rima, não seria uma solução./Mundo mundo vasto mundo,/mais vasto é meu coração” mostra como a poesia não é uma solução final para a vida, mas é imprescindível, uma vez que o coração, o sentimento, é maior que a materialidade do mundo.
Infância
A Abgar Renault
Meu pai montava a cavalo, ia para o campo.
Minha mãe ficava sentada cosendo.
Meu irmão pequeno dormia.
Eu sozinho menino entre mangueiras.
lia a história de Robinson Crusoé,
comprida história que não acaba mais.
No meio-dia branco de luz uma voz que aprendeu
a ninar nos longes da senzala - nunca se esqueceu
chamava para o café.
Café preto que nem a preta velha
café gostoso
café bom.
Minha mãe ficava sentada cosendo
olhando para mim:
- Psiu...Não acorde o menino.
- Para o berço onde pousou um mosquito.
E dava um suspiro...que fundo!
Lá longe meu pai campeava
no mato sem fim da fazenda.
E eu não sabia que minha história
era mais bonita que a de Robinson Crusoé.
Comentário:
Mais uma vez o sentimento de origem e a nostalgia, mostradas em “E eu não sabia que minha história/era mais bonita que a de Robinson Crusoé”. Notem a descrição do passado rural e do provincianismo brasileiros, através da retratação do cotidiano da própria família, que podem ser contrastados com a modernização imposta pelo trem de ferro que virá mais à frente.
Hipótese
E se Deus é canhoto
e criou com a mão esquerda?
Isso explica, talvez, as coisas deste mundo.
Comentário:
Um pequeno poema irônico sobre a idéia do “gauche”, que pode ser traduzido também por “esquerdo”. Notem o destaque dado para o descompasso das “coisas deste mundo”, um mundo errado, confuso e estranho para a voz poética. Pode-se fazer diversas abordagens com esse poema também numa questão aberta ou fechada: a recorrência do “gauchismo”, a crítica social e a aparente impossibilidade de adequar a existência “torta” da voz poética ao mundo.
Homem livre
Atanásio nasceu com seis dedos em cada mão.
Cortaram-lhe os excedentes.
Cortassem mais dois, seria o mesmo
admirável oficial de sapateiro, exímio seleiro.
Lombilho que ele faz, quem mais faria?
Tem prática de animais, grande ferreiro.
Sendo tanta coisa, nasce escravo,
o que não é bom para Atanásio e para ninguém.
Então foge do Rio Doce.
Vai parar, homem livre, no Seminário de Diamantina,
onde é cozinheiro, ótimo sempre, esse Atanásio.
Meu parente Manuel Chassim não se conforma.
Bota anúncio no Jequitinhonha, explicadinho:
Duzentos mil-réis a quem prender crioulo Atanásio.
Mas quem vai prender homem de tantas qualidades?
Comentário:
Poema de forte conotação social, que critica ao mesmo tempo a escravidão e a atitude do parente em tentar reaver o escravo fugido, para sugerir a ligação que a sociedade brasileira ainda mantém com a idéia da obrigação ao servilismo por parte dos menos favorecidos.
Prece do brasileiro
Meu Deus,
só me lembro de vós para pedir,
mas de qualquer modo sempre é uma lembrança.
Desculpai vosso filho, que se veste
de humildade e esperança
e vos suplica: Olhai para o Nordeste
onde há fome, Senhor, e desespero
rodando nas estradas
entre esqueletos de animais.
Em Iguatu, Parambu, Baturité,
Tauá
(vogais tão fortes não chegam até vós?)
vede as espectrais
procissões de braços estendidos,
assaltos, sobressaltos, armazéns
arrombados e – o que é pior – não tinham nada.
Fazei, Senhor, chover a chuva boa,
aquela que, florindo e reflorindo, soa
qual cantata de Bach em vossa glória
e dá vida ao boi, ao bode, à erva seca,
ao pobre sertanejo destruído
no que tem de mais doce e mais cruel:
a terra estorricada sempre amada.
Fazei chover, Senhor, e já! numa certeira
ordem às nuvens. Ou desobedecem
a vosso mando, as revoltosas? Fosse eu Vieira
(o padre) e vos diria, malcriado,
muitas e boas... mas sou vosso fã
omisso, pecador, bem brasileiro.
Comigo é na macia, no veludo/lã
e matreiro, rogo, não
ao Senhor Deus dos Exércitos (Deus me livre)
mas ao Deus que Bandeira, com carinho
botou em verso: “meu Jesus Cristinho”.
E mudo até o tratamento: por que vós,
tão gravata-e-colarinho, tão
vossa excelência?
O você comunica muito mais
e se agora o trato de você,
ficamos perto, vamos papeando
como dois camaradas bem legais,
um, puro; o outro, aquela coisa,
quase que maldito
mas amizade é isso mesmo: salta
o vale, o muro, o abismo do infinito.
Meu querido Jesus, que é que há?
Faz sentido deixar o Ceará
sofrer em ciclo a mesma eterna pena?
E você me responde suavemente:
Escute, meu cronista e meu cristão:
essa cantiga é antiga
e de tão velha não entoa não.
Você tem a Sudene abrindo frentes
de trabalho de emergência, antes fechadas.
Tem a ONU, que manda toneladas
de pacotes à espera de haver fome.
Tudo está preparado para a cena
dolorosamente repetida
no mesmo palco. O mesmo drama, toda vida.
No entanto, você sabe,
você lê os jornais, vai ao cinema,
até um livro de vez em quando lê
se o Buzaid não criar problema:
Em Israel, minha primeira pátria
(a segunda é a Bahia)
desertos se transformam em jardins
em pomares, em fontes, em riquezas.
E não é por milagre:
obra do homem e da tecnologia.
Você, meu brasileiro,
não acha que já é tempo de aprender
e de atender àquela brava gente
fugindo à caridade de ocasião
e ao vício de esperar tudo da oração?
Jesus disse e sorriu. Fiquei calado.
Fiquei, confesso, muito encabulado,
mas pedir, pedir sempre ao bom amigo
é balda que carrego aqui comigo.
Disfarcei e sorri. Pois é, meu caro.
Vamos mudar de assunto. Eu ia lhe falar
noutro caso, mais sério, mais urgente.
Escute aqui, ó irmãozinho.
Meu coração, agora, tá no México
batendo pelos músculos de Gérson,
a unha de Tostão, a ronha de Pelé,
a cuca de Zagalo, a calma de Leão
e tudo mais que liga o meu país
e uma bola no campo e uma taça de ouro.
Dê um jeito, meu velho, e faça que essa taça
sem milagres ou com ele nos pertença
para sempre, assim seja... Do contrário
ficará a Nação tão malincônica,
tão roubada em seu sonho e seu ardor
que nem sei como feche a minha crônica.
Comentário:
Notem como os versos dessa prece profundamente sarcástica e delicada soam como prosa, como sugere o verso final, “que nem sei como feche a minha crônica”, que também indica a retratação, realizada pela voz poética, de aspectos sociais brasileiros. O crítica social e a ironia estão explícitas. O trecho “Você, meu brasileiro,/não acha/que já é tempo de aprender/e de atender àquela brava gente/fugindo à caridade de ocasião/e ao vício de esperar tudo da oração?/Jesus disse e sorriu. Fiquei calado” já diz tudo. Esse poema cairá na prova de redação.
O seu santo nome
Não facilite com a palavra amor.
Não a jogue no espaço, bolha de sabão.
Não se inebrie com o seu engalanado som.
Não a empregue sem razão acima de toda razão (e é raro).
Não brinque, não experimente, não cometa a loucura sem remissão
de espalhar aos quatro ventos do mundo essa palavra
que é toda sigilo e nudez, perfeição e exílio na Terra.
Não a pronuncie.
Comentário:
O “santo nome”, no caso, é tão divino quanto o símbolo do sagrado, pois é o “amor”— e o santo nome não deve ser pronunciado
O maior trem do mundo
O maior trem do mundo
Leva minha terra
para Alemanha
leva a minha terra
para o Canadá
leva a minha terra
para o Japão.
O maior trem do mundo
puxado por cinco locomotivas à óleo diesel
engatadas geminadas desembestadas
leva o meu tempo, minha infância, minha vida
triturada em 163 vagões de minero e destruição.
O maior trem do mundo
transporta a coisa mínima do mundo
meu coração itabirano.
Lá vai o trem maior do mundo
vai serpenteando vai sumindo
e um dia, eu sei, não voltará.
Pois nem terra nem coração existem mais
Comentário:
Poema que aborda mais uma vez as raízes e as origens do poeta, mas com uma ácida crítica social e econômica, por causa do minério exportado, e ainda o sentimento de melancolia, porque a vida da voz poética fica “triturada em 163 vagões de minero e destruição”. A “terra” levada para longe é tanto o minério extraído quanto o local onde se estabelece a raiz cultural, que se perde, por não ter onde se fixar. Notem a idéia recorrente da sensação de pequenez da voz poética diante do mundo enorme, metaforizada pelo maior trem do mundo, símbolo de imponência econômica, de progresso inabalável, mas também instrumento de desumanização e um fator descaracterizador da região itabirana.Vai cair com certeza.
Ótima prova a todos, abração! Aloisio.