Todo material publicado no blog Literatura2pontos deve ser compartilhado.

[PROSA_Oficina de textos_UFMG 2011] Salinha para resolução de questões abertas de Literatura (vestibular UFMG 2011) . Informações: emaildoaloisio@yahoo.com.br

25 de setembro de 2008

Vídeo_Manuel Bandeira

Video de 2 minutos, com Manuel Bandeira, declamando "O último poema". Emocionante (sem ponto de exclamação) - para Bandeira, a própria palavra basta.

Manuel Bandeira - O habitante de Pasárgada

Selecione e cole em seu navegador:

http://www.youtube.com/watch?v=xM6hm8h_c0s

Comentário_A alma encantadora das ruas_1

www.literatura2pontos.blogspot.com

_Aloisio

_A alma encantadora das ruas (João do Rio)

O CRONISTA QUE ENFEITA A MISÉRIA

João do Rio é o autor transeunte, que faz da observação a base de seu ofício, para refletir sobre a história e a cultura, sobre os padrões de sociabilidade e o início da modernidade brasileira. Ao fazer espécies de closes fotográficos das ruas com seus textos, sonda as formas de vida inusitadas instauradas pelo estado de decadência da população pobre, no Rio de Janeiro, em meio à modernização da vida urbana.

Os leitores de João do Rio tinham que se sentir impactados por esses modos de vida marginais, como os de ciganos, trapeiros, catadores de selo, mendigos, prostitutas, catraieiros, ambulantes e vendedores de livros baratos, por exemplo. Para tanto, João do Rio se valia de um estilo “art noveau” de escrita, segundo enfatiza o crítico José Paulo Paes. É a arte nova da belle époque, o estilo enfeitado e ornamental que chega ao Brasil através de revistas e artigos manufaturados importados, no início do século XX. João do Rio tinha um refinamento mundano, escrevia crônicas sociais e preocupava-se em vestir-se elegantemente, como um típico dândi. Assim, seu estilo literário também será enfeitado, rebuscado, com gosto pela ornamentação vocabular e pelas comparações metafóricas. Porém, ao invés de tratar do luxo, em A alma encantadora das ruas, trata do que a elite aburguesada ignora: da população marginalizada.

Nas crônicas de João do Rio, nota-se uma ambigüidade entre o gosto decadentista e seu espírito cosmopolita. Isso quer dizer que há um gosto pelo aspecto grotesco das ruas, uma fascinação pelos miseráveis e seus modos de vida, e ao mesmo tempo, a postura de quem busca ascensão social e integração à cultura universal. João do Rio é um dândi de maneiras requintadas, interessado em retratar para a burguesia e o povo carioca as contradições entre a urbanização da cidade e o aumento das classes marginalizadas.

Comentários_São Bernardo_2

www.literatura2pontos.blogspot.com

_Aloisio

_São Bernardo (Graciliano Ramos)

VIOLÊNCIA EM SÃO BERNARDO

Segundo o crítico Antônio Cândido, há dois tipos de violência no romance São Bernardo. A violência contra homens e o mundo, que resulta na conquista da fazenda — o próprio Paulo Honório diz que seu maior fito na vida era se apossar das terras de São Bernardo —, e a contra ele próprio, que resulta no livro. A violência é o suporte de seu modo de ser, e seu desejo de propriedade a legitima e justifica o extermínio sumário de vizinhos incômodos, como o Mendonça, a corrupção de jornalistas, como o Costa Brito, e a brutalização dos funcionários, como o Marciano.

A aquisição de São Bernardo aparentemente concretiza sua vitória sobre os obstáculos da origem humilde e do passado de subordinação, que são superados ou esmagados. Mas a violência voltada para dentro de si, motivada pelo ciúme que sente por Madalena, causa sua autodestruição, quando finalmente percebe a vacuidade de suas realizações materiais. Paulo sente uma necessidade nova, escrever, e dela surge uma nova construção: o livro que conta a sua derrota, através do qual terá uma visão ordenada de si e de suas atitudes.

No momento em que se conhece pela narrativa, destrói-se enquanto homem de propriedade. A narrativa é violenta para ele mesmo porque é obrigado a encarar a sua incapacidade de mudar tanto o destino de Madalena quanto o seu. Sabe que se voltasse atrás, agiria da mesma forma, o que transforma ambas as personagens em um casal trágico: o fim deles dois é imutável. Madalena está destinada ao fracasso, por não conseguir mudar as estruturas sociais da fazenda, Paulo, à solidão e ao vazio existencial, já que possuir São Bernardo não tem o mesmo valor de antes.

www.literatura2pontos.blogspot.com

_Aloisio

_São Bernardo (Graciliano Ramos)

AS MÃOS E O CIÚME DE PAULO HONÓRIO

O sentimento de propriedade despersonaliza o narrador-personagem e o faz ver-se constantemente como um monstro. Seu ciúme doentio advém do fato de não conseguir se apossar de Madalena, como fazia com todos ao seu redor. A esposa era insubmissa e tinha um espírito solidário, ao contrário do egoísta Paulo Honório. Por se sentir incapaz de dominar a esposa, e por crer que enquanto constrói seu capital, ela o destrói e o dissipa, ao ajudar os funcionários e pedir dinheiro para a escola, acusa-a de ser intelectual, de não crer em Deus e de ser comunista.

Pouco importa a verdade em relação a Madalena, já que o leitor se encontra junto aos pensamentos do narrador, e não dos da esposa. Por isso, é necessário pensar no que teria motivado tais reflexões de Paulo. Madalena era considerada por ele como intelectual porque tinha poder de argumentação; deveria não ter religião, já que era uma mulher livre e libertária; comunista, pois não se preocupava em juntar capital, como ele próprio fazia. O ciúme é, então, decorrente de sua fragilidade íntima, pois teria que subjugar a mulher de alguma maneira. Acusando-a de traição, iria se livrar do peso de ter de admitir que nunca a dominaria.

Mas a doença do ciúme o faz enxergar-se como uma criatura animalesca. Sempre quando se refere a si, fala de seu aspecto rude, das sobrancelhas espessas, da pele queimada de sol, das mãos calejadas e grossas, feito cascos de cavalo. Já Madalena tem as mãos finas, delicadas, cabelos loiros, olhos azuis, é quase uma figura angelical. O contraste físico aponta para as diferenças psicológicas entre os dois, e denota como Paulo projeta para sua aparência os tormentos que sente por saber-se responsável pelo suicídio de Madalena.

17 de setembro de 2008

João do Rio

Dica de um link :
Entrevista bem interesante com a pesquisadora Julia O'Donnell, que estuda a obra de João do Rio.

http://oglobo.globo.com/blogs/prosa/post.asp?t=julia_donnell_o_antropologo_joao_do_rio&cod_Post=101733&a=96


Selecione o link e cole-o em seu navegador.

Dá para captar como era a figura desse autor e qual foi sua importância, tanto no contexto literário quanto jornalístico brasileiro.

8 de setembro de 2008

Comentários_São Bernardo_1

www.literatura2pontos.blogspot.com

_Aloisio

_São Bernardo (Graciliano Ramos)

FAZENDA SÃO BERNARDO

Para se tornar proprietário e patrão, Paulo Honório luta com as armas que a própria sociedade capitalista lhe deu: o individualismo e a necessidade de acumulação de capital. Como é incapaz de estabelecer relações afetivas, já que todas suas relações com o outro são mediadas pela lógica do lucro, imprime em si a marca maior do meio em que cresceu e viveu, a desigualdade. Desprezado pelos pais, tido como um refugo — ele mesmo afirma que os pais deviam ter suas razões para não querê-lo —, criado por uma humilde doceira, Paulo Honório vence sozinho, pois, depois de ficar mais de três anos preso por esfaquear arbitrariamente um sujeito que se relacionara com uma mulher com quem ele, Paulo, estava envolvido, aprende a ler, escrever, fazer contas, tira título de eleitor e adquire empréstimos, para comprar mercadorias e negociar pelo sertão.

Ganha dinheiro, cobrando dívidas com uma violência persuasiva, e se apossa das terras de São Bernardo. Para alcançar seus objetivos, se vale de instituições sociais como a igreja, os cartórios, os tribunais e o governo, já que o narrador tem em seu auxílio o advogado Nogueira, o jornalista Gondim, o juiz Magalhães e até o Padre Silvestre, com quem negocia a construção de uma igreja na fazenda. Paulo afirma crer em Deus, como um pagador de seus funcionários explorados e castigador daqueles que o furtaram, numa típica atitude de vítima. Posteriormente, construirá a escola, um claro indício do progresso material que deseja implementar em São Bernardo; porém esse é um progresso que não leva em consideração o homem. O escola só é erguida por causa de uma atitude política, para agradar ao governador quando viesse à fazenda novamente. Paulo não quer funcionários que pensem e questionem, e ainda insiste em dizer que cultiva a ilusão, fazendo-os crer que, na verdade, era ele que trabalhava para os peões e agregados. Tanto a escola e a igreja são tidas como capital, sua construção objetiva tão somente gerar lucro, ou benefícios.

A fazenda São Bernardo repete as mesmas regras sociais e o modelo de desenvolvimento das cidades, marcadas pelo capitalismo industrial, no entanto, com vistas a dar lucro somente a um indivíduo, o próprio narrador. Através das inovações tecnológicas introduzidas na fazenda e de vários empreendimentos, percebe-se como ela simboliza a penetração dos elementos capitalistas no campo brasileiro. Isso quer dizer que Paulo Honório quer mais produção, mais lucro, mais acumulação de capital, o que, consequentemente, gerará mais desigualdade, menos distribuição de renda, e mais violência.

Graciliano Ramos escreve uma literatura regionalista crítica, e ao compor São Bernardo, e principalmente ao construir um autor-narrador com tamanha complexidade psicológica, demonstra como os aspectos políticos e sociais são, muitas vezes, quase indistinguíveis dos pessoais e humanos.

www.literatura2pontos.blogspot.com

_Aloisio

_São Bernardo (Graciliano Ramos)

PAULO HONÓRIO E MADALENA

As relações reificadas que Paulo Honório mantém com os indivíduos levam o narrador-personagem à autodestruição, por causa da impossibilidade de mudar a si mesmo, de se transformar numa pessoa capaz de manifestar afeto, principalmente com a esposa, inalcançável no momento da escrita da mesma maneira que quando viva. A profundidade analítica de Paulo parte do contexto sócio-econômico para atingir o complexo social. Percebe-se, então, com absorveu, ao longo de sua ascensão, toda a agressividade do sistema de competição típico do mundo capitalista.

Paulo, ao final da narrativa, diz que não adianta se iludir, pois sabe que, caso voltasse e pudesse mudar a maneira como agia, principalmente com a esposa, não o faria. Assim, nem Paulo Honório nem Madalena conseguem se realizar humanamente, pois, ao mesmo tempo em que Graciliano Ramos tenta desvendar as desigualdades do capitalismo, mostra como são abstratas as perspectivas para um mundo novo, por causa da ausência de uma classe social verdadeiramente revolucionária. Como Madalena, os indivíduos que se opõem à rígida separação de classes imposta pelo capitalismo permanecem solitários e impotentes, e o socialismo — ou comunismo, como o narrador o nomeia — aparece como uma aspiração subjetiva, sem encontrar na realidade as possibilidades concretas de sua execução.

Madalena, uma criatura solidária, emotiva, sensível, com dedos longos e mãos finas e delicadas, é a antíteses desse narrador que se vê com deformidades monstruosas, com mãos enormes, cabeludas e calejadas — é interessante ressaltar que os contrastes são tanto físicos quanto psicológicos. Tão separados e contrastantes, têm, contudo, um fator comum: o fracasso. À medida em que Paulo ascende social e economicamente, decai intimamente, e acaba solitário e amargurado, num profundo desespero existencial, por saber que nunca entenderá completamente a mulher que fora sua esposa, e que lhe negara a posse, que se recusara a ser tratada como coisa, objeto, e por isso se suicida. Já Madalena tenta modificar em vão a estrutura social de uma fazenda cuja existência deve-se exclusivamente à satisfação da ganância desmesurada do proprietário.

27 de agosto de 2008

SALINHA DE LITERATURA PARA A UFOP

Olá amigas e amigos !

Precisamos da confirmação dos interessados em fazer a SALINHA DE LITERATURA PARA A UFOP, pois a sala terá 12 alunos somente.

INÍCIO : 2ª semana de setembro até as vésperas da prova

HORÁRIO: turno da tarde (dia e horário a confirmar segundo a disponibilidade do pessoal)

valor : 3 parcelas de $95,00.

aulas : 2 aulas por semana: 1h/aloisio ; 1h/dudu.

local : perto do Mais Centro

abração !

13 de julho de 2008

Poemas de Carlos Drummond de Andrade (UNIFEI) com comentários

Poemas de Carlos Drummond de Andrade - UNIFEI

Confidência do itabirano

Alguns anos vivi em Itabira.

Principalmente nasci em Itabira.

Por isso sou triste, orgulhoso: de ferro.

Noventa por cento de ferro nas calçadas.

Oitenta por cento de ferro nas almas.

E esse alheamento do que na vida é porosidade e comunicação.


A vontade de amar, que me paralisa o trabalho,

vem de Itabira, de suas noites brancas, sem mulheres e sem horizontes.

E o hábito de sofrer, que tanto me diverte,

é doce herança itabirana.


De Itabira trouxe prendas que ora te ofereço:

este São Benedito do velho santeiro Alfredo Duval;

este couro de anta, estendido no sofá da sala de visitas;

este orgulho, esta cabeça baixa...


Tive ouro, tive gado, tive fazendas.

Hoje sou funcionário público.

Itabira é apenas uma fotografia na parede.

Mas como dói!

Comentário:

Para a interpretação desse poema, valem aquelas idéias discutidas em sala, em relação a como a voz poética da poesia drummondiana reflete sobre suas origens. O “ferro” representa uma idéia de dureza física e emocional, por isso a ironia da voz poética em falar que o hábito de sofrer é doce herança itabirana. A última estrofe demonstra, ao mesmo tempo, amargura e alívio, por não “herdar” gado, ouro e fazendas, e ser um reles funcionário público. Notem o ar de nostalgia do poema, mesclado à fina ironia de Drummond, quando confere uma dimensão metafísica para a fotografia: algo inerte, paralisado, mas movediço dentro do ser — ela simboliza a memória. Na verdade, não é a fotografia que dói, mas essa mesma nostalgia, e o sentimento de saber-se fechado, recluso e alheio ao mundo, orgulhoso, mas de ter a certeza de pertencer a ele. Por isso o tom irônico é fundamental para a composição do poema.

JOSÉ
E agora, José?

A festa acabou,

a luz apagou,

o povo sumiu,

a noite esfriou,

e agora, José?

e agora, você?

você que é sem nome,

que zomba dos outros,

você que faz versos,

que ama protesta,

e agora, José?


Está sem mulher,

está sem discurso,

está sem carinho,

já não pode beber,

já não pode fumar,

cuspir já não pode,

a noite esfriou,

o dia não veio,

o bonde não veio,

o riso não veio,

não veio a utopia

e tudo acabou

e tudo fugiu

e tudo mofou,

e agora, José?


E agora, José?

Sua doce palavra,

seu instante de febre,

sua gula e jejum,

sua biblioteca,

sua lavra de ouro,


seu terno de vidro,

sua incoerência,

seu ódio - e agora?


Com a chave na mão

quer abrir a porta,

não existe porta;

quer morrer no mar,

mas o mar secou;

quer ir para Minas,

Minas não há mais.

José, e agora?


Se você gritasse,

se você gemesse,

se você tocasse

a valsa vienense,

se você dormisse,

se você cansasse,

se você morresse…

Mas você não morre,

você é duro, José!


Sozinho no escuro

qual bicho-do-mato,

sem teogonia,

sem parede nua

para se encostar,

sem cavalo preto

que fuja a galope,

você marcha, José!

José, pra onde?

Comentário:

Esse poema levaria uma aula inteira para ser discutido, mas brevemente falando, “José” é a metonímia do ser humano comum, que marcha pela vida sem encontrar destino e sentido para tal marcha. Esse é um poema exemplar que revela a preocupação metafísica da poesia de Drummond. Notem que há uma gradação no poema: à medida que a leitura avança, a marcha e a procura de José tornam-se mais sem sentido. A idéia da negação percorre os versos, e a pergunta “e agora, José?” serve precisamente para acentuar a falta de respostas para qualquer indagação sobre a existência. Reparem como há um sentimento de solidão enorme que deixa José isolado e, aparentemente, sem alternativas. Destacam-se a noite, a escuridão, a falta, o fim, e os versos “quer ir para Minas,/Minas não há mais./ José, e agora? ” demonstram novamente a idéia da origem perdida e da dificuldade de lidar com a falta de sentido aparente para a existência absurda, recorrentes na obra de Drummond.

Hino nacional

Precisamos descobrir o Brasil!

Escondido atrás as florestas,

com a água dos rios no meio,

o Brasil está dormindo, coitado.

Precisamos colonizar o Brasil.


O que faremos importando francesas

muito louras, de pele macia,

alemãs gordas, russas nostálgicas para

garçonetes dos restaurantes noturnos.

E virão sírias fidelíssimas.

Não convém desprezar as japonesas...


Precisamos educar o Brasil.

Compraremos professores e livros,

assimilaremos finas culturas,

abriremos dancings e subvencionaremos as elites.


Cada brasileiro terá sua casa

com fogão e aquecedor elétricos, piscina,

salão para conferências científicas.

E cuidaremos do Estado Técnico.


Precisamos louvar o Brasil.

Não é só um país sem igual.

Nossas revoluções são bem maiores

do que quaisquer outras; nossos erros também.

E nossas virtudes? A terra das sublimes paixões...

os Amazonas inenarráveis... os incríveis João-Pessoas...


Precisamos adorar o Brasil!

Se bem que seja difícil compreender o que querem esses homens,

por que motivo eles se ajuntaram e qual a razão

de seus sofrimentos.


Precisamos, precisamos esquecer o Brasil!

Tão majestoso, tão sem limites, tão despropositado,

ele quer repousar de nossos terríveis carinhos.

O Brasil não nos quer! Está farto de nós!

Nosso Brasil é no outro mundo. Este não é o Brasil.

Nenhum Brasil existe. E acaso existirão os brasileiros?

Eduardo Alves da Costa

Quanto a mim, sonharei com Portugal

Às vezes, quando

estou triste e há silêncio

nos corredores e nas veias,

vem-me um desejo de voltar

a Portugal. Nunca lá estive,

é certo, como também

é certo meu coração, em dias tais,

ser um deserto.

Comentário:

Para analisar esse poema, basta lê-lo percebendo a ironia dos versos. Portugal representa a origem colonial, e o poema nada mais é do que uma sátira à dependência cultural e econômica nacional. Os versos “o Brasil está dormindo, coitado./Precisamos colonizar o Brasil”sugerem uma riqueza ainda inexplorada, latente, adormecida em nosso país. Numa questão de redação, esse poema pode muito bem ser relacionado a um texto que aborda as peculiaridades brasileiras, ou críticas à economia e à sociedade.

Poema de sete faces

Quando nasci, um anjo torto

desses que vivem na sombra

disse: Vai, Carlos! ser gauche na vida.

As casas espiam os homens

que correm atrás de mulheres.

A tarde talvez fosse azul,

não houvesse tantos desejos.


O bonde passa cheio de pernas:

pernas brancas pretas amarelas.

Para que tanta perna, meu Deus, pergunta meu coração.

Porém meus olhos

não perguntam nada.


O homem atrás do bigode

é sério, simples e forte.

Quase não conversa.

Tem poucos , raros amigos

o homem atrás dos óculos e do bigode.


Meu Deus, por que me abandonaste

se sabias que eu não era Deus

se sabias que eu era fraco.


Mundo mundo vasto mundo

se eu me chamasse Raimundo,

seria uma rima, não seria uma solução.

Mundo mundo vasto mundo,

mais vasto é meu coração.

Eu não devia te dizer
mas essa lua
mas esse conhaque
botam a gente comovido como o diabo.

Comentário:

Outro poema que levaria tempo para analisar, de tão fundamental que é na obra de Drummond. Ele começa com a predestinação da voz poética a ser “gauche”, diferente, avesso às normas do mundo, estranho e socialmente desconexo. O anjo responsável pelo anúncio é ironicamente um anjo das trevas (temam!), torto, assim como a voz poética. Cada uma das sete estrofes revela uma das faces do poeta, que se sente totalmente fragmentado no mundo. A intertextualidade com a passagem bíblica da crucificação de Cristo, presente nos versos “Meu Deus, por que me abandonaste/se sabias que eu não era Deus/se sabias que eu era fraco”, demonstra um relativo deboche em relação à própria solidão, segundo sugere a última estrofe, em que se atribui a comoção e o sentimentalismo ao conhaque e à lua. Da mesma forma, a conhecida estrofe “Mundo mundo vasto mundo/se eu me chamasse Raimundo,/seria uma rima, não seria uma solução./Mundo mundo vasto mundo,/mais vasto é meu coração” mostra como a poesia não é uma solução final para a vida, mas é imprescindível, uma vez que o coração, o sentimento, é maior que a materialidade do mundo.

Infância

A Abgar Renault

Meu pai montava a cavalo, ia para o campo.

Minha mãe ficava sentada cosendo.

Meu irmão pequeno dormia.

Eu sozinho menino entre mangueiras.

lia a história de Robinson Crusoé,

comprida história que não acaba mais.

No meio-dia branco de luz uma voz que aprendeu

a ninar nos longes da senzala - nunca se esqueceu

chamava para o café.

Café preto que nem a preta velha

café gostoso

café bom.

Minha mãe ficava sentada cosendo

olhando para mim:

- Psiu...Não acorde o menino.

- Para o berço onde pousou um mosquito.

E dava um suspiro...que fundo!

Lá longe meu pai campeava

no mato sem fim da fazenda.

E eu não sabia que minha história

era mais bonita que a de Robinson Crusoé.

Comentário:

Mais uma vez o sentimento de origem e a nostalgia, mostradas em “E eu não sabia que minha história/era mais bonita que a de Robinson Crusoé”. Notem a descrição do passado rural e do provincianismo brasileiros, através da retratação do cotidiano da própria família, que podem ser contrastados com a modernização imposta pelo trem de ferro que virá mais à frente.

Hipótese

E se Deus é canhoto

e criou com a mão esquerda?

Isso explica, talvez, as coisas deste mundo.

Comentário:

Um pequeno poema irônico sobre a idéia do “gauche”, que pode ser traduzido também por “esquerdo”. Notem o destaque dado para o descompasso das “coisas deste mundo”, um mundo errado, confuso e estranho para a voz poética. Pode-se fazer diversas abordagens com esse poema também numa questão aberta ou fechada: a recorrência do “gauchismo”, a crítica social e a aparente impossibilidade de adequar a existência “torta” da voz poética ao mundo.

Homem livre

Atanásio nasceu com seis dedos em cada mão.

Cortaram-lhe os excedentes.

Cortassem mais dois, seria o mesmo

admirável oficial de sapateiro, exímio seleiro.

Lombilho que ele faz, quem mais faria?

Tem prática de animais, grande ferreiro.

Sendo tanta coisa, nasce escravo,

o que não é bom para Atanásio e para ninguém.

Então foge do Rio Doce.

Vai parar, homem livre, no Seminário de Diamantina,

onde é cozinheiro, ótimo sempre, esse Atanásio.

Meu parente Manuel Chassim não se conforma.

Bota anúncio no Jequitinhonha, explicadinho:

Duzentos mil-réis a quem prender crioulo Atanásio.

Mas quem vai prender homem de tantas qualidades?

Comentário:

Poema de forte conotação social, que critica ao mesmo tempo a escravidão e a atitude do parente em tentar reaver o escravo fugido, para sugerir a ligação que a sociedade brasileira ainda mantém com a idéia da obrigação ao servilismo por parte dos menos favorecidos.

Prece do brasileiro

Meu Deus,

só me lembro de vós para pedir,

mas de qualquer modo sempre é uma lembrança.

Desculpai vosso filho, que se veste

de humildade e esperança

e vos suplica: Olhai para o Nordeste

onde há fome, Senhor, e desespero

rodando nas estradas

entre esqueletos de animais.

Em Iguatu, Parambu, Baturité,

Tauá
(vogais tão fortes não chegam até vós?)

vede as espectrais

procissões de braços estendidos,

assaltos, sobressaltos, armazéns

arrombados e – o que é pior – não tinham nada.

Fazei, Senhor, chover a chuva boa,

aquela que, florindo e reflorindo, soa

qual cantata de Bach em vossa glória

e dá vida ao boi, ao bode, à erva seca,

ao pobre sertanejo destruído

no que tem de mais doce e mais cruel:

a terra estorricada sempre amada.

Fazei chover, Senhor, e já! numa certeira

ordem às nuvens. Ou desobedecem

a vosso mando, as revoltosas? Fosse eu Vieira

(o padre) e vos diria, malcriado,

muitas e boas... mas sou vosso fã

omisso, pecador, bem brasileiro.

Comigo é na macia, no veludo/lã

e matreiro, rogo, não

ao Senhor Deus dos Exércitos (Deus me livre)

mas ao Deus que Bandeira, com carinho

botou em verso: “meu Jesus Cristinho”.

E mudo até o tratamento: por que vós,

tão gravata-e-colarinho, tão

vossa excelência?

O você comunica muito mais

e se agora o trato de você,

ficamos perto, vamos papeando

como dois camaradas bem legais,

um, puro; o outro, aquela coisa,

quase que maldito

mas amizade é isso mesmo: salta

o vale, o muro, o abismo do infinito.

Meu querido Jesus, que é que há?

Faz sentido deixar o Ceará

sofrer em ciclo a mesma eterna pena?

E você me responde suavemente:

Escute, meu cronista e meu cristão:

essa cantiga é antiga

e de tão velha não entoa não.

Você tem a Sudene abrindo frentes

de trabalho de emergência, antes fechadas.

Tem a ONU, que manda toneladas

de pacotes à espera de haver fome.

Tudo está preparado para a cena

dolorosamente repetida

no mesmo palco. O mesmo drama, toda vida.

No entanto, você sabe,

você lê os jornais, vai ao cinema,

até um livro de vez em quando lê

se o Buzaid não criar problema:

Em Israel, minha primeira pátria

(a segunda é a Bahia)

desertos se transformam em jardins

em pomares, em fontes, em riquezas.

E não é por milagre:

obra do homem e da tecnologia.

Você, meu brasileiro,

não acha que já é tempo de aprender

e de atender àquela brava gente

fugindo à caridade de ocasião

e ao vício de esperar tudo da oração?

Jesus disse e sorriu. Fiquei calado.

Fiquei, confesso, muito encabulado,

mas pedir, pedir sempre ao bom amigo

é balda que carrego aqui comigo.

Disfarcei e sorri. Pois é, meu caro.

Vamos mudar de assunto. Eu ia lhe falar

noutro caso, mais sério, mais urgente.

Escute aqui, ó irmãozinho.

Meu coração, agora, tá no México

batendo pelos músculos de Gérson,

a unha de Tostão, a ronha de Pelé,

a cuca de Zagalo, a calma de Leão

e tudo mais que liga o meu país

e uma bola no campo e uma taça de ouro.

Dê um jeito, meu velho, e faça que essa taça

sem milagres ou com ele nos pertença

para sempre, assim seja... Do contrário

ficará a Nação tão malincônica,

tão roubada em seu sonho e seu ardor

que nem sei como feche a minha crônica.

Comentário:

Notem como os versos dessa prece profundamente sarcástica e delicada soam como prosa, como sugere o verso final, “que nem sei como feche a minha crônica”, que também indica a retratação, realizada pela voz poética, de aspectos sociais brasileiros. O crítica social e a ironia estão explícitas. O trecho “Você, meu brasileiro,/não acha/que já é tempo de aprender/e de atender àquela brava gente/fugindo à caridade de ocasião/e ao vício de esperar tudo da oração?/Jesus disse e sorriu. Fiquei calado” já diz tudo. Esse poema cairá na prova de redação.

O seu santo nome

Não facilite com a palavra amor.

Não a jogue no espaço, bolha de sabão.

Não se inebrie com o seu engalanado som.

Não a empregue sem razão acima de toda razão (e é raro).

Não brinque, não experimente, não cometa a loucura sem remissão

de espalhar aos quatro ventos do mundo essa palavra

que é toda sigilo e nudez, perfeição e exílio na Terra.

Não a pronuncie.

Comentário:

O “santo nome”, no caso, é tão divino quanto o símbolo do sagrado, pois é o “amor”— e o santo nome não deve ser pronunciado em vão. A negação presente no poema, na verdade, é totalmente irônica. A voz poética adverte sobre os perigos do amor, mas acaba por incitar a sua procura, dentro do mundo sem sentido e insensível.

O maior trem do mundo

O maior trem do mundo

Leva minha terra

para Alemanha

leva a minha terra

para o Canadá

leva a minha terra

para o Japão.

O maior trem do mundo

puxado por cinco locomotivas à óleo diesel

engatadas geminadas desembestadas

leva o meu tempo, minha infância, minha vida

triturada em 163 vagões de minero e destruição.

O maior trem do mundo

transporta a coisa mínima do mundo

meu coração itabirano.

Lá vai o trem maior do mundo

vai serpenteando vai sumindo

e um dia, eu sei, não voltará.

Pois nem terra nem coração existem mais

Comentário:

Poema que aborda mais uma vez as raízes e as origens do poeta, mas com uma ácida crítica social e econômica, por causa do minério exportado, e ainda o sentimento de melancolia, porque a vida da voz poética fica “triturada em 163 vagões de minero e destruição”. A “terra” levada para longe é tanto o minério extraído quanto o local onde se estabelece a raiz cultural, que se perde, por não ter onde se fixar. Notem a idéia recorrente da sensação de pequenez da voz poética diante do mundo enorme, metaforizada pelo maior trem do mundo, símbolo de imponência econômica, de progresso inabalável, mas também instrumento de desumanização e um fator descaracterizador da região itabirana.Vai cair com certeza.

Ótima prova a todos, abração! Aloisio.