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14 de novembro de 2008

A educação pela pedra (João Cabral de Melo neto)_Poemas e anotações

A EDUCAÇÃO PELA PEDRA

(João Cabral de Melo Neto)

(1962-1965)

A Manuel Bandeira

esta antilira para seus

oitent´anos

A educação pela pedra

Uma educação pela pedra: por lições;
para aprender da pedra, freqüentá-la;
captar sua voz inenfática, impessoal
(pela de dicção ela começa as aulas).
A lição de moral, sua resistência fria
ao que flui e a fluir, a ser maleada;
a de poética, sua carnadura concreta;
a de economia, seu adensar-se compacta:
lições da pedra (de fora para dentro,
cartilha muda), para quem soletrá-la.

.

Outra educação pela pedra: no Sertão
(de dentro para fora, e pré-didática).
No Sertão a pedra não sabe lecionar,
e se lecionasse, não ensinaria nada;
lá não se aprende a pedra; lá a pedra,
uma pedra de nascença, entranha a alma.

Catar feijão

Catar feijão se limita com escrever:
joga-se os grãos na água do alguidar
e as palavras na da folha de papel;
e depois joga-se fora o que boiar.
Certo, toda palavra boiará no papel,
água congelada, por chumbo seu verbo:
pois, para catar esse feijão, soprar nele,
e jogar fora o leve e oco, palha e eco.

2

Ora, nesse catar feijão entra um risco:
o de que entre os grãos pesados entre
um grão qualquer, pedra ou indigesto,
um grão imastigável, de quebrar dente.
Certo, não quando ao catar palavras:
a pedra dá à frase seu grão mais vivo:
obstrui a leitura fluviante, flutual,
açula a atenção, isca-a como o risco.





Tecendo a manhã


Um galo sozinho não tece uma manhã:
ele precisará sempre de outros galos.
De um que apanhe esse grito que ele
e o lance a outro; de um outro galo
que apanhe o grito de um galo antes
e o lance a outro; e de outros galos
que com muitos outros galos se cruzem
os fios de sol de seus gritos de galo,
para que a manhã, desde uma teia tênue,
se vá tecendo, entre todos os galos.


2


E se encorpando em tela, entre todos,
se erguendo tenda, onde entrem todos,
se entretendendo para todos, no toldo
(a manhã) que plana livre de armação.
A manhã, toldo de um tecido tão aéreo
que, tecido, se eleva por si: luz balão.



O mar e o canavial

O que o mar sim aprende do canavial:
a elocução horizontal de seu verso;
a geórgica de cordel, ininterrupta,
narrada em voz e silêncio paralelos.
O que o mar não aprende do canavial:
a veemência passional da preamar;
a mão-de-pilão das ondas na areia,
moída e miúda, pilada do que pilar.

.


O que o canavial sim aprende do mar:
o avançar em linha rasteira da onda;
o espraiar-se minucioso, de líquido,
alagando cova a cova onde se alonga.
O que o canavial não aprende do mar:
o desmedido do derramar-se da cana;
o comedimento do latifúndio do mar,
que menos lastradamente se derrama.

O canavial e o mar

O que o mar sim ensina ao canavial:
o avançar em linha rasteira da onda;
o espraiar-se minucioso, de líquido,
alagando cova a cova onde se alonga.
O que o canavial sim ensina ao mar:
a elocução horizontal de seu verso;
a geórgica de cordel, ininterrupta,
narrada em voz e silêncio paralelos.

.


O que o mar não ensina ao canavial:
a veemência passional da preamar;
a mão-de-pilão das ondas na areia,
moída e miúda, pilada do que pilar.
O que o canavial não ensina ao mar:
o desmedido do derramar-se da cana;
o comedimento do latifúndio do mar,
que menos lastradamente se derrama.


Psicanálise do açúcar

O açúcar cristal, ou açúcar de usina,

mostra a mais instável das brancuras;

quem do Recife sabe direito o quanto,

e o pouco desse quanto, que ela dura.

Sabe o mínimo do pouco que o cristal

se estabiliza cristal sobre o açúcar,

por cima do fundo antigo, de mascavo,

do mascavo barrento que se incuba;

e sabe que tudo pode romper o mínimo

em que o cristal é capaz de censura:

pois o tal fundo mascavo logo aflora

quer inverno ou verão mele o açúcar.

.

Só os bangüês que-ainda purgam ainda

o açúcar bruto com barro, de mistura;

a usina já não o purga: da infância,

não de depois de adulto, ela o educa;

em enfermarias, com vácuos e turbinas,

em mãos de metal de gente indústria,

a usina o leva a sublimar em cristal

o pardo do xarope: não o purga, cura.

Mas como a cana se cria ainda hoje,

em mãos de barro de gente agricultura,

o barrento da pré-infância logo aflora

quer inverno ou verão mele o açúcar.


Os reinos do amarelo

A terra lauta da Mata produz e exibe

um amarelo rico (se não o dos metais):

o amarelo do maracujá e os da manga,

o do oiti-da-praia, do caju e do cajá;

amarelo vegetal, alegre de sol livre,

beirando o estridente, de tão alegre,

e que o sol eleva de vegetal a mineral,

polindo-o, até um aceso metal de pele.

Só que fere a vista uma amarelo outro,

e a fere embora baço (sol não o acende):

amarelo aquém do vegetal, e se animal,

de um animal cobre: pobre, podremente.

2

Só que fere a vista um amarelo outro:

se animal, de homem: de corpo humano;

de corpo e vida; de tudo o que segrega

(sarro ou suor, bile íntima ou ranho),

ou sofre (o amarelo de sentir triste,

de ser analfabeto, de existir aguado):

amarelo que no homem dali se adiciona

o que há em ser pântano, ser-se fardo.

Embora comum ali, esse amarelo humano

ainda dá na vista (mais pelo prodígio):

pelo que tardam a secar, e ao sol dali,

tais poças de amarelo, de escarro vivo.

Rios sem discurso

Quando um rio corta, corta-se de vez

o discurso-rio de água que ele fazia;

cortado, a água se quebra em pedaços,

em poços de água, em água paralítica.

Em situação de poço, a água equivale

a uma palavra em situação dicionária:

isolada, estanque no poço dela mesma,

e, porque assim estanque, estancada;,

e mais: porque assim estancada, muda,

e muda porque com nenhuma comunica,

porque cortou-se a sintaxe desse rio,

o fio de água por que ele discorria.

.

O curso de um rio, seu discurso-rio,

chega raramente a se reatar de vez;

um rio precisa de muito fio de água

para refazer o fio antigo que o fez.

Salvo a grandiloqüência de uma cheia

lhe impondo interina outra linguagem,

um rio precisa de muita água em fios

para que todos os poços se enfrasem:

se reatando, de um para outro poço,

em frases curtas, então frase e frase,

até a sentença-rio do discurso único

em que se tem voz a seca ele combate.

O sertanejo falando


A fala a nível do sertanejo engana:
as palavras dele vêm, como rebuçadas
(palavras confeito, pílula), na glace
de uma entonação lisa, de adocicada.
Enquanto que sob ela, dura e endurece
o caroço de pedra, a amêndoa pétrea,
dessa árvore pedrenta (o sertanejo)
incapaz de não se expressar em pedra.


2


Daí porque o sertanejo fala pouco:
as palavras de pedra ulceram a boca
e no idioma pedra se fala doloroso;
o natural desse idioma fala à força.
Daí também porque ele fala devagar:
tem de pegar as palavras com cuidado,
confeitá-la na língua, rebuçá-las;
pois toma tempo todo esse trabalho.

A educação pela pedra (João Cabral de Melo Neto)

A arquitetura da obra: as linhas estruturais básicas do livro

48 poemas distribuídos da seguinte maneira:

Nordeste (a)

12 poemas

Não-nordeste (b)

12 poemas

· 16 versos

3 x 8/8

3 x 6/10

3 x 10/6

3 x 8/8

Nordeste (A)

12 poemas

Não-Nordeste (B)

12 poemas

· 24 versos

3 x 12/12

3 x 8/16

3 x 16/8

3 x 12/12

Nordeste: motivos pernambucanos, crítica social

Não-Nordeste: temas diversos, Espanha, sátiras, reflexões

Palavras de João Cabral

· “Antes faço o plano do livro, decido o número de poemas, o tamanho, os temas. Crio a forma. Depois encho.”

· “A teoria da literatura sempre me impressionou mais do que a literatura propriamente dita”

· “Para mim, a poesia é uma construção, como uma casa. (...) A poesia é uma composição. Quando digo composição, quero dizer uma coisa construída, planejada — de fora para dentro. (...) Vou fazer uma poesia de tal extensão, com tais e tais elementos, coisas que eu vou colocando como se fossem tijolos. É por isso que eu posso gastar anos fazendo um poema: porque existe planejamento.

· “Nenhum poema meu ‘acontece’ ou ‘baixa’, como se diz. Essa excitação, que faz certos poetas registrarem ocorrências poéticas em determinadas circunstâncias, é, para mim, completamente inexistente ou tão fraca que nem me anima a pegar no lápis. Outra coisa: escrever para mim é trabalho braçal, e se eu não tiver um estímulo exterior qualquer, não levo o meu trabalho ao fim”.

Poemas escritos não sob o impulso de seus diferentes momentos de criação, mas em conformidade com os formatos previamente definidos pelo poeta.

A POÉTICA DE JCMN

· Avesso ao confessionalismo, obra centrada no objeto, se guia pela contenção e economia verbal

· Ordenação consciente dos elementos lingüísticos que se articulam no texto

· Poesia racional, construtivista, ausência de imagens abstratas

· Reflexões sobre a própria condição da poesia e do poeta (metalinguagem)

· Elevado grau de elaboração e consciência formal, disciplina intelectual

· Trabalho rigoroso da linguagem poética

· Discursividade lógica dos poemas que impede a leitura melódica, prosificação do verso

· Retomada de uma mesma composição através da permutação de versos e da tematização aproximada

· Recomposição dos poemas e pesquisa com a linguagem poética

· Teor descritivo-analítico dos versos, sequência de imagens, reiteração vocabular, aliterações secas e cortantes

· A poética se nutre da secura, da concretude e da construção

· A indagação sobre o fazer criativo e a compreensão da poesia são tão importantes quanto o exercício da criação

· Apresenta-se uma metáfora e depois discute-a, associa-a a outra, nega-a e reafirma-a: estilo francamente expositivo

· Obsessão pelo que existe fora do homem e não pelo que se esconde dentro dele

· Consciência crítica na construção de seus poemas:

O trabalho poético de João Cabral rompe com o mito da inspiração do escritor, associado tradicionalmente à criação do poema. A poesia não está no sentimento do poeta ou na beleza dos fatos a que se refere, mas na organização do texto, no rigor de sua construção. A subjetividade fica circunscrita aos dados objetivos do poema, pois se enfatizam os elementos da realidade através da contenção do lirismo, da busca de um tom impessoal e de um racionalismo radical.

ANTILIRA

O poeta não está preocupado com sua expressão individual. Pretende tornar o poema independente de sua visão individual, por isso apaga o ‘eu’ em favor do conhecimento objetivo da realidade, o que acentua o lado crítico de sua poética e as verdades sociais representadas no discurso lógico do poema. É uma forma de poesia que rompe com o extravasamento emotivo tradicional.

Poeta antilírico, que menospreza a espontaneidade, nega a inspiração e se diz inábil para a musicalidade.


A EDUCAÇÃO PELA PEDRA

APRENDIZAGEM DO POETA COM A PEDRA

LIÇÃO DO POETA AO LEITOR PELA PEDRA

· As lições: dicção, moral, poética e economia

· a resistência da pedra traduz o trabalho com a linguagem da poesia (poesia crítica e metalingüística)

· a despoetização surge como instrumento capaz de ensinar ao poeta como tratar de temas que lê nas paisagens nordestinas e espanholas

· enorme esforço de condensação

· a linguagem é a própria imitação do objeto a ser nomeado

· modo de relacionamento com a realidade, recusa do fácil e do fluido

PERMUTA DE VERSOS (verso permutacional, poemas permutacionais)

· Os mesmos versos podem estar presentes em mais de um poema

· tanto se mantém quanto se altera o sentido dos poemas

· jogo de desarticulação e rearticulação dos poemas

· manipulação de estruturas abertas, articuláveis, móveis, construídas com versos que podem ser destacados e recolocados em outro lugar, para compor novos arranjos

· reaproveitamento total ou parcial dos versos

· poesia que nasce da matemática, da geometria, da sujeição da sensibilidade ao projeto do livro

· as palavras são repetidas e deslocam-se de um poema para outro, são um dado concreto a ser trabalho pelo escritor e também pelo leitor



Vejam esse vídeo, dividido em duas partes pequenas, em que escritores e artistas como Verissimo e Chico Buarque falam sobre João Cabral. Finíssimo !

Selecionem o endereço e colem em seus navegadores:

http://br.youtube.com/watch?v=Pc7mSYhPApI



http://br.youtube.com/watch?v=honRyFrjR_E&feature=related

Trechos de "O burrinho pedrês" e "Sarapalha" (Guimarães Rosa)

O BURRINHO PEDRÊS

"E, ao meu macho rosado,

carregado de algodão,

preguntei: p'ra donde ia?

P'ra rodar no mutirão."

(VELHA CANTIGA, SOLENE, DA ROÇA.)

ERA UM BURRINHO PEDRÊS, miúdo e resignado, vindo

de Passa-Tempo, Conceição do Serro, ou não sei onde no

sertão. Chamava-se Sete-de-Ouros, e já fora tão bom, como

outro não existiu e nem pode haver igual.

(...)

Mas nada disso vale fala, porque a estória de um burrinho,

como a história de um homem grande, é bem dada no resumo de um só dia de sua vida. E a existência de Sete-deOuros cresceu toda em algumas horas - seis da manhã à

meia-noite - nos meados do mês de janeiro de um ano de

grandes chuvas, no vale do Rio das Velhas, no centro de

Minas Gerais.

(...)

Enfarado de assistir a tais violências, Sete-de-Ouros fecha

os olhos. Rosna engasgado. Entorna o frontispício. E, cabisbaixo, volta a cochilar. Todo calma, renúncia e força não

usada. O hálito largo. As orelhas peludas, fendidas por

diante, como duas mal enroladas folhas secas. A modorra,

que o leva a reservatórios profundos. As castanhas incompletas das pernas. As imponentes ganachas. E o estreme

alheamento de animal emancipado, de híbrido infecundo,

sem sexo e sem amor.

(...)

E Sete-de-Ouros, que sabia do ponto onde se estar mais

sem tumulto, veio encostar o corpo nos pilares da varanda.

Deu de cabeça, para lamber, veloz, o peito, onde a cauda não

alcançava. Depois, esticou o sobrebeiço em toco de tromba

e trouxe-o ao rés da poeira, soprando o chão.

Mas tinha cometido um erro. O primeiro engano seu nesse dia. O equívoco que decide do destino e ajeita caminho à

grandeza dos homens e dos burros. Porque: "quem é visto

é lembrado", e o Major Saulo estava ali:

- Ara, veja, louvado tu seja! Hô-hô... Meu compadre

Sete-de-Ouros está velho ... Mas ainda pode agüentar uma

viagem, vez em quando ... Arreia este burro também,

Francolim!

- Sim, senhor, seu Major. Mas, o senhor está falando

sério, ou é por brincar?

- Me disseram que isto é sério. Fecha a cara, Francolim!

Com a risada do Major, Sete-de-Ouros velou os olhos,

desgostoso, mesmo sem saber que eram donas de duras as

circunstâncias. Francolim viera contar que não havia montadas que chegassem: abrira-se um rombo na cerca do fundo

do pasto-do-açude, por onde quase toda a cavalhada varara

durante a noite; a esta hora, já teriam vadeado o córrego e

descambado a serra, e andariam longe, certo no Brejal, lambendo a terra sempre úmida do barreiro, junto com os bichos do campo e com os bichos do mato.

(...)

- Ara viva! Está na hora, João Manico meu compadre.

Você e o burrinho vão bem, porque são os dois mais velhos

e mais valentes daqui... Convém mais você ir indo atrás,

à toa. Deixa para ajudar na hora do embarque ... E o Sete-de-Ouros é velho, mas é um burro bom, de gênio ... Você

não sabe que um burro vale mais do que um cavalo, Manico? ...

- Compadre seô Major, para se viajar o dia inteiro, em

marcha de estrada, estou mesmo com o senhor. Mas, para

tocar boiada, eh, Deus me livre que eu quero um burrinho assim! ...

Canções:

"O Curvelo vale um conto,

Cordisburgo um conto e cem.

Mas as Lages não têm preço,

Porque lá mora o meu bem. .. "

(...)

"Um boi preto, um boi pintado,

cada um tem sua cor.

Cada coração um jeito

de mostrar o seu amor."

Boi bem bravo, bate baixo, bota baba, boi berrando...

Dança doido, dá de duro, dá de dentro, dá direito ... Vai,

vem, volta, vem na vara, vai não volta, vai varando ...

"Todo passarinh' do mato

tem seu pio diferente.

Cantiga de amor doído

não carece ter rompante... "

(...)

"Chove, chuva, choverá,

Santa Clara a clarear

Santa Justa há-de justar

Santo Antônio manda o sol

P'ra enxugar o meu lençol... "

(...)

E certo: Sete-de-Ouros dava para trás, incomovível, desaceitando argumentos e lambadas de piraí. Que, também,

burro que se preza não corre desembestado, como um qualquer cavalo, a não ser na vez de justa pressa, a serviço do

rei ou em caso de sete razões. E já bastante era a firmeza

com que se escorava nas munhecas, sem bambeio nem falseio

- ploque-plofe, desferrado - ganhando sempre a melhor

trilha.

(...)

- Escuta uma pergunta séria, meu compadre João Manico: você acha que burro é burro?

- Seô Major meu compadre, isso até é que eu não acho

não. Sei que eles são ladinos demais ...

Bem que Sete-de-Ouros se inventa, sempre no seu. Não

a praça larga do claro, nem o cavouco do sono: só um remanso, pouso de pausa, com as pestanas meando os olhos, o

o mundo de fora feito um sossego, coado na quase-sombra

e, de dentro, funda certeza viva, subida de raiz; com as orelhas -

espelhos da alma - tremulando, tais ponteiros de

quadrante, aos episódios para a estrada, pela ponte nebulosa

por onde os burrinhos sabem ir, qual a qual, sem conversa,

sem perguntas, cada um no seu lugar, devagar, por todos os

séculos e seculórios, mansamente amém.

(...)

Enquanto isso tudo, na coberta do Reynéro, ali perto,

afrouxadas as barrigueiras e tirados os freios, os cavalos descansavam. Longe dos outros, deixado num extremo, no canto

mais escuro e esquerdo do telheiro, Sete-de-Ouros estava.

Só e sério. Sem desperdício, sem desnorteio, cumpridor de

obrigação, aproveitava para encher, mais um trecho, a infinda lingüiça da vida.

De repente, na mata resseca do sonho, crepitou e chamejou o barulho: houve homens, indesejados, se mexendo,

como bichos-de-queijo na boa espessura do silêncio. Eram os

vaqueiros, voltando, em busca dos animais seus. Chegaram,

montaram, saíram. Penúltimo, Silvino, pegando o amarilho

crinudo; último, João Manico, pondo mão no poldro pampa;

rindo e falando, muito, os dois. Com o que, no prazo de

um bom coice, e a não ser pelo mulo mísero Sete-de-Ouros,

ficou vazio o galpão. Era uma vez, era outra vez, no umbigo

do mundo, um burrinho pedrês.

(...)

- Eh, meu velho, coitado, que trapalhada! Estou doente, dei na fraqueza, com este miolo meu zanzando, descolado

da cabeça ... Muito doente ... Estou com medo de morrer

hoje ... Mas, se você fosse mais leve, compadre, eu era

capaz de te carregar! ...

- Veio com o como cheio... Está bêbado que nem

gambá.

- Ei, Silvino, por que é que você está chegando para

perto do Badu, aí no escuro, coisa que você não deve de

fazer?! Não consinto, não está direito, por causa que vocês

estão brigados, e ainda mais agora, que o outro está tão

bêbado assim!

- Tu arrepende essa boca, Francolim! filho de outra.

Desarreganha, sai por embaixo! ... Eu vou aonde eu

quero! ...

- João, corta pau! João, corta pau!

- Não adianta bufar que nem tigre, Silvino, que eu

estou falando de paz, só na lei, no nome de seu Major!

- Não é caso de briga, Silvino, porque alguma razão

Francolim tem.

- Alguma, não! Razão inteira, porque estou representando seu Major, por ordem dele, e meu revólver pode parir

cinco filhotes, para mamarem no couro de quem trucar defalso!

- Deixa de valentia boba, Francolim!

- Juízo, gente! Olha o burro ...

Sete-de-Ouros parara o chouto; e imediatamente mente tomou

conhecimento da aragem, do bom e do mau: primeiro, orelhas firmes, para cima - perigo difuso, incerto; depois, as

orelhas se mexiam, para os lados - dificuldade já sabida,

bem posta no seu lugar. E ficou. A treva era espessa, e um

burro não é gato e nem cobra, para querer enxergar no escuro. Ele não espiava, não escutava. Esperava qualquer coisa.

(...)

Mas um rebojo sinuoso separou-os todos. O córrego crispou uma sístole violenta. E ninguém pôde mais acertar

caminho.

Se Badu estivesse um pouco menos bêbado, teria sido

mais prudente: seu a seu, porém, sentindo o frio duro nas

coxas, apenas se agarrou, com força, ao burrinho.

- Ei, aguão! ...

Pendeu demais, seguras as mãos na crina. Cabeceou e

molhou a cara. Cuspiu. Vai, vai, que o burrinho avançava.

- Te vi, meu velho! O mundo está se acabando em melado! ... - e rogou uma praga imoral, porque os gorgolões

lhe repassavam cócegas no queixo, e tinha cãibras nas barrigas-das-pernas, tudo no desconforto de cruzar a cavalo um

rio fundo, sem ter firmeza nenhuma, pois a água, por si

sozinha, levanta o cavaleiro da sela, e o mesmo seria estar

sentado numa plasta de angu mole.

- Ai, meu Deus, que nem beber não posso, que só disse

copo e meio em antes, garrafa e meia ao depois! ... Vam'embora, burro meu!

Contra o dito, sem porquê, bom e melhor que Badu estava como estava, que para córrego cheio mais vale homem

muito ébrio, em cima de burro mui lúcido.

(...)

Vestindo água, só saído o cimo do pescoço, o burrinho

tinha de se enqueixar para o alto, a salvar também de fora

o focinho. Uma peitada. Outro tacar de patas. Chu-áa!

Chu-áa... - ruge o rio, como chuva deitada no chão. Nenhuma pressa! Outra remada, vagarosa. No fim de tudo, tem

o pátio, com os cochos, muito milho, na Fazenda; e depois

o pasto: sombra, capim e sossego... Nenhuma pressa.

Aqui, por ora, este poço doido, que barulha como um fogo,

o faz medo, não é novo: tudo é ruim e uma só coisa, no

caminho: como os homens e os seus modos, costumeira confusão. É só fechar os olhos. Como sempre. Outra passada,

na massa fria. E ir sem afã, à voga surda, amigo da água,

bem com o escuro, filho do fundo, poupando forças para o

fim. Nada mais, nada de graça; nem um arranco, fora de

hora. Assim.

(...)

Alguém que ainda pelejava, já na penúltima ânsia e farto

de beber água sem copo, pôde alcançar um objeto encordoado que se movia. E aquele um aconteceu ser Francolim

Ferreira, e a coisa movente era o rabo do burrinho pedrês.

E Sete-de-Ouros, sem susto a mais, sem hora marcada, soube

que ali era o ponto de se entregar, confiado, ao querer da

correnteza. Pouco fazia que esta o levasse de viagem, muito

para baixo do lugar da travessia. Deixou-se, tomando tragos

de ar. Não resistia. Badu, resmungava -más palavras, sem

saber que Francolim se vinha agüentando atrás, firme na

cauda do burro. Aí, nesse meio-tempo, três pernadas pachorrentas e um fio propício de corredeira levaram Sete-de-Ouros

ao barranco de lá, agora reduzido a margem baixa, e ele

tomou terra e foi trotando. Quando estacou, sim, que não

havia um dedo de água debaixo dos seus cascos. E, ao fazer

alto, despediu um mole meio-coice. Francolim - a pé, safo.

Badu agora dormia de verdade, sempre agarrado à crina.

Mas Sete-de-Ouros não descansou. Retomou a estrada, e, já

noite alta, quando chegaram à Fazenda, ele se encostou, bem

na escada da varanda, esperando que o vaqueiro se resolvesse

a descer. Ao fim de um tempo, o cavaleiro acordou. Bradou

nomes feios, e começou a cantar um ferra-fogo - dança

velha, que os negros tinham de entoar em coro, fazendo de

orquestra para o baile dos senhores, no tempo da escravidão.

Aí, os camaradas que dormiam no paiol grande despertaram

com a algazarra, vieram desmontá-lo, e carregaram com ele,

para curtir a bebedeira num jirau. Depois, desarrearam o

burrinho.

Folgado, Sete-de-Ouros endireitou para a coberta. Farejou o cocho. Achou milho. Comeu. Então, rebolcou-se, com

as espojadelas obrigatórias, dançando de patas no ar e esfregando as costas no chão. Comeu mais. Depois procurou um

lugar qualquer, e se acomodou para dormir, entre a vaca

mocha e a vaca malhada, que ruminavam, quase sem bulha,

na escuridão.

SARAPALHA

"Canta, canta, canarinho, ai, ai, ai ...

Não cantes fora de hora, ai, ai, ai ...

A barra do dia aí vem, ai, ai, ai ...

Coitado de quem namora!..."

(O TRECHO MAIS ALEGRE, DA CANTIGA

MAIS ALEGRE, DE UM CAPIAU BEIRA-RIO.)

(...)

Manhãzinha fria. Quando os dois velhos - que não são

velhos - falam, sai-lhes da boca uma baforada branca, como

se estivessem pitando. Mas eles ainda não tremem: frio mesmo frio vai ser d'aqui a pouco.

Há mais de duas horas que estão ali assentados, em silêncio, como sempre. Porque, faz muito tempo, entra ano e

sai ano, é toda manhã assim. A preta vem com os gravetos

o a lenha. Os dois se sentam no cocho, Primo Argemiro da

banda do rio, Primo Ribeiro do lado do mato. A preta acende o foguinho. O cachorro corre, muitas vezes, até lá na

tranqueira, depois se chega também cá para perto. A preta

traz café e cachaça com limão. Primo Argemiro sopra os

tições e ajunta as brasas. E, um pouco antes ou um pouco

depois do sol, que tem um jeito de aparecer sempre bonito

o sempre diferente, Primo Ribeiro diz:

- Ei, Primo, aí vem ela ...

- Danada! ...

- Olh'ele aí ... o friozinho nas costas ...

E quando Primo Ribeiro bate com as mãos nos bolsos,

é porque vai tomar uma pitada de pó. E quando Primo Argemiro estende a mão, é pedindo o comimboque. E quando

qualquer dos dois apóia a mão no cocho, é porque está sentindo falta-de-ar.

E a maleita é a "danada";- "coitadinho" é o perdigueiro;

"eles", a gente do povoado, que não mais existe no povoado;

e "os outros" são os raros viajantes que passam lá em-baixo

porque não quiseram ou não puderam dar volta para pegar

a ponte nova, e atalham pelo vau.

(...)

- Primo Ribeiro, o senhor gosta d'aqui? ...

- Que pergunta! Tanto faz... É bom, p'ra se acabar

mais ligeiro... O doutor deu prazo de um ano... Você

lembra?

- Lembro! Doutor apessoado, engraçado... Vivia atrás

dos mosquitos, conhecia as raças lá deles, de olhos fechados,

só pela toada da cantiga... Disse que não era das frutas

e nem da água... Que era o mosquito que punha um bichinho amaldiçoado no sangue da gente... Ninguém não

acreditou... Nem o arraial. Eu estive lá, com ele...

- Primo Argemiro, o que adianta...

. . . E então ele ficou bravo, pois não foi? Coineu

goiaba, comeu melancia da beira do rio, bebeu água do Pará,

e não teve nada...

- Primo Argemiro.. .

.. Depois dormiu sem cortinado, com janela aberta... Apanhou a intermitente; mas o povo ficou acreditando...

(...)

- Eu acho até que é bom falar. Quem sabe ... Assim

ao menos, não fica roendo, doendo dentro da gente ...

- É mesmo. P''ra desacochar. Eu nem sei como o sen

não morreu, quando ...

- Chorei no escondido. Agora não me importo

contar.

- Ela foi uma ingrata, não foi, Primo Ribeiro?. .

a penando por aí à toa. Agora, o tal, esse... Mesmo

ente e assim acabado, eu ainda havia de ...

- Sossega, Primo Ribeiro. Levanta os braços: o senhor

á botando sangue pelo nariz ...

- É de ficar com a cabeça abaixada. Já, já, passa.

- É não. É da doença...

- Já, já, passa.

- Ai, Primo Ribeiro, por que foi que o senhor não me

xou ir atrás deles, quando eles fugiram? Eu matava o

mem e trazia minha prima de volta p'ra trás ...

- P'ra que, Primo Argemiro? Que é que adiantava?.. .

não podia ficar com ela mais ... Na hora, quando a MaPreta me deu o recado dela se despedindo, mandando dique ia acompanhar o outro porque gostava era dele e

gostava mais de mim, eu fiquei meio doido ... Mas

quis ir atrás, não ... Tive vergonha dos outros ... To-o-mundo já sabia ... E, ela, eu tinha obrigação de matambém, e sabia que a coragem p'ra isso havia de fal... Também, nesse tempo, a gente já estava amaleitados,

s não estava? ... Foi bom a sezão ter vindo, Primo Argero, p'ra isto aqui virar um ermo e a gente poder ficar mais

inhos ... Ai, Primo, mas eu não sei o que é que eu tenho

e, que não acerto um jeito de poder tirar a idéia dela...

mundo! ...

(...)

Bem que havia de ser razoável ter podido ao menos dizer a prima que ela era o seu amor ... Porque, assim, tinha

fugido sem saber, sem desconfiar de nada ... Mas ele nunca

pensara em fazer um malfeito daqueles, ainda mais morando

na casa do marido, que era seu parente... Isso não! Queria

só viver perto dela ... Poder vê-Ia a todo instante ...

E Primo Ribeiro nunca tinha posto maldade ... Também, que é que havia, para ele poder maldar? ... Nada...

Só, Uma vez, debaixo das jabuticabeiras ... Nesse dia, quase

que perdera a força de ser correto. Viu-a de vestido azul-domar ... Os braços cor de jenipapo ... As mãos deviam de

ser macias ... Mas Deus ajudou, tirando-lhe a coragem...

Também, se tivesse faltado com o respeito à mulher do Primo Ribeiro, teria sumido no mundo, na mesma da hora,

com remorso ...

(...)

... Não adiantou ter sido tão direito ... Se ele, Primo

Argemiro, tivesse tido coragem ... Se tivesse sido mais esperto ... Talvez ela gostasse ... Podia ter querido fugir

com ele; o boiadeiro ainda não tinha aparecido ... Agora,

ela havia de se lembrar, achando que era um pamonha, um

homem sem decisão ... E, no entanto, viera para a fazenda

só por causa dela ... Primo Ribeiro não punha malícia em

coisa nenhuma ... Sim, os dois tinham sido bem tolos, só o

homem de fora era quem sabia lidar com mulher! ...

Não! Fez bem. Era a mesma coisa que crime! ... Nem é

bom pensar nisso ... Amanhã ele vai ao capoeirão, tirar mel

de irussu para o Primo Ribeiro ... Deus que livre a gente

desses maus pensamentos! ... Primo Ribeiro vai ficar satisfeito: ele gosta de mel do mato, com farinha ... Primo Ribeiro vai ter sua alegriazinha... - P'ra que é que há-de

haver mulher no mundo, meu Deus?! ...

(...)

Estremecem, amarelas, as flores da aroeira. Há um frêmito nos caules rosados da erva-de-sapo. A erva-de-anum

crispa as folhas, longas, como folhas de mangueira. Trepidam, sacudindo as suas estrelinhas alaranjadas, os ramos da

vassourinha. Tirita a mamona, de folhas peludas, como o

corselete de um cassununga, brilhando em verde-azul. A pitangueira se abala, do jarrete à grimpa. E o açoita-cavalos

derruba frutinhas fendilhadas, entrando em convulsões.

- Mas, meu Deus, como isto é bonito! Que lugar bonito p'r'a gente deitar no chão e se acabar! ...

É o mato, todo enfeitado, tremendo também com a sezão.