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17 de novembro de 2007

Trechos selecionados de Jóias de família (Zulmira Ribeiro tavares)

Maria Bráulia Munhoz, no nono andar de seu apartamento no Itaim Bibi, prepara-se para o almoço. A mesa está posta para duas pessoas: ela e o sobrinho. A toalha sobre a mesa redonda, pequena, é de linho branco adamascado e no centro há um lago também redondo e pequeno, de espelho. Sobre a superfície de espelho pousa um cisne de Murano.

Maria Bráulia – de velhice definida mas idade não declarada, com movimentos seguros e rápidos, acompanhados de tapinhas, faz aderir ao rosto o seu segundo rosto, o “social”, de pele entre rosa e o marfim, boca e face rosadas. Os cílios com rímel espevitam o azul dos olhos e atiçam o amarelo pintado dos cabelos. Com o rosto social mais uma vez encenado, o outro, o estritamente particular, recua, como acontece todas as manhãs, e é esquecido imediatamente por sua dona. Um rosto que de tão pouco visto por terceiros adquire a mesma modéstia do corpo murcho, e assim, trazê-lo á luz do dia, sustentá-lo sobre o pescoço como se fosse a coisa mais natural do mundo ( o que vem aliás exatamente a ser), exibi-lo para algum outro, ainda que muito íntimo, como o sobrinho, lhe pareceria um ao da mais absoluta e indesculpável falta de pudor.

Julião Munhoz finalmente chama o elevador e logo mais se encontra pisando terra firme, o solo do Itaim-Bibi. Nove andares o separam do apartamento 91. longe está da pequena mesa redonda paralisada no ar, lá no alto; do cisne de Murano no centro, deslizando tão velozmente através dos muitos anos de fartura vividos por Maria Bráulia Munhoz, com o majestoso porte perfilando-se na superfície polida do lago de espelho, que nem parece sair do lugar. Longe está Maria Preta, que ora olha de baixo para cima, ora de cima para baixo, conforme as circunstâncias. Por isso seu rosto não se memoriza com facilidade e até nas fotografias dos álbuns da família Munhoz tem-se a dificuldade em fixá-lo (...).

As mentiras de Maria Bráulia, como as de todos bem-sucedidos e experimentados mentirosos, geralmente não são formadas de uma só peça, contêm vários elementos, e sob esse aspecto pode-se observar nelas alguma semelhança com os rubis falsos ou semi-falsos em montagens do tipo doublets e triplets.

(...) os que sofrem a ação da mentira, tanto quanto os que as inventam, mentem também para si mesmos e defendem-se dos efeitos devastadores da verdade inoculando em si próprios, regularmente, pequenas doses de ilusão.

Por que não usa a cópia, o anel com o rubi de imitação? Ah, bem, o anel de imitação nunca existira! Havia sido a maneira que o Munhoz arranjara para proteger uma gema tão rara. Acaso ela era mulher de andar com pedrinha de vidro colorido no dedo? Tinha graça! — E se com o correr dos anos a história sobre o anel de imitação falso caiu completamente no esquecimento, a existência de um anel verdadeiro com um puríssimo rubi sangue-de-pombo engastado, nunca. Tornou-se aos poucos uma gema lendária na crônica sobre as jóias da família.

As gemas raras devem ser engastadas nas jóias com o mesmo cuidado com que estas se engastam na linhagem de uma família, havia dito ainda o joalheiro Marcel para seus anfitriões um dia — quando jantavam apenas os três ao redor da pequena mesa redonda — olhando alternadamente do juiz Munhoz para o cisne de Murano.

É muito tarde. Várias cabeças rolaram. Umas fora da vida, outras nos travesseiros. Só a do cisne de Murano permanece erguida. A madrugada chega. As cortinas estão afastadas e de fora avança a luz branquicenta descendo na sala. Empresta ao cisne de Murano a qualidade macia do que é de carne e de penas ao mesmo tempo que lhe rouba a aparência de vida emprestada; tão descorado se acha quanto um frango de pescoço torcido sem pinga de sangue. Estarrece por afrontar as leias da natureza e os costumes dos homens. Um defuntinho de pé.

Um comentário:

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