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13 de julho de 2008

Poemas de Carlos Drummond de Andrade (UNIFEI) com comentários

Poemas de Carlos Drummond de Andrade - UNIFEI

Confidência do itabirano

Alguns anos vivi em Itabira.

Principalmente nasci em Itabira.

Por isso sou triste, orgulhoso: de ferro.

Noventa por cento de ferro nas calçadas.

Oitenta por cento de ferro nas almas.

E esse alheamento do que na vida é porosidade e comunicação.


A vontade de amar, que me paralisa o trabalho,

vem de Itabira, de suas noites brancas, sem mulheres e sem horizontes.

E o hábito de sofrer, que tanto me diverte,

é doce herança itabirana.


De Itabira trouxe prendas que ora te ofereço:

este São Benedito do velho santeiro Alfredo Duval;

este couro de anta, estendido no sofá da sala de visitas;

este orgulho, esta cabeça baixa...


Tive ouro, tive gado, tive fazendas.

Hoje sou funcionário público.

Itabira é apenas uma fotografia na parede.

Mas como dói!

Comentário:

Para a interpretação desse poema, valem aquelas idéias discutidas em sala, em relação a como a voz poética da poesia drummondiana reflete sobre suas origens. O “ferro” representa uma idéia de dureza física e emocional, por isso a ironia da voz poética em falar que o hábito de sofrer é doce herança itabirana. A última estrofe demonstra, ao mesmo tempo, amargura e alívio, por não “herdar” gado, ouro e fazendas, e ser um reles funcionário público. Notem o ar de nostalgia do poema, mesclado à fina ironia de Drummond, quando confere uma dimensão metafísica para a fotografia: algo inerte, paralisado, mas movediço dentro do ser — ela simboliza a memória. Na verdade, não é a fotografia que dói, mas essa mesma nostalgia, e o sentimento de saber-se fechado, recluso e alheio ao mundo, orgulhoso, mas de ter a certeza de pertencer a ele. Por isso o tom irônico é fundamental para a composição do poema.

JOSÉ
E agora, José?

A festa acabou,

a luz apagou,

o povo sumiu,

a noite esfriou,

e agora, José?

e agora, você?

você que é sem nome,

que zomba dos outros,

você que faz versos,

que ama protesta,

e agora, José?


Está sem mulher,

está sem discurso,

está sem carinho,

já não pode beber,

já não pode fumar,

cuspir já não pode,

a noite esfriou,

o dia não veio,

o bonde não veio,

o riso não veio,

não veio a utopia

e tudo acabou

e tudo fugiu

e tudo mofou,

e agora, José?


E agora, José?

Sua doce palavra,

seu instante de febre,

sua gula e jejum,

sua biblioteca,

sua lavra de ouro,


seu terno de vidro,

sua incoerência,

seu ódio - e agora?


Com a chave na mão

quer abrir a porta,

não existe porta;

quer morrer no mar,

mas o mar secou;

quer ir para Minas,

Minas não há mais.

José, e agora?


Se você gritasse,

se você gemesse,

se você tocasse

a valsa vienense,

se você dormisse,

se você cansasse,

se você morresse…

Mas você não morre,

você é duro, José!


Sozinho no escuro

qual bicho-do-mato,

sem teogonia,

sem parede nua

para se encostar,

sem cavalo preto

que fuja a galope,

você marcha, José!

José, pra onde?

Comentário:

Esse poema levaria uma aula inteira para ser discutido, mas brevemente falando, “José” é a metonímia do ser humano comum, que marcha pela vida sem encontrar destino e sentido para tal marcha. Esse é um poema exemplar que revela a preocupação metafísica da poesia de Drummond. Notem que há uma gradação no poema: à medida que a leitura avança, a marcha e a procura de José tornam-se mais sem sentido. A idéia da negação percorre os versos, e a pergunta “e agora, José?” serve precisamente para acentuar a falta de respostas para qualquer indagação sobre a existência. Reparem como há um sentimento de solidão enorme que deixa José isolado e, aparentemente, sem alternativas. Destacam-se a noite, a escuridão, a falta, o fim, e os versos “quer ir para Minas,/Minas não há mais./ José, e agora? ” demonstram novamente a idéia da origem perdida e da dificuldade de lidar com a falta de sentido aparente para a existência absurda, recorrentes na obra de Drummond.

Hino nacional

Precisamos descobrir o Brasil!

Escondido atrás as florestas,

com a água dos rios no meio,

o Brasil está dormindo, coitado.

Precisamos colonizar o Brasil.


O que faremos importando francesas

muito louras, de pele macia,

alemãs gordas, russas nostálgicas para

garçonetes dos restaurantes noturnos.

E virão sírias fidelíssimas.

Não convém desprezar as japonesas...


Precisamos educar o Brasil.

Compraremos professores e livros,

assimilaremos finas culturas,

abriremos dancings e subvencionaremos as elites.


Cada brasileiro terá sua casa

com fogão e aquecedor elétricos, piscina,

salão para conferências científicas.

E cuidaremos do Estado Técnico.


Precisamos louvar o Brasil.

Não é só um país sem igual.

Nossas revoluções são bem maiores

do que quaisquer outras; nossos erros também.

E nossas virtudes? A terra das sublimes paixões...

os Amazonas inenarráveis... os incríveis João-Pessoas...


Precisamos adorar o Brasil!

Se bem que seja difícil compreender o que querem esses homens,

por que motivo eles se ajuntaram e qual a razão

de seus sofrimentos.


Precisamos, precisamos esquecer o Brasil!

Tão majestoso, tão sem limites, tão despropositado,

ele quer repousar de nossos terríveis carinhos.

O Brasil não nos quer! Está farto de nós!

Nosso Brasil é no outro mundo. Este não é o Brasil.

Nenhum Brasil existe. E acaso existirão os brasileiros?

Eduardo Alves da Costa

Quanto a mim, sonharei com Portugal

Às vezes, quando

estou triste e há silêncio

nos corredores e nas veias,

vem-me um desejo de voltar

a Portugal. Nunca lá estive,

é certo, como também

é certo meu coração, em dias tais,

ser um deserto.

Comentário:

Para analisar esse poema, basta lê-lo percebendo a ironia dos versos. Portugal representa a origem colonial, e o poema nada mais é do que uma sátira à dependência cultural e econômica nacional. Os versos “o Brasil está dormindo, coitado./Precisamos colonizar o Brasil”sugerem uma riqueza ainda inexplorada, latente, adormecida em nosso país. Numa questão de redação, esse poema pode muito bem ser relacionado a um texto que aborda as peculiaridades brasileiras, ou críticas à economia e à sociedade.

Poema de sete faces

Quando nasci, um anjo torto

desses que vivem na sombra

disse: Vai, Carlos! ser gauche na vida.

As casas espiam os homens

que correm atrás de mulheres.

A tarde talvez fosse azul,

não houvesse tantos desejos.


O bonde passa cheio de pernas:

pernas brancas pretas amarelas.

Para que tanta perna, meu Deus, pergunta meu coração.

Porém meus olhos

não perguntam nada.


O homem atrás do bigode

é sério, simples e forte.

Quase não conversa.

Tem poucos , raros amigos

o homem atrás dos óculos e do bigode.


Meu Deus, por que me abandonaste

se sabias que eu não era Deus

se sabias que eu era fraco.


Mundo mundo vasto mundo

se eu me chamasse Raimundo,

seria uma rima, não seria uma solução.

Mundo mundo vasto mundo,

mais vasto é meu coração.

Eu não devia te dizer
mas essa lua
mas esse conhaque
botam a gente comovido como o diabo.

Comentário:

Outro poema que levaria tempo para analisar, de tão fundamental que é na obra de Drummond. Ele começa com a predestinação da voz poética a ser “gauche”, diferente, avesso às normas do mundo, estranho e socialmente desconexo. O anjo responsável pelo anúncio é ironicamente um anjo das trevas (temam!), torto, assim como a voz poética. Cada uma das sete estrofes revela uma das faces do poeta, que se sente totalmente fragmentado no mundo. A intertextualidade com a passagem bíblica da crucificação de Cristo, presente nos versos “Meu Deus, por que me abandonaste/se sabias que eu não era Deus/se sabias que eu era fraco”, demonstra um relativo deboche em relação à própria solidão, segundo sugere a última estrofe, em que se atribui a comoção e o sentimentalismo ao conhaque e à lua. Da mesma forma, a conhecida estrofe “Mundo mundo vasto mundo/se eu me chamasse Raimundo,/seria uma rima, não seria uma solução./Mundo mundo vasto mundo,/mais vasto é meu coração” mostra como a poesia não é uma solução final para a vida, mas é imprescindível, uma vez que o coração, o sentimento, é maior que a materialidade do mundo.

Infância

A Abgar Renault

Meu pai montava a cavalo, ia para o campo.

Minha mãe ficava sentada cosendo.

Meu irmão pequeno dormia.

Eu sozinho menino entre mangueiras.

lia a história de Robinson Crusoé,

comprida história que não acaba mais.

No meio-dia branco de luz uma voz que aprendeu

a ninar nos longes da senzala - nunca se esqueceu

chamava para o café.

Café preto que nem a preta velha

café gostoso

café bom.

Minha mãe ficava sentada cosendo

olhando para mim:

- Psiu...Não acorde o menino.

- Para o berço onde pousou um mosquito.

E dava um suspiro...que fundo!

Lá longe meu pai campeava

no mato sem fim da fazenda.

E eu não sabia que minha história

era mais bonita que a de Robinson Crusoé.

Comentário:

Mais uma vez o sentimento de origem e a nostalgia, mostradas em “E eu não sabia que minha história/era mais bonita que a de Robinson Crusoé”. Notem a descrição do passado rural e do provincianismo brasileiros, através da retratação do cotidiano da própria família, que podem ser contrastados com a modernização imposta pelo trem de ferro que virá mais à frente.

Hipótese

E se Deus é canhoto

e criou com a mão esquerda?

Isso explica, talvez, as coisas deste mundo.

Comentário:

Um pequeno poema irônico sobre a idéia do “gauche”, que pode ser traduzido também por “esquerdo”. Notem o destaque dado para o descompasso das “coisas deste mundo”, um mundo errado, confuso e estranho para a voz poética. Pode-se fazer diversas abordagens com esse poema também numa questão aberta ou fechada: a recorrência do “gauchismo”, a crítica social e a aparente impossibilidade de adequar a existência “torta” da voz poética ao mundo.

Homem livre

Atanásio nasceu com seis dedos em cada mão.

Cortaram-lhe os excedentes.

Cortassem mais dois, seria o mesmo

admirável oficial de sapateiro, exímio seleiro.

Lombilho que ele faz, quem mais faria?

Tem prática de animais, grande ferreiro.

Sendo tanta coisa, nasce escravo,

o que não é bom para Atanásio e para ninguém.

Então foge do Rio Doce.

Vai parar, homem livre, no Seminário de Diamantina,

onde é cozinheiro, ótimo sempre, esse Atanásio.

Meu parente Manuel Chassim não se conforma.

Bota anúncio no Jequitinhonha, explicadinho:

Duzentos mil-réis a quem prender crioulo Atanásio.

Mas quem vai prender homem de tantas qualidades?

Comentário:

Poema de forte conotação social, que critica ao mesmo tempo a escravidão e a atitude do parente em tentar reaver o escravo fugido, para sugerir a ligação que a sociedade brasileira ainda mantém com a idéia da obrigação ao servilismo por parte dos menos favorecidos.

Prece do brasileiro

Meu Deus,

só me lembro de vós para pedir,

mas de qualquer modo sempre é uma lembrança.

Desculpai vosso filho, que se veste

de humildade e esperança

e vos suplica: Olhai para o Nordeste

onde há fome, Senhor, e desespero

rodando nas estradas

entre esqueletos de animais.

Em Iguatu, Parambu, Baturité,

Tauá
(vogais tão fortes não chegam até vós?)

vede as espectrais

procissões de braços estendidos,

assaltos, sobressaltos, armazéns

arrombados e – o que é pior – não tinham nada.

Fazei, Senhor, chover a chuva boa,

aquela que, florindo e reflorindo, soa

qual cantata de Bach em vossa glória

e dá vida ao boi, ao bode, à erva seca,

ao pobre sertanejo destruído

no que tem de mais doce e mais cruel:

a terra estorricada sempre amada.

Fazei chover, Senhor, e já! numa certeira

ordem às nuvens. Ou desobedecem

a vosso mando, as revoltosas? Fosse eu Vieira

(o padre) e vos diria, malcriado,

muitas e boas... mas sou vosso fã

omisso, pecador, bem brasileiro.

Comigo é na macia, no veludo/lã

e matreiro, rogo, não

ao Senhor Deus dos Exércitos (Deus me livre)

mas ao Deus que Bandeira, com carinho

botou em verso: “meu Jesus Cristinho”.

E mudo até o tratamento: por que vós,

tão gravata-e-colarinho, tão

vossa excelência?

O você comunica muito mais

e se agora o trato de você,

ficamos perto, vamos papeando

como dois camaradas bem legais,

um, puro; o outro, aquela coisa,

quase que maldito

mas amizade é isso mesmo: salta

o vale, o muro, o abismo do infinito.

Meu querido Jesus, que é que há?

Faz sentido deixar o Ceará

sofrer em ciclo a mesma eterna pena?

E você me responde suavemente:

Escute, meu cronista e meu cristão:

essa cantiga é antiga

e de tão velha não entoa não.

Você tem a Sudene abrindo frentes

de trabalho de emergência, antes fechadas.

Tem a ONU, que manda toneladas

de pacotes à espera de haver fome.

Tudo está preparado para a cena

dolorosamente repetida

no mesmo palco. O mesmo drama, toda vida.

No entanto, você sabe,

você lê os jornais, vai ao cinema,

até um livro de vez em quando lê

se o Buzaid não criar problema:

Em Israel, minha primeira pátria

(a segunda é a Bahia)

desertos se transformam em jardins

em pomares, em fontes, em riquezas.

E não é por milagre:

obra do homem e da tecnologia.

Você, meu brasileiro,

não acha que já é tempo de aprender

e de atender àquela brava gente

fugindo à caridade de ocasião

e ao vício de esperar tudo da oração?

Jesus disse e sorriu. Fiquei calado.

Fiquei, confesso, muito encabulado,

mas pedir, pedir sempre ao bom amigo

é balda que carrego aqui comigo.

Disfarcei e sorri. Pois é, meu caro.

Vamos mudar de assunto. Eu ia lhe falar

noutro caso, mais sério, mais urgente.

Escute aqui, ó irmãozinho.

Meu coração, agora, tá no México

batendo pelos músculos de Gérson,

a unha de Tostão, a ronha de Pelé,

a cuca de Zagalo, a calma de Leão

e tudo mais que liga o meu país

e uma bola no campo e uma taça de ouro.

Dê um jeito, meu velho, e faça que essa taça

sem milagres ou com ele nos pertença

para sempre, assim seja... Do contrário

ficará a Nação tão malincônica,

tão roubada em seu sonho e seu ardor

que nem sei como feche a minha crônica.

Comentário:

Notem como os versos dessa prece profundamente sarcástica e delicada soam como prosa, como sugere o verso final, “que nem sei como feche a minha crônica”, que também indica a retratação, realizada pela voz poética, de aspectos sociais brasileiros. O crítica social e a ironia estão explícitas. O trecho “Você, meu brasileiro,/não acha/que já é tempo de aprender/e de atender àquela brava gente/fugindo à caridade de ocasião/e ao vício de esperar tudo da oração?/Jesus disse e sorriu. Fiquei calado” já diz tudo. Esse poema cairá na prova de redação.

O seu santo nome

Não facilite com a palavra amor.

Não a jogue no espaço, bolha de sabão.

Não se inebrie com o seu engalanado som.

Não a empregue sem razão acima de toda razão (e é raro).

Não brinque, não experimente, não cometa a loucura sem remissão

de espalhar aos quatro ventos do mundo essa palavra

que é toda sigilo e nudez, perfeição e exílio na Terra.

Não a pronuncie.

Comentário:

O “santo nome”, no caso, é tão divino quanto o símbolo do sagrado, pois é o “amor”— e o santo nome não deve ser pronunciado em vão. A negação presente no poema, na verdade, é totalmente irônica. A voz poética adverte sobre os perigos do amor, mas acaba por incitar a sua procura, dentro do mundo sem sentido e insensível.

O maior trem do mundo

O maior trem do mundo

Leva minha terra

para Alemanha

leva a minha terra

para o Canadá

leva a minha terra

para o Japão.

O maior trem do mundo

puxado por cinco locomotivas à óleo diesel

engatadas geminadas desembestadas

leva o meu tempo, minha infância, minha vida

triturada em 163 vagões de minero e destruição.

O maior trem do mundo

transporta a coisa mínima do mundo

meu coração itabirano.

Lá vai o trem maior do mundo

vai serpenteando vai sumindo

e um dia, eu sei, não voltará.

Pois nem terra nem coração existem mais

Comentário:

Poema que aborda mais uma vez as raízes e as origens do poeta, mas com uma ácida crítica social e econômica, por causa do minério exportado, e ainda o sentimento de melancolia, porque a vida da voz poética fica “triturada em 163 vagões de minero e destruição”. A “terra” levada para longe é tanto o minério extraído quanto o local onde se estabelece a raiz cultural, que se perde, por não ter onde se fixar. Notem a idéia recorrente da sensação de pequenez da voz poética diante do mundo enorme, metaforizada pelo maior trem do mundo, símbolo de imponência econômica, de progresso inabalável, mas também instrumento de desumanização e um fator descaracterizador da região itabirana.Vai cair com certeza.

Ótima prova a todos, abração! Aloisio.

Um comentário:

Amanda disse...

O trem maior do mundo vai passando por varios lugares e vai ajudando varias pessoas com o seu amor e carinho,e com isso o mundo ira ficar cada vez melhor!!!!!!!!!!!!!

Abração!!!!!!!! De Amanda Moraes