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14 de maio de 2006

MACAU_Paulo Henriques Britto (Entrevistas com o autor e textos sobre o livro)

Paulo Henriques Britto

Dados bio-bibliográficos:

Paulo Henriques Britto nasceu no Rio de Janeiro, em 1951. Professor e tradutor, estreou como poeta em 1982, com Liturgia da Matéria, a que se seguiram Mínima Lírica (1989), Trovar Claro (1997) e Macau (2003).

Entrevista:Rodrigo de Souza Leão

Entrevistado: Paulo Henriques Brito


Paulo Henriques Britto. Ele nasceu no Rio de Janeiro, em 1951. É professor e tradutor, estreou como poeta em 1982, com Liturgia da matéria, a que se seguiram Mínima lírica (1989) e Trovar claro (1997). O Começo

Balacobaco - Como foi o início do seu contato com a literatura?

Paulo Henriques Brito - É difícil dizer. Tenho muito poucas lembranças do tempo em que eu ainda não sabia ler. Minha principal atividade na infância e em boa parte da adolescência foi ler e escrever. Comecei minha leitura com gibis, depois engrenei no Tesouro da Juventude e nos livros infantis de Monteiro Lobato. Num certo sentido, o TJ e ML foram as leituras que tiveram o maior impacto sobre mim.

B - O que o poema tem de lúdico?

PHB - Boa parte da especificidade da linguagem poética, creio eu, é justamente esse aspecto lúdico dela, a questão do ritmo, da rima, da onomatopéia, do uso musical e lúdico das palavras. Isso é o que há de mais básico na linguagem poética, e talvez seja o que há nela de universal, ou seja, o que permite que classifiquemos como poéticas certas produções verbais de povos de cultura muito diferente da nossa.

B - Quais livros fizeram parte de sua formação?

PHB - Num primeiro momento, como já disse, o Tesouro da Juventude e Monteiro Lobato. Depois, quando fui morar nos EUA, ocorreu meu primeiro contato sério com a poesia - Shakespeare, Emily Dickinson, Poe, Whitman. Li também muito Hawthorne e Dickens, além de histórias de detetives: Poe, Conan Doyle, Chesterton, etc. Depois, já de volta no Brasil, na adolescência, descobri Machado e os outros clássicos brasileiros, principalmente os prosadores, que sempre me interessaram mais que os poetas. Mas por volta dos quinze anos descobri Pessoa, o que foi para mim uma verdadeira revelação e que pela primeira vez me levou a tentar escrever poesia "a sério" -- ou seja, com pretensões literárias, e não como puro ludismo verbal, como eu fazia desde os seis anos de idade. Pessoa puxou os clássicos do modernismo brasileiro - Bandeira e Drummond. Por volta dos dezessete anos, outra descoberta importante: Caetano Veloso, que por um lado me fez atentar mais para a música popular - Chico Buarque, Gilberto Gil, Bob Dylan, Jim Morrison - e por outro me fez ler o Balanço da bossa de Augusto de Campos, mais um livro fundamental na minha formação, que me levou a me interessar por crítica e teoria. Outra leitura dessa época que foi da maior importância foi A interpretação dos sonhos de Freud. Foi também nessa época que descobri o autor que até hoje é meu predileto, Kafka, além de Joyce, Beckett, Clarice Lispector, Graciliano Ramos, Cortázar, Gombrowitz, Sartre, Mário de Andrade, Campos de Carvalho... Mais para o final desta fase propriamente de formação, li alguns autores que foram marcantes para mim: lingüistas e pensadores, como Chomsky, Popper e principalmente Wittgenstein; romancistas, como Dostoievski, Tolstoi, Melville, Flaubert e, acima de tudo, Proust; críticos-poetas, como Eliot, Pound e os irmãos Campos; e dois poetas fundamentais: Wallace Stevens e Cabral. Esses autores foram os últimos a ter sobre mim esse tipo de impacto que, depois dos vinte e poucos anos, dificilmente você volta a sentir, mesmo que você ainda venha a fazer muitas descobertas importantes.

B - Quando começou a escrever. Quais eram as sensações físicas e mentais?

PHB - Comecei a escrever por volta dos seis anos. O ato de escrever me dava muito prazer; antes mesmo de saber ler eu já gostava de rabiscar folhas de papel, fazendo de conta que estava escrevendo. Era realmente um prazer físico e mental. Porém com o passar das décadas o prazer de escrever já não é mais tão intenso; o da leitura, porém, permanece inalterado. (...)O Poeta e a Obra

B - A concisão é uma de suas marcas. Fale um pouco.

PHB - A concisão é mesmo uma das minhas marcas? Em comparação tanto com os poetas que seguem na trilha do concretismo e descartam a sintaxe discursiva quanto com os descendentes da poesia-mimeógrafo dos anos setenta, que cultivam o poema-piada e o epigrama, o meu trabalho não me parece particularmente conciso. Eu diria que me situo bem na mainstream da poesia lírica contemporânea. Mas é claro que, na medida em que essa mainstream toda se desenvolve sob o signo de Cabral, sem dúvida a figura mais influente na poesia brasileira das últimas décadas, minha poesia tende mais para o seco que para o úmido. Nisso, tanto quanto na tendência à reflexão metalingüistica, eu diria que sou um poeta bem típico da minha geração e do meu tempo. (...)

B - Quais os grandes poetas da atualidade?

PHB - Não me sinto capacitado a responder a essa pergunta. Não sou crítico, e não conheço tão bem a produção contemporânea quanto eu gostaria de conhecer. Apenas acompanho alguns nomes que me interessam na poesia brasileira e na de expressão inglesa. No Brasil, o único poeta vivo cuja grandeza me parece inquestionável é Cabral.
(...)
B - Qual o maior poeta de todos os tempos?

PHB - Não sei. Dentro das minhas limitadas leituras - limitadas entre outras coisas pelo fato de que só domino português e inglês, embora leia mal e porcamente as outras línguas neolatinas - os que me pareceram maiores foram Shakespeare e Dante. Em português, acho Pessoa superior a todos os outros, inclusive Camões. Mas insisto que não sou crítico, não sou um estudioso sério de literatura.

B - Quais são as suas influências?

PHB - De novo, uma pergunta que eu não sou a pessoa mais indicada a responder. Se você perguntar quais os poetas que eu já me vi consciente ou inconscientemente imitando, ou parafraseando, ou homenageando, a lista seria muito longa, mas os nomes principais seriam talvez Pessoa, Drummond, Bandeira, Stevens, Cabral, Dickinson, Shakespeare, talvez Byron, os poetas americanos e ingleses do pós-guerra, principalmente Ginsberg, Elizabeth Bishop, James Merrill e Philip Larkin. Eu teria que citar também poetas que só li em tradução, como Kaváfis, e muita coisa que li traduzida pelos irmãos Campos, como os provençais. Também teria que citar o impacto de alguns prosadores, como Machado, Kafka e Joyce. E certamente a música popular dos anos sessenta, o rock, Bob Dylan, e a MPB, Chico Buarque, Torquato Neto, Capinan, Gil e principalmente Caetano Veloso. (...)

B - O que falta para cair de vez nesta rede?

PHB - Também não tenho muito o que dizer sobre isso. Sou um usuário parcimonioso da Internet. Praticamente só uso a rede para a minha correspondência eletrônica, para importar livros e fazer download de obras clássicas armazenadas em bibliotecas eletrônicas. (...)

B - O que é necessário para o fenômeno poético?

PHB - Acho que não sei responder essa pergunta. Eu teria que pensar muito, e provavelmente diria bobagem. Com a palavra, os teóricos de literatura. Pedir a um poeta que se pronuncie sobre questões teóricas é o mesmo que pedir a um crítico que escreva uma sextina.

B - Em sua poesia, que questão técnica lhe agrada mais?

PHB - Gosto muito de explorar as formas fixas. Também adoro o verso livre, mas cada vez ele me parece a forma mais difícil e exigente de todas. Gosto de experimentar sobretudo com a rima, a assonância e a aliteração; em matéria de métrica sou quase sempre fiel ao decassílabo. Mas gosto de fazer experiências com o decassílabo, utilizar formas inusitadas -- no meu último livro trabalhei com um decassílabo meio maluco, dividido em dois hemistíquios, com o acento recaindo na 2a, 5a, 7a e 10a sílaba. E há muitos anos que não consigo me livrar do soneto. Por isso às vezes faço variações em torno da forma canônica, invento uns sonetóides diferentes.

B - O que é mais difícil em tradução?

PHB - Tudo. Traduzir é muito difícil. Mas para mim às vezes dá até mais prazer que escrever.

B - Para traduzir até que ponto é necessário o conhecimento total da língua traduzida?

PHB - Bem, "conhecimento total" não existe de nada, nem mesmo da língua nativa. É claro que é bom conhecer bem a língua de que se traduz, mas o essencial é conhecer muito bem a língua para a qual se traduz. Um tradutor que domine bem seu próprio idioma pode traduzir até de línguas que não conhece perfeitamente, munido de bons dicionários e consultando pessoas que dominem a língua da qual ele traduz. (...)

B - Por que a tradução de poesia é um trabalho de poetas?

PHB - Traduzir é um trabalho de escritor. Para traduzir poesia, é preciso ter domínio passivo e ativo do arsenal de recursos formais utilizados pelos poetas. Ou seja, é preciso, num certo sentido, ser poeta. Porém o tradutor não precisa ter o que dizer, só precisa saber fazer um poema. Já o poeta para ser bom tem que ter algo para dizer, na minha opinião.

B - Que língua prefere traduzir?

PHB - Só traduzo do inglês para o português e vice-versa. Sendo que vice-versa só em caso de textos não literários.

B - Existe uma conduta, um pudor em "mexer" na obra alheia?

PHB - Quem tem pudor de mexer na obra alheia não pode ser tradutor. Traduzir implica mexer, e muito, no texto do outro.

B - Qual o poema seu que mais o personifica? E a sua obra?

PHB - Não sei dizer.

B - Qual o papel do escritor na sociedade?

PHB - Há vinte anos atrás, eu diria que a principal exigência feita ao escritor era de caráter ético. Hoje, eu diria que o mais importante é de natureza técnica: ele deve escrever bem. O que mudou, além do fato óbvio de que não vivemos mais numa ditadura odiosa, é que me convenci de que a literatura é bem menos importante para a maioria das pessoas do que eu imaginava. A exigência ética, portanto, é mais premente para quem trabalha com televisão e cinema. A literatura afeta uma porção ínfima da população, e a poesia uma parte muito pequena dessa porção ínfima.

Entrevista: Bernardo Mello Franco

Poeta premiado em busca de horas vagas para criar

Paulo Henriques Britto se divide entre tradução e aulas de literatura
A vida de Paulo Henriques Britto não mudou muito desde a noite de terça-feira, quando recebeu o prêmio Portugal Telecom de Literatura, em São Paulo, pelo livro de poemas Macau, lançado em 2003 pela Companhia das Letras. Continuou dividindo seu tempo entre a atividade de tradutor e as aulas de literatura que ministra na PUC-Rio. Seus alunos levaram dois dias para cumprimentá-lo pela vitória, que só souberam pelos jornais. O poeta revelou que não queria viajar para a cerimônia de premiação.
- Tinha que dar aula no dia seguinte às 11h - justifica.
Apesar de satisfeito com o reconhecimento e o prêmio de R$ 100 mil - que usará para cobrir despesas médicas dos pais e trocar o carro ''já velhinho, com 12 anos'' -, Britto vê com ceticismo a possibilidade de aumentar as vendas.
- Ninguém lê poesia. Isso só vai me render os 15 minutos de fama. Quem sabe, mais gente vai comprar o Macau para a namorada no Natal, mas o impacto não será duradouro.
Enquanto traduz o novo livro de Philip Roth, com título provisório de Complô contra a América, e termina a revisão de sua primeira seleção de contos, Paraísos artificiais, Britto busca horas vagas para inúmeros projetos: ler poetas portugueses, a obra completa de Balzac, reler Proust, preparar uma antologia de Emily Dickinson...
- O ócio criativo é vital para o poeta - conclui.


Entrevista:
- Como foi o processo de escrita de Macau?

- Reuni minha produção desde o último livro (Trovar claro, de 1997) sem muito critério. Na verdade, não consigo escrever com muita organicidade. Vou reunindo, depurando, cortando. Quando acho que está ficando pronto, começo a mostrar e pedir sugestões para minha mulher, amigos próximos que trabalham com poesia.

- De que forma concilia o trabalho de tradução com a poesia?

- Escrevo nas horas vagas. No máximo, seis poemas por ano. É um trabalho muito esporádico, passo meses sem abrir o caderno. Gostaria de ter mais tempo para a poesia, mas ainda tenho que preparar aulas, corrigir provas... - (...)

- Onde surgiram as influências da cultura pop em seus poemas?

- Tenho ligação com a música popular desde muito cedo. Minha formação, nos anos 60, foi com os Festivais da Canção. Também ouvia muito rock: Beatles, Rolling Stones, Bob Dylan. Ainda não era tradutor, mas com 17, 18 anos, achava as letras de Bob Dylan muito legais e queria mostrar para os meus amigos que não falavam inglês.

- De que forma analisa o momento atual da poesia brasileira?

- Cresci numa época de muita polarização. Ou você era Chico Buarque, ou Caetano Veloso. Sempre gostei dos dois, era um problema (risos). A poesia também era assim. Essa polarização remonta ao grande conflito entre modernos e parnasianos na década de 1920 e reaparece, de certa forma, nos anos 40, quando os concretistas começam a atacar a geração de 1945. Após a ''vitória'' do concretismo, vem a reação da chamada geração mimeógrafo, aquela poesia espontânea, descabelada. É nessa época que eu entro.

- Como se posicionava entre a geração mimeógrafo e os concretistas?

- Sempre sofri um certo mal-estar. Devorava as traduções do Augusto de Campos e andava com seu livro sobre a Tropicália, O balanço da bossa, debaixo do braço. Era a minha Bíblia. Lia todos os autores que os concretistas recomendavam, mas nunca gostei de poesia concreta. Por outro lado, dava razão ao discurso que pregava o uso de algum método. Mas o pessoal do mimeógrafo falava de temas da minha geração como drogas e rock and roll, o que me gerava grande identificação com eles. Na verdade, nunca consegui me situar muito bem em nenhum lugar.

- Acha que essa polarização está acabando?

- Sim, e pela primeira vez em muito tempo. Estamos vivendo uma época de muita pluralidade, os poetas não estão mais fechados em grupos. Ao mesmo tempo, ocorre uma coisa extraordinária: o aumento do número de revistas de poesia pelo Brasil. Só no Nordeste, são dezenas. Considero essa pluralidade muito saudável. Italo Moriconi sintetizou o momento numa frase ótima: ''Voltamos à normalidade''.

- Por que o grande público não lê poesia?

- De modo geral, a poesia perdeu muito espaço no Ocidente. Virou leitura de especialistas: poetas, estudantes, críticos. É um público muito pequeno. A maior parte das pessoas não lê mais poesia - aliás, não lê nem romance. O lugar da poesia foi ocupado pela música popular e o lugar do romance, pelo cinema e pela novela de televisão. No caso do romance, ainda restam os best-sellers, de consumo fácil. No século 20, surgiu, não só na poesia, um grande hiato entre o gosto do artista e o gosto do grande público, da classe média. Nas artes plásticas, o divórcio foi o mais radical possível. No campo do romance, foi menos forte, mas não na poesia.

- Como descobriu a poesia?

- Na verdade, descobri a poesia em língua inglesa, quando morei nos Estados Unidos, entre os nove e 10 anos. Quando era menino, no Brasil, os modernos eram ignorados na escola. Só lia Olavo Bilac, Gonçalves Dias... Poesia era uma chatice, que a gente tinha que decorar para ler no Dia das Mães. O ensino de poesia nos anos 50 era uma coisa atroz. Nos Estados Unidos, me deram Shakespeare, Emily Dickinson, Walt Whitman. Foi um choque. Quando voltei ao Brasil é que descobri, com Fernando Pessoa, que também existia poesia boa em língua portuguesa.

- Você comentou que pretende usar o prêmio Portugal Telecom (R$ 100 mil) para trocar o carro...

- Vai dar para trocar o carro, resolver uns outros problemas (risos)... É um dinheirinho bom. Quem vive como escritor no Brasil? Talvez o Paulo Coelho e outros três ou quatro. Como poeta, nem pensar. Aliás, não há mais poeta popular. Nos anos 50, existia um cara chamado J. G. de Araújo Jorge que vendia poemas de amor para os caras darem para a namorada, essas coisas. Eram livros de poesias rasteira, uma superdiluição do romantismo. Hoje, não existe mais nem isso. O sujeito quer dar um presente para a namorada e baixa umas músicas em MP3 na internet.

- O que você tem lido por prazer?

- Quase todas as minhas leituras acabam virando trabalho. Gosto mesmo é de romance. Queria ler toda a obra de Balzac, reler Proust, mas acho que só vou conseguir fazer isso tudo quando me aposentar. Em poesia, meu projeto é usar as raras horas vagas para ler mais poesia portuguesa, que conheço mal. Aproveitei uma feira recente na PUC para comprar vários livros portugueses. Estou me obrigando a ler muita poesia medieval, aqueles trovadores, para o curso de oficina de poesia que estou dando no curso de formação de escritores. Minha formação foi lingüística, nunca fui aluno de literatura. Aliás, minha tese é de semântica formal, que é mais lógica matemática. Quando acabei o mestrado, larguei a lingüística para virar tradutor e professor de tradução. (...)

O azarão afortunado


Prêmio Portugal Telecom de Literatura destaca o poeta Paulo Henriques Britto, autor carioca que traz como marca a obsessão pela disciplina e pela clareza

Para evocar o território de íntima estranheza da poesia brasileira, o poeta e professor Paulo Henriques Britto deriva por outras paisagens: "A água é pura espera, como um túmulo egípcio"
Sempre que a poesia ganha um prêmio de expressão é vista como surpresa e azarão. Ainda mais se está concorrendo com romances. O poeta carioca e professor universitário Paulo Henriques Britto, ao ser anunciado no último dia 9 como vencedor do prêmio de R$ 100 mil da Portugal Telecom, não deixou de ironizar que teria seus 15 minutos de fama e que seu livro Macau (Companhia das Letras, 79 páginas) venderia um pouco mais no Natal na forma de amigo-secreto e presente de namorados. Tradutor da Companhia das Letras (aliás, uma de suas fortes referências é o americano Wallace Stevens, um de seus traduzidos), o autor não é de falar muito, mas de fazer calar no momento certo. Em seus 20 anos de poesia, publicou apenas quatro livros: Liturgia da Matéria (1982), Mínima Lírica (1989), Trovar Claro (1997), além de Macau (2003), sempre com intervalo de seis a sete anos entre uma produção e outra. A lentidão decorre de sua exigência pela aquisição de um domínio do próprio processo criativo.
Utilizou a metáfora do pequeno entreposto português na China, Macau, para mostrar o quanto a poesia brasileira é um território de íntima estranheza, rodeado de idiomas que não a levam a sério. Utiliza a desordem externa do mundo, a negatividade, para arquitetar uma ordem interna e positiva, de precisão e sutileza. Ele se distancia para depois personalizar a visão. Sua poética tem como matriz o ludismo verbal e a ironia. Seu charme vem de um ar desesperançado. O formalismo e a afeição por formas fixas contrastam com o tema coloquial de seus versos, munido de referências pop como Jim Morrison ou de cenários como bangalôs, praias, hotéis baratos. Uma monotonia proposital e o ímpeto prolixo e argumentativo são quebrados ao final com a inversão de expectativas, transformando o conceito em uma imagem. Seus poemas são falsos blagues, falsos exorcismos. Ele finge falar do mundo para falar do seu jeito desconfortável no mundo. Define um mal-estar ou um desvio com o apelo pessoal. "Se tudo correr bem, também a tua derrota / vai ser de bom tamanho. Pode contar comigo."
Circula no espaço da trivialidade, das revelações a partir do mais grosseiro, do mais visível, do mais tátil. É como uma consciência que evolui unicamente do texto para o texto, em uma operação cabralina contínua de investigação e observação sagaz. A dicção é híbrida, infiltrada de neologismos e gírias, que dividem espaço com evocações do dicionário.
"Esse quarto minguante incompetente que mal / e porcamente alumia, essa tosca / arandela de santo em quarto de bordel, / coberta de cocôs de mosca... / Não abre a boca, não estufa / o peito, não. Nada que você diga / é teu. Nada é você. Você não é Puf!". Não é de uma linhagem metafísica. Egresso da geração mimeógrafo, marcada pela espontaneidade do sentido (nunca do sentimento), tornou-se pouco a pouco um artesão da língua, um alfaiate erudito, não abdicando da nobreza do desbotado e dos trapos. Até porque não há realidade plena sem o escuro, muito menos pôr-do-sol sem luz desmaiada.
Sua poesia é construída, focada, refinada, crítica da leitura do poeta e do poeta leitor, derrubando a noção de autocomplacência e comoção direta do romantismo. Há, em seu trabalho, uma autonomia admirável, uma obsessão de repertório. Em Trovar Claro, encontra-se referências ao Egito: "A água é pura espera, como um túmulo egípcio", reiterada em Macau: "Antes que fôssemos mumificados por completo, você descobriu uma maneira de apodrecer tão depressa que fosse impossível até mesmo para o mais hábil mumificador do Alto Egito".
Igual processo funciona com sua fixação pelas mãos que vacilam e escrevem o que pensam sentir, presentes em "Dez exercícios para os cinco dedos", de Trovar Claro, e "Bagatela para a mão esquerda", de Macau. Tanto que os dois livros apresentam sempre a figura das variações, dos exercícios e dos estudos, contribuindo para a disciplina do rascunho. A lógica de Paulo Henriques Britto é não chegar ao poema perfeito, porém o mais perto possível dele, sem abdicar da imperfeição que assegura a naturalidade dos versos. Produz erros premeditados: "Mas a semente espera. É insistente / e acerta mesmo sem saber que erra". Atuaria como um biólogo do ritmo, perfurando as paredes culturais de sua formação (como ao refutar Drummond). Percebe-se a importância da prosa (bem longe do prosaísmo) em sua poesia, como uma necessidade orgânica de ser compreendido e de seguir um raciocínio limpo e linear, de criar cumplicidade com o leitor mesmo que seja pela hipocrisia, como ensinava Brás Cubas de Machado de Assis.
De Vulgari eloquentia
A realidade é coisa delicada,
de se pegar com as pontas dos dedos.
Um gesto mais brutal, e pronto: o nada.
A qualquer hora pode advir o fim.
O mais terrível de todos os medos.
Mas, felizmente, não é bem assim.
Há uma saída - falar, falar muito.
São as palavras que suportam o mundo,
não os ombros. Sem o "porquê", o "sim",
todos os ombros afundavam juntos.
Basta uma boca aberta (ou um rabisco
num papel) para salvar o universo.
Portanto, meus amigos, eu insisto:
falem sem parar. Mesmo sem assunto.
Acalanto
Noite após noite, exaustos, lado a lado,
digerindo o dia, além das palavras
e aquém do sono, nos simplificamos,
despidos de projetos e passados,
fartos de voz e verticalidade,
contentes de ser só corpos na cama;
e o mais das vezes, antes do mergulho
na morte corriqueira e provisória
de uma dormida, nos satisfazemos
em constatar, com uma ponta de orgulho,
a cotidiana e mínima vitória:
mais uma noite a dois, e um dia a menos.
E cada mundo apaga seus contornos
no aconchego de um outro corpo morno.
Por : Izacyl Guimarães Ferreira

Macau, de Paulo Henriques Britto :Nihilismo, humor e metapoesia

Autor de poucos livros de poucos poemas de poucos versos, notável tradutor de Wallace Stevens, Ted Hughes, Elizabeth Bishop, entre outros, ex-estudante de cinema, o ganhador do mais valioso prêmio pago até hoje no país a um livro de poesia, Paulo Henriques Britto, muito mais que um poeta excelente é uma dicção nova – tão formalmente disciplinada quanto inventiva, uma lírica indagadora, de “trovar claro”, como titulou seu livro anterior.
Mas, como todo poeta de peso específico, não é o que Bandeira dizia de Murilo – “um bicho-da-seda, que retira tudo dele mesmo”. PHB se insere numa linha que passa por João Cabral, aludido no título do metapoema Fisiologia da Composição, linha que penetrou no cerne da poesia do pensamento, típica de Wallace Stevens, recorda certo meditar sonoro de Pessoa, toca de leve o humor que não desmerece Drummond e transcende atmosferas do que pretenderam sem êxito modernistas e marginais notórios. E de passagem adjetiva insolitamente como Murilo e condensa a emoção com a brevidade de Emily Dickinson.
O título do livro ganhador do Prêmio Portugal Telecom – Macau – é mais que uma rima feliz para mal no poema II dos “Sonetos Simétricos”. A possessão portuguesa na China é metáfora extraordinária do que pode ser a poesia de PHB. Língua nada hegemônica é o nosso idioma, arte nada popular é a poesia, espécie nada privilegiada é o homem se não tem a proteção de um deus, uma utopia, qualquer esperança de redenção.
Ilha é o poeta, ilha é a língua em que escreve, ilha é o homem num mar feito de “minúsculos plânctons” que compõem a realidade que o circunda, imóvel no “cais ínfimo e úmido do eu”.
Mas, e o humor? já perguntava o gauche Carlos e com fina elegância ( ainda que nem sempre) responde PHB. Porque “a dor é kitsch” e “só o raso é cool”, há que seguir adiante, sem mergulhar fundo demais.
O humor percorre o livro ao lado do nihilismo, e vêm os dois, tão reiteradamente expressos, que não chegam, um a desatar o riso, outro a desatar o pranto. O leitor aceita esse jogo de luz e sombra como o adulto que é aceita a mortalidade.
(...)
Também os anjos mudam de poleiro
de vez em quando, se rareia o alpiste
indeglutível que é seu alimento.
Porém você não se conforma, e insiste,
procura em vão possíveis substitutos
que tenham o efeito de atrair de volta
esses seres ariscos, esses putos
que se recusam a ouvir os teus apelos,
como se fossem mesmo coisas outras
que não a tua própria vontade de tê-los
sempre a postos, em eterna prontidão,
a salpicar na tua boca ávida
o alpiste acre-doce da ( com perdão
da péssima palavra ) inspiração.
Parece evidente que os anjos são rilkeanos, como a “fisiologia” referencia o João Cabral da psicologia da composição, uma influência admitida. Noutro texto, diz que é claro que é difícil escrever, fala de suor e de acaso, palavrinha cabralina mas também mallarmaica. PHB é poeta culto, professor de literatura, mas que rejeita assumir posturas críticas, como nega aos críticos poder de escrever sextinas. E se sonetiza o faz heterodoxamente: seu apego às formas fixas é mais um parâmetro que uma lição observada rigorosamente.
Parece importar-lhe tanto a forma quanto a matéria que ela molda, e embora a dor seja “brega” ele a registra, como aconselha Auden : que a dor seja feliz e dita com beleza. Não basta o sofrimento se ele não ultrapassa o momento, longo que seja, para transformar-se em expressão poética. Exemplo, esta “epifania trivial”:Seria trágico se não fosse bobagem.Seria uma solução se houvesse um problemapossível de resolver. Seria uma imagempoética se houvesse espaço pra um poema.Estando as coisas como estão, não é mesmo nada.O que é uma pena. Pois o gesto em si é belocomo uma ruína, ou uma xícara quebrada.( Mas não é bem gesto e sim a intenção de fazê-lo.É mais a idéia de uma coisa que uma coisa,apenas um projeto, e a plena convicçãode que mais nada vai acontecer depois,a consciência de que a pseudo-soluçãohá de doer a vida inteira na lembrançacomo um castigo injusto imposto a uma criança.)

Cabe assinalar o que a edição (Companhia das Letras) informa: em sua quase totalidade os poemas são inéditos apenas em livro, publicados que foram ao longo dos anos em diversos periódicos.
S
oaria naturalmente adequado o elogio a uma obra recebida com o aplauso deste Macau. Aplauso de crítica e “de bilheteria”, a que o autor, com seu característico humor, reduz a uma fama de 15 minutos. Quem o acompanha desde a estréia, com Liturgia da matéria, seguida de Mínima lírica e Trovar claro, quatro livros só, ao longo de 22 anos, saberá que Macau não é um acaso, um lance de dados. Sim haverá quem rejeite aspectos “perecíveis” em sua poética, tais os referidos acima, como sejam falas no limiar da prosa, ou dentro dela, a gíria ocasional, certo gosto pelo corte “popular” abrupto num momento, digamos, “delicado”, como os “putos” anjos do poema transcrito. PHB tem antecedentes (Murilo, Drummond) e direito adquirido para transgredir como queira. Se tais aspectos, que já li condenados por mais de um crítico, são traço de época ou de autor, o tempo dirá. (Não conheço poeta cem por cento puro...) O que PHB nos traz é personalidade, moeda rara, e coerência, e a capacidade de nos fazer solidários com sua dor, que não tem dono, e com seu humor, ai, tão necessário.
(...)

3 comentários:

mitally disse...

Nossa amei demais...Está super completo!! Mitally (aluna do chromos centro ,extensivo tarde)

Anônimo disse...

oi

Anônimo disse...

Prof Aloisio como eu faço para teer o Estudo das obras da UFMG. Sou do cromos Pampulha mall.
perdi a leitura do antes do baile verde e bom criolo,Gostaria de ter o estudo das obras.Obriga =)