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19 de maio de 2008

Paraísos artificiais, de Paulo Henriques Britto_Anotações

Paraísos artificiais, de Paulo Henriques Britto

O livro Paraísos artificiais, de Paulo Henriques Britto, publicado em 2004, título poético, por remeter aos Paraísos artificiais (escritos sobre o ópio, o haxixe e o vinho) de Charles Baudelaire, reúne nove contos, a maior parte escrita nos anos 70 e reescrita ao longo das últimas décadas. A obra é resultado de obsessão e, também, depuração. Britto diz ter escrito cerca de 30 contos durante o ano e meio (entre 1972 e 73) que passou em San Francisco, na Califórnia, estudando cinema. Quando relidos, mais tarde, quase todos foram jogados fora. Os restantes começaram a ser burilados.

“- Como nasceu o seu primeiro livro de contos, Paraísos artificiais (a ser lançado até o fim do ano pela Companhia das Letras)?

- No início dos anos 70, fui estudar cinema na Califórnia, mas o que mais fiz foi escrever contos. Larguei o curso, voltei ao Brasil e continuei a trabalhar naqueles contos. Desde então, escrevi mais três, o último no ano passado. É o mais longo do livro. Não há fio condutor, unidade temática ou estilística.”(BRITTO) (?)

Os contos contidos neste livro capturam sempre situações extremas - que podem ser uma doença sem nome ou um mero ônibus errado - e encontros embaraçosos, quase sempre do protagonista consigo mesmo. As narrativas conduzem seus protagonistas e narradores a visões nuas e dolorosas de si mesmos: mais alheios, mais tortuosos, mais covardes do que gostariam de ser.

Possíveis influências literárias

  1. Samuel Beckett: a solidão do homem, o teatro do absurdo, a imobilidade tipicamente beckettiana
  2. Franz Kafka: clima sufocante dos contos, conseqüências inesperadas e absurdas, o próprio absurdo da existência
  • Contos solipsistas: vida ou conjunto dos hábitos de um indivíduo solitário
  • A escrita dos narradores como saída para a inércia
  • A convivência nitidamente desconfortável entre as personagens
  • Vários personagens dos contos recorrem ao ato da escrita para encontrar seus supostos “paraísos artificiais”
  • Diálogos verossímeis e prosaicos, através do uso da coloquialidade, aliada a presença constante da ironia e da auto-crítica
  • Os contos são repletos de tensão narrativa, mas o clímax muitas vezes não se encontra no final, já que os desfechos são frequentemente prosaicos e propositalmente frustrantes: cabe ao leitor, muitas vezes, “completar” o final das narrativas
  • Os finais sempre ficam em aberto, pois não há uma solução definida e definitiva para os conflitos, tramas e obsessões das personagens expostos nas narrativas
  • A narração em 1ª pessoa, presente em 8 dos 9 contos do livro, auxilia esse caráter parcial, limitado e incompleto dos textos, que propositalmente “frusta” as expectativas do leitor. Esse “jogo” com o interlocutor é característico da literatura contemporânea, que questiona as verdades totalizantes e a definição clara e exata da realidade.
  • Situações kafkianas: as personagens encontram-se em situações desesperadoras ou inquietantes, ficam perturbadas pela falta de motivos aparentes para elas e não possuem saída ou escape. Fazem questionamentos e cogitações sem, no entanto, chegar a conclusão alguma.

Os paraísos artificiais

  • Percepção e sensibilidade para apurar a existência através da reflexão literária
  • Modificação das percepções = artificial, mas verdadeira e verossímil
  • Paraíso: o escritor como um demiurgo
  • Finitude do ser X perenidade do texto literário
  • Reflexões prosaicas sobre o incômodo e o desprazer, e a busca do alívio momentâneo = Literatura

Uma doença

  • Desenho de mapas que representassem todas as superfícies ao alcance da vista do narrador
  • O narrador passa todo o tempo deitado, analisando curvas, manchas, rachaduras e acidentes geográficos de paredes, tetos, chãos e até do seu lençol.
  • “Além disso, a rachadura estava me entediando, por ser um fenômeno demasiado previsível. Então resolvi escrever este breve relato”. Então = por isso ou portanto ? causa e conseqüência ou conclusão ?
  • Inevitabilidade da morte
  • Rachadura: decomposição, estilhaçamento, ruptura, quebra, desestruturação

Uma visita

  • Questão do duplo (POE):

1) narrador que está no 3° andar

2) narrador que está embaixo e pede a chave

Onde o narrador se encontra afinal?

  • Desencontro entre os iguais: ambos não se reconhecem, ambos inexistem em suas posições, ambos são sujeitos determinados, ambos desaparecem = ambos não conseguem se distinguir nitidamente, mas encontram no outro traços identificáveis

Um criminoso

  • Quem é afinal o criminoso? O voyer paranóico ou as pessoas de fora do apartamento que ele observa
  • “O copo escorrega da minha mão e se espatifa, à toa , à toa.” = a trana, a história frágil
  • Ditados: uso do senso comum, hipóteses falhas
  • Frustração das expectativas do narrador e do leitor

O companheiro de quarto

  • Através do discurso simplório, cruel e invejoso do narrador-personagem, percebe-se um mundo de transtornados: do sádico narrador ao inocente companheiro de quarto.
  • sexualidade ambígua? = a heterossexualidade de superfície provavelmente convivendo com, ou encobrindo, a homossexualidade de fundo
  • pintura da condição social de uma juventude de problemática inserção no mundo urbano, que divide apartamento e atrasa aluguel.
  • A planta representa o desconhecido, a fascinação e , ao mesmo tempo, o incômodo
  • O estoicismo do companheiro de quarto desconhecido remete à natureza da planta
  • A beleza do desconhecido e da planta fazem o narrador se lembrar de sua miséria e amargura íntimas
  • Dificuldade de lidar com o desabrochar e o perfume da flor: dificuldade da relação com o outro porque, especularmente, ele reflete a insegurança, o desamparo e a solidão do narrador

Coisa de família

  • Incômodo gerado num estrangeiro, longe de sua terra, ao passar o Natal com uma família calada, cujas falas são reticentes
  • Desconforto e constrangimento em estar junto aos problemas alheios, sem conseguir saber quais são
  • Título remete a uma generalização dos problemas familiares

O 921

  • clima policial que mostra um sujeito afogado em uma sucessão de equívocos = ônibus 488 e 921
  • o ônibus 921 e o Dr. Lustosa = “fantasmas” = ambos ao mesmo tempo existem e inexistem, são citados e vistos, mas não conhecidos
  • tanto o velho quanto os policiais levam o narrador para lugares distantes e afastados de seu destino desejado
  • tanto o velho quanto o narrador se utilizam da figura do Dr. Lustosa como “proteção”
  • o narrador é uma “vítima inocente” da ironia do destino = situação kafkiana

O primo

  • Narrado em 3ª pessoa
  • Cachorro: Kafka
  • Ivan vem do interior para estudar num colégio interno de padres.
  • Seu incômodo deriva de sua resistência e de sua postura de defesa para com os amigos do primo Reginaldo, mal falado pela família = insegurança de Ivan ao chegar numa cidade desconhecida, em busca de liberdade
  • “Aqui ninguém é de ninguém, (...) E todo mundo é de todo mundo” / “Sei lá. Só sei que eu não sou de ninguém”.
  • Antipatia mútua: ambos eram os “rejeitados” pela família, arrogantes e pretensamente independentes
  • Início da nova vida no Rio: ao invés de apoio, Ivã encontra um ambiente sufocante, com regras próprias e situações embaraçosas

Os Sonetos Negros

Personagens:

  1. Tânia (narradora-personagem)
    Matilde Fortes: escritora dos “Sonetos Negros, objeto de estudo de Tânia
  2. Gastão Fortes: marido de Matilde, com quem Tânia travará contato,
  3. Clemenceau: técnico de informática da pequena São Dimas
  4. Dona Aspásia: empregada de Gastão
  5. Ercila: orientadora da tese de Doutorado de Tânia
  6. Leandra: protegida de Ercila, também escreve sobre Matilde, mas a partir de uma perspectiva feminista
  7. Sérgio: ex-namorado de Tânia, que lhe manda e-mails
  8. Olavo: gerente do hotel de São Dimas

  • pesquisa sobre “Os sonetos negros” de Matilde Fortes = Farsa literária, "diário" de uma viagem de iniciação, de um desencontro que põe em xeque as certezas do politicamente correto e expõe uma jovem doutoranda às surpresas que a vida e a literatura não param de tramar
  • Através da relação entre a narradora, Tânia, e sua orientadora, Ercila, e da menção à tese e à pessoa de Leandra, também protegida por sua orientadora, expõe-se cruelmente os vícios e as hostilidades, os aborrecimentos e as peculiaridades negativas típicos do mundo da pesquisa acadêmica literária, como o pedantismo da criação de termos analíticos para a literatura ("matildeana", "clitoricêntrica", “escritura”).
  • No início, o objetivo da narradora é apenas checar os manuscritos originais da Poesia Reunida de Matilde e, através do cotejamento entre as primeiras edições e as atuais, estabelecer uma edição crítica da grande poeta Matilde Fortes, na verdade, provavelmente uma poetisa fictícia.
  • Acaba tendo longas conversas com o viúvo de Matilde, Gastão Fortes, e descobre nos manuscritos que ele lhe entrega, por estar à beira da morte, algo que no início parece confirmar certas leituras feministas da obra: Matilde teria escrito os sonetos para uma mulher, pois as palavras estavam trocadas — ao invés de destinados a um homem, seriam destinados a uma mulher. Aparentemente, a poetisa se encaixaria numa “tradição” de poesia de poesia lésbica (verso sáfico: tônicas nas posições 4, 8 e 10).
  • há um desfecho inesperado: os poemas haviam sido escritos pelo marido, Gastão, não pela literariamente ambiciosa e arrogante Matilde. A novela, muito bem humorada, usa parodisticamente os mecanismos do conto policial, e é uma sátira aos costumes acadêmicos e literários nacionais.
  • Final : implicações acadêmicas e pessoais da “descoberta” da farsa literária = ironia e metalinguagem = FRAUDES LITERÁRIAS

  • Vargem dos Índios, São Dimas (lugares fictícios?): panorama desconsolado e crítico do interior brasileiro

  • São Dimas: padroeiro dos ladrões, estelionatários, falsários e criminosos em geral

· As Canções de Bilitis foi publicado em 1894 e causou um grande alvoroço na Europa. Os poemas do livro, de autoria de uma tal de Bilitis - que seria uma contemporânea de Safo, nascida na mesma Lesbos - fizeram um sucesso estrondoso. Para se ter uma idéia, Debussy chegou a musicar três dos poemas do livro. Helenistas de toda a Europa correram para estudar a grande descoberta feita pelo escritor Pierre Louÿs que, além de traduzir os poemas do grego, escreveu o prefácio que contava um pouco da história da poetisa lésbica.

O livro vendeu horrores na virada do século e continuou vendendo bem nos anos seguintes. Mas em 1925, um pouco antes de morrer, Louÿs fez uma revelação prá lá de bombástica: os poemas eram de autoria dele próprio e a tal de Bilitis nunca existira de fato. A polêmica estava instaurada - os helenistas que haviam autenticado a descoberta ficaram sem ter onde enfiar a cara e Louÿs, cuja carreira já não ia bem das pernas, foi completamente ridicularizado. A farsa que Louÿs conseguiu sustentar por quase 30 anos, uma brincadeira bastante espirituosa, não foi entendida pelo círculo literário francês. Uma pena pois, a despeito de seu caráter farsesco, As Canções de Bilitis reúne alguns dos poemas lésbicos mais sensuais jamais escritos por um homem (à maneira de Safo) e influenciaram várias gerações de escritoras. (http://mixbrasil.uol.com.br/cio/cio20000/bolacha.htm)

  • Paulo Henriques Britto, professor de pós-graduação da PUC do Rio de Janeiro, diz:

"O que me incomoda muito no meio acadêmico é a politização do fenômeno literário. Nada contra a correção política, mas por que ver os escritores como gays, negros, mulheres antes de vê-los como escritores? As pessoas importam discussões norte-americanas sem adaptá-las para cá".

“ (...)sem um pouco de ironia fica difícil conviver com qualquer ambiente de trabalho, não é? Creio que o mundo acadêmico, sob esse aspecto, não é melhor nem pior do que nenhum outro. (...)Não vejo a minha posição como contrária à academia, e sim como diferente da que é defendida por muitos (mas não todos) acadêmicos da área de tradução. Talvez essa minha oposição a autores muito influentes, como Fish e Derrida, e a uma tendência, difundida na área de Letras, a escrever de um modo um tanto, digamos, rebuscado (para não dizer ininteligível), tenha me levado a adotar uma visão irônica. Mas não tenho nenhum preconceito contra a academia, contra a crítica universitária. Temos um bom número de críticos universitários que fazem leituras interessantes de obras literárias, se bem que — verdade seja dita — muito mais no campo da ficção do que no da poesia.”

2 comentários:

ARIST?TELES disse...

AMEI A FORMAS COMO OS TEMAS FORAM ABRODADOS NO LIVRO...UMA MANEIRA COMPREENSIVA E HUMANISTICA TROUXE A TONA QUESTÕES DE UM EU UNIVERSALIZADO NOS PERSONAGENS...SIMPLISMENTE BRILHANTE...
VALEU BRITTO POR VC EXISTIR...

CRIEI UMA COMUNIDADE RECENTEMENTE NO ORKUT PARA PROPAGAR OS CONTOS DO SEU LIVRO E PERMITIR MAIORES COMENTÁRIOS.


ADSUMOS.

HÁ E A COMUNIDADE TEM O NOME DA SUA OBRA (PARAÍSOS ARTIFICIAIS).

Christian Fortunato disse...

Como consigo o resumo completo livrot através da internet?