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2 de junho de 2008

Um rio chamado tempo, uma casa chamada terra (Mia Couto)_Trechos, anotações e questões

Um rio chamado tempo, uma casa chamada terra
(Mia Couto)

EPÍGRAFES

Inicial:

No princípio,

a casa foi sagrada

isto é, habitada

não só por homens e vivos

como também por mortos e deuses.

(Sophia de Mello Breyner)

QUESTÃO 1

A epígrafe inicial de Um rio chamado tempo, uma casa chamada terra, de Mia Couto, revela uma característica marcante no livro: a memória ligada à ancestralidade. Assinale o fragmento do romance em que essa característica se faz presente:

a) “Abstinêncio Mariano despendera a vida inteira na sombra da repartição. A penumbra adentrou-se nele como um bolor e acabou ficando saudoso de um tempo nunca havido, viúvo mesmo sem nunca ter casado.”

b) “Por fim, avisto a nossa casa grande, a maior de toda a Ilha. Chamamo-lhe Nyumba-Kaya, para satisfazer familiares do Norte e do Sul. ‘Nyumba’ é a palavra para nomear ‘casa’ nas línguas nortenhas. Nos idiomas do Sul, casa se diz ‘kaya’.”

c) “Ainda bem que chegou, Mariano. Você vai enfrentar desafios maiores que as suas forças. Aprenderá como se diz aqui: cada homem é todos os outros. Esses outros não são apenas os viventes.”

d) “A cozinha me transporta para distantes doçuras. Como se, no embaciado dos seus vapores, se fabricasse não o alimento, mas o próprio tempo. Foi naquele chão que inventei brinquedo e rabisquei os meus primeiros desenhos.”

Encheram a terra de fronteiras, carregaram

o céu de bandeiras. Mas só há duas nações

- a dos vivos e a dos mortos.

(Juca Sabão)

O mundo
já não era um lugar de viver.
Agora nem de morrer é.
(
Avô Mariano)

O importante não é a casa onde moramos.
Mas onde, em nós, mora a casa.
(
Avô Mariano)

Quando a terra

se converte num altar,

a vida se transforma numa reza

(Padre Nunes)

O bom do caminho é haver volta.

Para ida sem vinda basta o tempo.

(Curozero Muambo)

Eis a diferença:

Os que, antes, morriam de fome

passaram a morrer por falta de comida.

(Taberneiro Tuzébio)

Foi na água mais calma

que o homem se afogou.

(Provérbio africano)

A lua anda devagar

mas atravessa o mundo.

(Provérbio africano)

Trechos

Morte:

A morte é como o umbigo: o quanto nela existe é a sua cicatriz, a lembrança de uma anterior existência. (...) Cruzo o rio, é já quase noite. Vejo esse poente como o desbotar do último sol. A voz antiga do Avô parece dizer-me: depois deste poente não haverá mais dia. E o gesto gasto de Mariano aponta o horizonte: ali onde se afunda o astro é o mpela djambo, o umbigo celeste. A cicatriz tão longe de uma ferida tão dentro: a ausente permanência de quem morreu. No Avô Mariano confirmo: morto amado nunca mais pára de morrer.

Em África, os mortos não morrem nunca. Exceto aqueles que morrem mal. A esses chamamos de ‘abortos’. Sim, o mesmo nome que se dá aos desnascidos. Afinal, a morte é um outro nascimento.

Plantar. Diz-se assim na língua de Luar-do-Chão. Não é enterrar. É plantar o defunto. Porque o morto é coisa viva. E o túmulo do chefe de família como é chamado? De yinlhu, casa. Exatamente a mesma palavra que designa a moradia dos vivos. Talvez por isso não seja grande a diferença entre Avô Mariano estar agora todo ou parcialmente falecido.

Luar-do-chão:

Nenhum país é tão pequeno como o nosso. Nele só existem dois lugares: a cidade e a Ilha. A separá-los, apenas um rio. Aquelas águas, porém, afastam mais que a sua própria distância. Entre um e outro lado reside um infinito. São duas nações, mais longínquas que planetas. Somos um povo, sim, mas de duas gentes, duas almas.

As casas de cimento estão em ruína, exaustas de tanto abandono. Não são apenas casas destroçadas: é o próprio tempo desmoronando. Ainda vejo numa parede o letreiro já sujo pelo tempo: “A nossa terra será o túmulo do capitalismo”. Na guerra, eu tivera visões que não queria repetir. Como se essas lembranças viessem de uma parte de mim já morta.

Tudo está sendo queimado pela cobiça dos novos-ricos. É isso que sucede em sua opinião. A Ilha é um barco que funciona às avessas. Flutua porque tem peso. Tem gente feliz, tem árvore, tem bicho e chão parideiro. Quando tudo isso lhe for tirado, a Ilha se afunda.

— A Ilha é o barco, nós somos o rio.

Nyumba-kaya:

O luto ordena que o céu se adentre nos compartimentos, para limpeza das cósmicas sujidades. A casa é um corpo — o teto é o que separa a cabeço dos altaneiros céus.

— Já alguém deitou água à casa?

Todos os dias a Avó regava a casa como se faz a uma planta. Tudo requer ser aguado, dizia ela. A casa, a estrada, a árvore. E até o rio deve ser regado.

Cartas de Dito Mariano:

Ainda bem que chegou, Mariano. Você vai enfrentar desafios maiores que as suas forças. Aprenderá como se diz aqui: cada homem é todos os outros. Esses outros não são apenas os viventes. São também os já transferidos, os nossos mortos. Os vivos são vozes, os outros são ecos. Você está entrando em sua casa, deixe que a casa vá entrando dentro de si.

Esta terra começoU a morrer No momento em que começamos a querer ser outros, de outra existência, de outro lugar. Lua-do-Chão morreu quando os que a governam deixaram de a amar. Mas a terra não morre, nem o rio se suspende. Deixe, o chão voltará a abrir quando eu entrar, sereno, na minha morte.

Sabe, Marianito? Quando você nasceu eu lhe chamei de ‘água’. Mesmo antes de ter nome de gente, essa foi a primeira palavra que lhe deitei: madzi. E agora lhe chamo outra vez de ‘água’. Sim, você é a água que me prossegue, onda sucedida em onda, na corrente do viver.

(...)

Me faça um favor: meta no meu túmulo as cartas que escrevi, deposite-as sobre o meu corpo. Faz conta me ocuparei em ler nessa minha nova casa. Vou ler a si, não a mim. Afinal, tudo o que escrevi foi por segunda mão. A sua mão, a sua letra, me deu voz. Não foi senão você que redigiu estes manuscritos. E não fui eu que ditei sozinho. Foi a voz da terra, o sotaque do rio.

Você, meu neto, cumpriu o ciclo das visitas. E visitou casa, terra, homem, rio: o mesmo ser, só diferindo em nome. Há um rio que nasce dentro de nós, corre por dentro da casa e deságua não no mar, mas na terra. Esse rio uns chamam de vida.

O rio, segundo Juca Sabão:

—O rio é como o tempo!

Nunca houve princípio, concluía. O primeiro dia surgiu quando o tempo já há muito se havia estreado. Do mesmo modo, é mentira haver fonte do rio. A nascente é já o vigente rio, a água em flagrante exercício.

—O rio é uma cobra que tem a boca na chuva e a cauda no mar.

QUESTÃO 2

Sobre Um rio chamado tempo, uma casa chamada terra, de Mia Couto, pode-se afirmar, EXCETO:

a) Ultímio, tio de Marianinho, é um personagem ambicioso e influente, que pretende vender Nyumba- Kaya.

b) O protagonista é o narrador, Marianinho, universitário, que há anos reside fora de sua terra natal, ilha de Luar-do-Chão, para a qual retorna devido à morte do avô, Dito Mariano.

c) Dulcineusa, avó do narrador-personagem, era a segunda mulher de Dito Mariano, que já havia se casado anteriormente com Mariavilhosa, falecida em trágico acidente, no qual morre afogada.

d) Uma das mortes enigmáticas do livro é a de Juca Sabão, pai do coveiro Curozero e da bela Nyembeti. O assassinato de Juca choca toda a Ilha. Curozero fora quem abrira a cova para seu próprio pai.

QUESTÃO 3

Sobre o livro Um rio chamado tempo, uma casa chamada terra, de Mia Couto, a afirmativa INCORRETA é:

a) A linguagem do romance é lírica, poética e metafórica, além de trazer palavras da língua africana.

b) Várias lendas e costumes moçambicanos são retratados no livro através de

personagens como a avó Dulcineusa e o coveiro Curozero.

c) Cada capítulo do livro é precedido de uma epígrafe. Tais textos são atribuídos a alguns personagens do livro e a autores como o brasileiro João Cabral de Melo Neto.

d) O título se explica no enredo do romance pela memória familiar que é trazida

à tona na morte do patriarca da família, Dito Mariano, o qual morreu afogado em um rio do lugarejo onde morava.

QUESTÃO 4

Todas as alternativas trazem trechos de Um rio chamado tempo, uma casa

chamada terra que retratam os costumes da família do protagonista, EXCETO:

a) “Meu pai conhece a história da moça do cemitério. É um caso antigo, a menina se divergira do seu destino desde que nascera. Dizia-se, à boca curta,

que ela tomava venenos.”

b) “Desde que eu nascera o Avô Mariano me havia escolhido para sua preferência. Herdara seu nome. E ele, vaidoso, até me trazia às costas, que é

coisa interdita para um homem.”

c) “Levanto-me e dou uns passos à volta, sem direcção. Diz meu pai que, ao acordar, se deve rodar para desfazer as voltas do sono.”

d) “O Avô era o munumuzana, o mais-velho da família. Competia-lhe por tradição a tarefa de matar os animais.”

· Prosa poética:

1. caracterizada pela valorização da oralidade e dos dialetos regionais africanos

2. comprometimento com o processo de renovação da língua portuguesa (no Brasil, semelhanças com Guimarães Rosa)

3. construção do fantástico dentro da realidade de seus personagens

4. uso explícito de criações neológicas

· confronto entre dois universos diferentes: o capitalista e urbano, construído em torno das idéias de progresso e modernidade, e o religioso e mítico, dominado pelos valores ancestrais da comunidade

· Mariano redescobre a sua comunidade em Luar-do-chão, e conhece também a sua própria história. Nascido na ilha, mas habitante da cidade, o jovem é obrigado pelas circunstâncias a ter um novo olhar para as tradições regionais = realizar o cerimonial fúnebre do patriarca da família, bem como resgatar sua identidade africana através das lembranças e revelações que surgem a partir deste acontecimento

· Luar-do-Chão é um pequeno país que está dividido entre a cidade e a ilha, separadas pelo rio Madzimi

1. alegoria da situação de vários países africanos no período pós-colonial, como Moçambique, terra natal de Mia Couto

2. a ilha é o último espaço de convivência entre avô, neto e família neste lado da margem e a derradeira possibilidade de restauração das tradições de que Dito Mariano depende para poder morrer definitivamente, e renascer em outro mundo

· Com a aparente morte de Dito Mariano, ocorre a suspensão da ordem natural das coisas: uma morte incompleta, uma terra que se recusa a receber o filho morto e uma série de misteriosas revelações da família. Seu neto, Mariano, ou Marianinho, é convocado para sair da cidade, onde mora, e regressar à terra natal, Luar-do-Chão. Ele deverá conduzir os rituais fúnebres. Mas o avô está em estado de ‘suspensão’, clinicamente morto, mas ainda não falecido, pois possui alguns fracos sinais vitais.

Malilanes (Marianos = aportuguesamento)

· Dito Mariano (avô, patriarca)

· avó Dulcineusa

· Fulano Malta (pai de Mariano?)

· Tio Abstinêncio

· Tio Ultímio

· Tia Admirança(?)

· A mãe, Mariavilhosa (?)

Outros personagens

· padre Nunes

· taberneiro Tuzébio

· coveiro Curozero Muambo

· Nyembeti

· doutor Amílcar Mascarenha

· a cega Miserinha

· Juca Sabão

· os portugueses Frederico Lopes e Dona conceição

Valores ancestrais da comunidade: crenças tradições, rituais

· As tradições africanas instauram uma visão religiosa do mundo. O universo visível liga-se ao invisível, constituindo a unidade cósmica. Tanto o comportamento do homem em relação a si mesmo, quanto ao mundo que o cerca, assumirá um caráter ritualístico.

Exemplos:

1. Círculo no chão para ser desfeito pela onda, para entrar na Ilha: “O homem trança, o rio destrança”.

2. Retirada do telhado da casa durante os ritos fúnebres para ‘limpeza’

3. Crença no renascimento após a morte

4. A casa deve ser constantemente regada

5. mulher viúva pode ser vista como feiticeira

6. um homem ‘quente’, ou seja, portador de maus espíritos, não pode urinar no chão para não contaminar a terra

7. as mulheres pedem licença ao rio antes de entrar dentro dele

Questão do ‘assimilado’:

8. Mariano vive na cidade, onde adquiriu hábitos dos brancos

9. o Tio Ultímio faz várias negociações gananciosas com os brancos e deseja explorar a Ilha, vender a casa e incrementar o turismo = ironia à situação de conflito vivida por uma elite ambiciosa e culturalmente distanciada das tradições africanas

· Luar-do-Chão encontra-se num estado de abandono, decadência e miséria: impasse cultural, religioso e político correspondente à situação social da África de hoje.
Nessa enigmática Luar-do-Chão, onde um rio armazena a memória dos espíritos e a terra sofre com feitiços explorações do homem, como o desmatamento, a tarefa de Marianinho é encontrar uma forma de levar adiante uma história que, além de pessoal e familiar, na África pós-colonial é também política e de destino humano.

· Nyembeti: simboliza a própria ilha (Moçambique?). Incapaz de falar e dona de hábitos estranhos à maioria, a jovem é predestinada à exclusão e ao ofício de enterrar os mortos, dada sua familiaridade com o mundo subterrâneo.

· Nyumba-Kaya: morada dos vivos e dos antepassados.

1. “Por fim, avisto a nossa casa grande, a maior de toda a Ilha. Chamamo-lhes de Nyumba-Kaya, para satisfazer familiares do Norte e do Sul. ‘Nyumba’ é a palavra para nomear ‘casa’ nas línguas nortenhas. Nos idiomas do Sul, casa se diz ‘kaya’.”

2. Evidencia-se sua posição de centro e de convergência dos familiares

3. Destelhada, segundo as tradições fúnebres, para que o céu se adentre por seus compartimentos, a casa é regada diariamente como uma planta para que as águas não apenas a limpem, mas também a fertilizem e preservem em suas colunas e paredes o saber primordial africano

· Barco afundado, que mata vários habitantes da Ilha, por causa da ganância da elite, que o sobrecarregava com mercadorias,ignorando a segurança do povo de Luar-do-chão

· Juca Sabão e Dito Mariano, sem saber, espalham cocaína nas terras da Ilha, crendo ser adubos químicos. Os traficantes se vingam matado Juca.

· Drama de Mariavilhosa: violentada pelo português Frederico Lopes, teve que recorrer a um tratamento na cidade. Para viajar no barco, se vestia de homem, já que aos negros habitantes da Ilha era vetado o transporte nos tempos coloniais. Ela nunca mais conseguirá ter filhos, a não ser Mariano, que não é seu filho de verdade, segundo nos contará Dito Mariano, ao fim da narração.

· A terra se fecha e não cede à pá do coveiro Curozero:

"O que se passava era, afinal, bem simples: a terra falecera. Como o corpo que se resume a esqueleto, também a terra se reduzira a ossatura. Já sem ombro, só omoplata. Já sem grão, nem poeira. Apenas magma espesso, caroço frio."

· coveiro Curozero Muando: “- A gente não vai para o céu. É o oposto: o céu é que nos entra, pulmões adentro. A pessoa morre é engasgada em nuvem.”

· Dito Mariano:

“- Fazer amor sim, e sempre. Dormir com uma mulher, isso é que nunca. E explicava:

dormir com alguém é a intimidade maior. Não é fazer amor. Dormir, isso é que é íntimo.

Um homem dorme nos braços de mulher e a sua alma se transfere de vez.

· Identificação final entre o narrador Mariano e nyumba-kaya:

“... porque essa casa sou eu mesmo. O senhor vai ter que

me comprar a mim para ganhar posse da casa. E para isso, Tio Ultímio, para isso nenhum dinheiro é bastante.”



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